Por muito tempo, em décadas já passadas, o ensino da escola pública foi considerado o melhor. Não se cogitava, dentro das famílias, a possibilidade de se colocar um filho numa escola particular, até por que esta ainda não tinha nenhuma expressão.
Os melhores e mais famosos professores também lecionavam ali. A clientela discente enfrentava os exames vestibulares obtendo elevados índices de aprovação nos mais diversos cursos.
Mas passado certo tempo, surgiu o apogeu das escolas particulares. Isso ocorreu quando o descaso generalizado do poder público em relação às escolas publicas se tornou prática comum. Estas escolas perderam a qualidade, os profissionais deixaram de ser valorizados e o foco do ensino médio não tinha força para a concorrência nos vestibulares.
Constatar tal realidade por muitos anos, deixa-nos indignados. Milhões de brasileiros que freqüentam o ensino publico – no nível fundamental e médio - se arrastam anos e anos, em busca de um sonho – entrar na universidade e ter uma vida profissional produtiva e de sucesso.
Isso se fortalece com o tempo, até que a desesperança se instala em suas vidas, deixando para trás seus sonhos de formatura e de ter uma vida melhor e promissora, que é dado pelo ensino universitário.
Sonhos enterrados geram transtornos sociais.
O Brasil precisa vencer essas barreiras. Os jovens oriundos de famílias menos favorecidas economicamente, precisam continuar sonhando e atitudes emergenciais e necessárias tem que ser tomadas, para que os sonhos destes jovens não se apaguem.
Como mudar, ou pelo menos amenizar, o atual panorama dessa juventude tão competente, mas carente da boa estrutura de ensino e que anseia ingressar na Universidade Pública?
É inquestionável e indiscutível que o ensino fundamental e médio tem que ser melhorados. O “ponto X da questão” é justamente a qualidade e nível de ensino ofertado hoje.
Mas o que fazer com a enorme quantidade de alunos que já se formaram ou que estão prestes a se formar no ensino médio publico? Serão novamente prejudicados? Será mais uma geração que irá pagar pelo erro do descaso com o ensino público cometido por gestores, que tomam suas decisões balizados em números e não em pessoas?
Se o ensino fundamental e médio, oferecidos pelo poder publico, não é o adequado, então este mesmo poder é o único e principal responsável e deve ser obrigado a absorver o aluno vindo da escola publica. Não pode deixar de resguardar um direito do estudante.
A questão mais freqüente levantada é que haverá uma queda no nível dos candidatos aprovados no vestibular e em conseqüência uma redução da qualidade dos cursos. A realidade não é bem assim.
Será que em um universo imenso, que é o patrimônio intelectual dos alunos das escolas públicas piauienses, não se destacarão melhores? Muitos dos que hoje combatem o sistema de cotas vieram de escolas públicas, porém parecem que esqueceram que naquela época não existia a concorrência acirrada que há hoje e a discrepância entre os dois sistemas de ensino – publico e privado.
Só para citar um exemplo, nos vestibulares dos anos de 2005, 2006 e 2007 da UESPI, para o curso de medicina, de TODOS os candidatos inscritos, somente quatro (04) alunos da escola publica obtiveram êxito e foram aprovados. Isso demonstra a enorme deficiência na participação do aluno da rede publica de ensino nos cursos mais disputados.
Isso acarreta também na falta de estimulo que os alunos tem de se inscrever para os cursos ditos “de ponta”. Isso se observa sem querer menosprezar os demais cursos, mas é uma realidade.
Com esse índice o estudante tem receio de tentar concorrer para cursos como medicina, odontologia, direito, enfermagem, fisioterapia, engenharia, psicologia, entre outros, pois estes são quase em sua totalidade preenchidos pelos alunos da rede particular de ensino.
A UESPI mostra em tabelas e estatísticas, que a maioria dos estudantes são de escolas públicas. Ocorre que omite a informação que estes dados são de todo o estado e que os cursos oferecidos nos campus do interior são quase todos de licenciatura. Omite também a importante informação, e aqui observem, que nas cidades do interior do Piauí a maioria esmagadora dos alunos são de escolas publicas.
Cidades como Jatobá, Assunção, Juazeiro, Guaribas, Cabeceiras, Cocal de Telha, Buriti dos Montes, e assim poderia citar a quase totalidade do estado, não possuem escolas particulares. Todos os estudantes, 100% deles, estão estudando em escolas da rede publica, municipal ou estadual. Dentre esta imensidão de alunos, todos podem crescer e dar bons frutos, basta a oportunidade.
Assim sendo, adotando medidas para garantir vagas para os estudantes da rede publica de ensino, estaremos proporcionando tão somente a justiça social com uma parcela da população carente e que tão somente necessita de uma chance. Com o sistema de cotas sociais, proporcionado pela Lei nº 5.791 de 19 de agosto de 2008, de minha autoria isto de fato se tornou uma realidade no Piauí.
Agora, os alunos oriundos de escolas públicas tem garantido 10% das vagas em qualquer curso oferecido pela Uespi. Nossa intenção é aumentar esse percentual para 30 até 2013.
A Universidade Federal já vem ofertando o sistema cotista há tempos e alcançou um marco de 50% das vagas, com a aprovação pela Câmara Federal. Isso não acarretará discriminação ou preconceito, aqueles que assim o acham é por que estão com uma mentalidade bitolada e atrasada frente ao que chamamos de resgate social.
Sendo assim, temos que ter iniciativa e coragem suficientes para resguardar os direitos de nossos jovens. Por isso sou a favor do sistema de cotas. Os alunos vindos da rede publica de ensino devem ter a seu dispor um numero mínimo de vagas na universidade publica.
Certamente, os contrários ao sistema de cotas, tem seus filhos estudando em escolas particulares, com boa estrutura, tendo a disposição boa alimentação e transporte, como todo bom pai e mãe deve querer e buscar para sua prole, isto é natural e comum. Sempre procuramos ofertar o que há de melhor, dentro de nossas possibilidades, aos nossos filhos.
Mas lembrem-se, mesmo que às vezes desdenhando ou achando utopia, que o "José", o "João", a "Maria", que possivelmente nunca iremos conhecer, também querem o mesmo para os filhos. Trabalham "dia a dia, sol a sol" no sertão, na cidade, no campo e no concreto, tentando deixar os filhos longe da realidade cruel do mundo, livrando-os do trabalho infantil, incentivando-os mostrando as mãos cheias de calo e o rosto cheio de rugas, sonhando com uma vida melhor e lhes deixando o estudo como única herança.
É também para esses pais, que se anulam totalmente diante dos sonhos de educar seus filhos, que o sistema de cotas é criado. É para dar aos pais e aos filhos a oportunidade de um sonho realizado, de uma vida mudada e de um futuro promissor.
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