Em seu novo livro, John Carlin descreve como o esporte ajudou a acabar com o Apartheid
João Gualberto Jr.
Em meados do século XIX, após ter protagonizado batalhas que contribuíram para a unificação de seu país, Giuseppe Garibaldi cunhou a frase: "Criamos a Itália, agora precisamos criar os italianos". O desafio que Nelson Mandela tinha a enfrentar quando foi eleito presidente da África do Sul, em 1994, era bastante similar. Formalmente, a chegada dele ao poder representava o sepultamento do Apartheid após cinco décadas. No entanto, sua nação ainda eram duas: uma menor, branca, separada da maioria negra.
Para unir seu país e seu povo, incluindo a parcela africâner que forjou e se beneficiou do regime de segregação, Mandela exerceu seu carisma e sua inteligência usando como arma a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, sediada em seu país.
Essa passagem, um dos maiores exemplos de utilização política do esporte na história, é o ponto de partida de John Carlin para "Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que uniu a África do Sul".
O lançamento do livro no Brasil é cercado de datas emblemáticas. Há 20 anos, o principal líder negro sul-africano deixava a prisão após quase três décadas. Há 15, a competição internacional era realizada na África do Sul e, no Rio de Janeiro, em 2016, o rúgbi voltará a se tornar uma modalidade olímpica.
Ainda pouco conhecido no Brasil - apesar de ser o segundo esporte coletivo com o maior número de praticantes do mundo - vem ganhando cada vez mais adeptos e, no mínimo, curiosos.
Porém, debruçar-se sobre o trabalho do jornalista inglês é mais oportuno por dois motivos.
Estreou na última sexta-feira a adaptação da obra para o cinema, dirigida por Clint Eastwood. Com o título "Invictus", o filme conta com Morgan Freeman no papel de Mandela e Matt Damon como o capitão da seleção sul-africana na ocasião, François Pienaar. Além disso, este é o ano da África do Sul para nós, amantes do futebol, e também para boa parte da humanidade.
História. A realização da Copa do Mundo de Futebol em junho desperta a curiosidade e, por que não, o interesse em conhecermos a história e a cultura do país sede. E é aí que reside o maior mérito de "Conquistando o Inimigo". O livro não trata apenas do mundial de rúgbi e não se atém ao ano de 1995. São retratados todo o cenário de discriminação praticada com respaldo legal e aparato estatal, o massacre da população negra pobre habitante das periferias das cidades africâneres, o crescimento da pressão internacional contra o regime e, principalmente, o trabalho sagaz implementado por Mandela, desde sua cela até a Presidência, de aproximação e conciliação com os dominantes descendentes de holandeses, os pais e herdeiros do Apartheid.
A dominação branca na África do Sul era sustentada por um tripé formado pelo regime legal de direitos sociais distintos por cor da pele, a Igreja Reformada Holandesa e o rúgbi. Portanto, o esporte e a camisa verde escura do Springboks (como é chamada a seleção sul-africana) eram símbolos de segregação. Mais do que despertar pouco interesse pela modalidade, a maioria negra torcia contra o time nacional, composto sempre por brancos.
Movendo esforços internacionais, líderes do Congresso Nacional Africano (CNA), a entidade partidária negra liderada por Mandela, chegaram a boicotar jogos do Springboks contra outros países, que, tendo contato com as injustiças sociais resultantes do Apartheid, acabavam se recusando a jogar contra a África do Sul. Essa era uma forma de tirar dos africâneres parte do "ópio" que os entorpecia perante aquela realidade interna. A estratégia de Mandela, no entanto, foi outra: fazer do rúgbi um instrumento de conciliação.
Campanha
A inteligente estratégia do presidente Nelson Mandela
Após ter conquistado o direito de sediar a Copa de 1995, o primeiro presidente negro – que também conhecia pouco o rúgbi – empreendeu uma campanha entre seus liderados para que abraçassem a seleção e, indiretamente, para que a minoria branca se sentisse segura com a instauração da democracia e afastasse os fantasmas do revanchismo. Após a mudança no poder por meio do voto universal, a bandeira do país foi trocada, o hino antigo passaria a ser executado na sequência da histórica canção de resistência negra “Nkosi Sikelel iafrika”, mas, sozinho contra os próprios aliados, Mandela não permitiu que o uniforme do Springboks fosse alterado: era a concessão, uma isca para a conquista do inimigo.
Ele ficou amigo da comissão técnica e dos jogadores que, assim como anteriormente com carcereiros, agentes da inteligência, ministros, generais e presidentes brancos, desmoronaram diante da simpatia do messias de pele escura.
Com o mote “um time, um país”, a seleção de rúgbi tinha que jogar contra as expectativas pessimistas, que davam como certo o título para neozelandeses ou franceses, e a favor de algo muito maior que um troféu. Os atletas sabiam disso e, seduzidos que estavam pela causa e por seu principal defensor, lutaram para vencer.
Respeitando detalhes históricos e com a exatidão dos depoimentos colhidos durante sete anos e de fatos ocorridos quando foi correspondente do “The Independent”, de Londres, em Johanesburgo, Carlin em seu livro-reportagem é emocionante em vários momentos.
Detalhe: é claro que o Springboks foi o campeão, invicto. E os jogadores, antes alienados da condição social de seu país, capitanearam uma revolução sem enfrentamento, mas de conciliação histórica, comandados pelo “head coach” Mandela.
Agenda
O que: “Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que uniu a África do Sul”, de John Carlin
Quanto: R$23,90