Olhar de Nise retrata história da psiquiatra que se rebelou contra o choque-elétrico

Nise da Silveira, primeira médica alagoana, fez opção pela arte-terapia no tratamento de pacientes com deficiência mental

A história da primeira mulher alagoana a se formar em medicina na Bahia, numa turma só de homens é retratada no filme Olhar de Nise, dirigido pelos cineastas Jorge Oliveira e Pedro Zoca.

Gravado no Rio, Alagoas e na Alemanha, o documentário conta, com muita sensibilidade, a história da doutora Nise da Silveira, que escolheu a psiquiatria e nela escreveu o seu nome por ter se rebelado contra o choque-elétrico e fazer opção pela arte-terapia no tratamento das pessoas com doenças mentais em hospitais do Rio.

O filme estreou no Festival de Brasília e foi exibido também no último sábado, 26, no Cine Odeon, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, com o apoio da comunidade niseana e a renda foi destinada à Casa das Palmeiras, uma clínica aberta pela doutora Nise da Silveira em 1957, no Rio, hoje ameaçada de fechar as portas por falta de recursos.

Segundo Jorge Oliveira, depois da aceitação da crítica, Olhar de Nise está sendo requisitado para festivais em vários países do mundo. A história é interessante e neste documentário os diretores trazem uma entrevista inédita de 1997, dois antes de sua morte, quando Nise fala sobre sua trajetória, da infância em Maceió, com passagem pela Faculdade de Medicina em Salvador, a chegada ao Rio de Janeiro, a sua prisão no governo Getúlio Vargas, quando ficou em uma cela vizinha ao escritor Graciliano Ramos, e o seu ingresso no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, em Botafogo.

O filme contém entrevistas com personagens da cultura e da área psiquiátrica que conviveram com a doutora Nise, como o poeta Ferreira Gullar, Elke Maravilha, ex-pacientes, artistas plásticos, escritores e outras pessoas do meio artístico do Rio de Janeiro.

Entre pesquisa, produção e finalização, o filme demorou quase seis anos para ser concluído. A última gravação foi feita na Alemanha, onde mora o artista plástico Almir Mavignier que ajudou Nise a implantar a arte-terapia dentro do Hospital D. Pedro II, no Rio. O documentário traz para as telas, pela primeira vez, os principais quadros dos pacientes do Engenho de Dentro.

Entre eles, estão pinturas destacadas pelas críticas de Isacc, F. Diniz, Adelina, Rahpael, Carlos, Petrus, Emigdio, cujas histórias são narradas pela própria Nise na entrevista inédita no filme, e por Mavignier, na entrevista em seu atelier em Hamburgo, na Alemanha.

O longa tem reconstituição de cenas ocorridas no Rio e em Alagoas. Em uma delas, Nise da Silveira, no leito da morte, lembra do marido Mário Magalhães, médico sanitarista, primo legítimo, com quem viveu no Rio de Janeiro até a sua morte, que a chama para dançar uma valsa.

“É uma cena comovente. É o início do filme. O casal é interpretado pela atriz Mariana Infante e pelo ator Rafael Cardoso. Trouxe para o filme o grande sonho da Nise que, quando estava à beira da morte, falou que o marido a chamava para dançar. Acho que realizei o grande sonho dessa mulher que está, sem dúvida, entre as grandes personagens do século XX”, relata.

Olhar de Nise é o segundo longa de Jorge Oliveira. O primeiro, “Perdão, Mister Fiel” conta a história do operário Manoel Fiel Filho morto, sob tortura, no DOI-CODI de São Paulo. “Este filme ganhou 14 prêmios no Brasil e no exterior, depois de ser consagrado no Festival de Brasília, onde recebeu o prêmio de melhor filme de Brasília. Antes desses dois longas, produzi outros oito documentários entre curtas e médias metragens, como Mestre Graça, O Poeta e o Capitão, a Esfinge, entre outros”, afirma Jorge.

Jorge gosta de retratar biografias de pessoas que se destacaram pela genialidade na literatura, na poesia, no cinema e na resistência aos regimes ditatoriais, caso de Manoel Fiel Filho. “São personagens da minha aldeia, que me inspiram e me alimentam para produzir. Resgato a história fascinante dessas pessoas, de onde já tirei quatro personagens para os meus filmes (Floriano Peixoto, Graciliano Ramos, Manoel Fiel Filho e, agora, a psiquiatra Nise da Silveira). Acho que devo ser o cineasta que mais retratou gente de sua terra”, declara.


Captar recursos é desafio para quem faz cinema


Formado em jornalismo, Jorge é apaixonado por histórias e fotografias a ponto de fazer suas próprias fotos para ilustrar as matérias “Mas o que me levou ao cinema foi a opção de trabalhar com imagem, fazer uma espécie de reportagem em movimento, por isso, optei pelos documentários. Mas não optei pelo documentário trivial. Uso do recurso da dramatização para reconstituir meus personagens e as suas histórias. Além disso, trabalho muito com a estética fotográfica, quando uso, nos meus filmes, diretores de fotografia para tirar o máximo dos recursos que a luz me permite para captar as imagens e, depois, finalizar meus filmes. Aprendi – se é que aprendi mesmo – fazer cinema vendo filmes, analisando planos, cenas, luz e direção. Entrei em cena com a cara e coragem, como tudo que faço na vida. Assisto filmes como aulas até hoje”, conta.
A maior dificuldade para produzir filme, segundo Jorge, é a captação de recursos. “Mas o desafio mesmo é a incompreensão dos conterrâneos em relação ao trabalho que você realiza. Imagine que alguns meninos que estão começando a fazer cinema na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), liderados por um professor de cinema da faculdade, tentaram impedir o nosso trabalho no set de filmagens em Maceió. Alegavam que o governo não deveria ajudar o nosso filme, porque se não iria faltar dinheiro para a produção local. Uma visão estreita que logo foi combatida pela comunidade que faz cultura no Estado e que sempre apoiou nosso trabalho. Por causa disso, declaro encerrado meu trabalho, como cineasta, na minha terra, trazendo para a tela a última das minhas histórias, a da Nise da Silveira. No próximo ano, começo a rodar um filme que se passa em Belo Horizonte, nos Estados Unidos, no Panamá e no Uruguai, uma produção internacional”, explica.