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••• atualizado em 15 de Setembro de 2011 às 06:52

Decisão por transplante de fígado em Sócrates vai gerar profunda reflexão ética, dizem médicos

Decisão por transplante de fígado em Sócrates vai gerar profunda reflexão ética, dizem médicos
Decisão por transplante de fígado em Sócrates vai Foto: ARQUIVO INTERNETE
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Superado o pior momento da crise de sangramento por cirrose alcoólica, a vida de Sócrates (que está acordado desde a noite desta quarta-feira) passa a depender de uma restauração do próprio fígado. Com o órgão funcionando razoavelmente bem, os próximos passos levarão o ex-jogador a uma decisão delicada: entrar na fila para transplante, receber doação de parente vivo ou optar pela recepção de um ?órgão marginal?.

Qualquer uma das opções ?requer uma reflexão ética?, sugere o médico Raymundo Paraná, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia e chefe do Departamento de Fígado da Universidade Federal da Bahia.

?Antes de entrar na lista de espera, o paciente alcoólatra precisará passar pela abstinência de seis meses e um laudo psiquiátrico deverá garantir que não haveria risco de recaída ao vício?, explica Paraná. ?Mas o paciente precisa demonstrar condição clínica para ser submetido a um transplante. Se o fígado não estiver funcional, o transplante não poderá ser realizado?, avisa o médico.

A discussão ética avança para outras modalidades de transplante de fígado realizadas no Brasil. A mais controvertida parece ser a denominada ?intervivos?:

O paciente não precisa entrar na fila do sistema nacional de transplantes. Um doador vivo se apresenta e se qualifica por exames médicos a doar parte de seu fígado ao receptor. ?Mas essa decisão é de exceção e exige profunda reflexão ética?, explica o hepatologista Paraná. ? Um doador vivo teria de ceder parte de seu fígado para salvar a vida de outra pessoa. No Brasil, usa-se esse tipo de transplante quando pais doam parte do órgão para seus filhos, em situação de extrema necessidade?.

Segundo Paraná, o Brasil tem poucos centros habilitados a realizar o transplante entre pessoas vivas. ?Temos muito mais habilidade quando extraímos o órgão de doadores convencionais, depois de mortos?.

?Na modalidade intervivos, há um risco grande para os doadores, de 15% de complicações e 1% de mortes?, explica a especialista Luiza Romanello, que atendeu Sócrates logo após o primeiro sangramento, em junho de 2010, em Ribeirão Preto: ? um adulto vai ficar sem a metade de seu fígado e terá de passar por um processo de recuperação muito mais difícil que o do receptor. Mas também pode ser feito. Tenho duas pacientes transplantadas que estão muito bem, há cerca de 10 anos?.

Quando o tema é transplante emergencial, a outra alternativa polêmica é a recepção de fígado marginal, que, em tese, pode ajudar o paciente a ter uma sobrevida de uns cinco anos. O médico Raymundo Paraná vê algumas restrições a essa possibilidade:

?Alguns órgãos de pacientes obesos, com hepatite C costumam ser rejeitados pelas equipes de transplante?, explica Paraná. ?Esses órgãos podem ser utilizados em pacientes que precisam mais e não estão na fila, mas a decisão é controversa. Teria de ser uma situação muito específica e muito delicada?, argumenta Paraná.

?Mesmo a questão da fila pode ser discutível com fígado marginal, porque é grande o número de pacientes em necessidade. Faltam fígados para os necessitados mesmo com todos os riscos envolvidos?, finalizou o médico.

Para os médicos consultados por UOL Esporte, Sócrates e outros candidatos a transplantes precisam ter fígados com boa funcionalidade para que a recepção de um novo órgão tenha sucesso.

?O paciente precisa de estabilidade, sem sangramento e com o fígado com boa funcionalidade?, comenta Paraná: ?qualquer modalidade de transplante depende de análise ética dos médicos envolvidos?, recomenda.

Sócrates está internado no hospital Albert Einstein há dez dias. Na primeira internação, o ex-jogador ficou oito dias em tratamento para conter sangramento do estômago. Os médicos implantaram um tips (catéter) entre a jugular do pescoço e o fígado. Na segunda vez, a hemorragia ocorreu no esôfago mas foi controlada.

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