É possivel um homem fazer sexo com outro e não ser gay? Entenda!

O Science of Us abordou a questão recentemente

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As pessoas são realmente controversas quando o que está em questão é a sexualidade alheia. Em um mundo ideal, onde cada um entendesse que ninguém tem nada a ver com o que as pessoas fazem entre quatro paredes, isso não seria problema, mas a verdade é que a lesbofobia, a transfobia e a homofobia impedem que os intolerantes tenham o mais simples dos raciocínios: cada pessoa tem o direito de fazer o que quiser com relação à própria vida sexual.

O fato é que a sexualidade humana é muito mais diversificada do que supomos. Não é apenas uma questão de hetero, homo e bi. Só a escala Kinsey, que é utilizada como referência nesse sentido, divide a sexualidade em sete níveis. Além desses níveis, tem o highsexual, que são pessoas heterossexuais que têm desejos homossexuais quando fumam maconha; e também a respeito dos g0ys, que são homens heterossexuais que têm relações sexuais com outros homens, mas sem penetração. E o que dizer de homens heterossexuais que fazem sexo com outros homens heterossexuais? Sim, isso acontece.


O Science of Us abordou a questão recentemente e, de fato, estamos diante de mais um tabu sexual: como é possível que homens heterossexuais tenham experiências sexuais com outros heteros e não sejam gays? Simples: da mesma forma que algumas mulheres têm relações com outras mulheres e nem por isso se identificam como lésbicas ou se consideram bissexuais. E aí é comum que algumas pessoas pensem que esses homens são gays que não se assumiram ainda. Isso acontece porque a sexualidade masculina ainda é tratada de forma muito rigorosa: ou o cara é heterossexual tradicional ou é gay.

A professora e pesquisadora Jane Ward, da Universidade da Califórnia, abordou essa questão em seu livro chamado “Not Gay: Sex Between Straight White Men”. Na obra, ela nos lembra de que os conceitos de heterossexualidade e homossexualidade foram definidos há muito mais tempo, e por isso estamos acostumados com eles – mesmo quem não respeita os homossexuais entende que o comportamento homossexual existe.

Para a autora, a concepção da heterossexualidade masculina não é realista. Ela exemplifica isso ao abordar as relações sexuais que ocorrem entre homens em presídios, ainda que muitos detentos sejam heterossexuais. E isso não acontece apenas na prisão. Segundo Ward, esse comportamento é bastante comum em casas de fraternidade e alojamentos militares.

Os homens só não admitem porque é realmente um tabu, talvez até para eles mesmos.Se não causa tanto estranhamento que uma mulher faça sexo com outra mulher e nem por isso se considere lésbica ou bissexual, por que não conseguimos ter a mesma visão com relação ao homem que faz sexo com outro homem e não apenas não se considera gay como ainda se encaixa no perfil do heterossexual?

A autora nos lembra de que nosso estranhamento quando estamos diante de algo que foge da heteronormatividade social não é apenas um ponto de vista conservador, mas também resultado de uma série de pesquisas científicas e psicológicas que, ao longo da História, sempre reforçaram a ideia de que mulheres são seres inerentemente sexuais, disponíveis. Aqui podemos levar em conta também que por muito tempo esses estudos foram feitos sob a ótica masculina, o que explica muita coisa.

Essas mesmas pesquisas sempre consideraram muito mais o homem heterossexual e, quando muito, o homossexual, então não é de se estranhar que o sexo entre homens hetero cause tanto espanto. Por isso, para a autora, é importante falar a respeito de assuntos polêmicos e que, justamente por causarem polêmica, são mantidos abafados e viram tabus.

Ward acredita que é tão difícil enxergar outras possibilidades com relação à sexualidade masculina também porque o homem é sempre descrito como um ser que age racionalmente e que tem impulsos “impensados” por uma questão biológica. Quer um exemplo recente? A separação de Ben Affleck e Jennifer Garner e o suposto rompimento entre Gisele Bündchen e Tom Brady têm alguns pontos interessantes.

A babá Christine Ouzonian é apontada como “pivô” do fim dos dois relacionamentos. Ainda que tenha acontecido realmente alguma traição, as condutas do ator e do jogador de futebol americano raramente são alvos das críticas; e a babá, por outro lado, é vista como a única responsável. Por trás desse julgamento, está a ideia enraizada de que homens são seres que, quando em “tentação”, não controlam seus impulsos biológicos.

Esse mesmo raciocínio faz com que as pessoas busquem motivos para justificar um comportamento sexual masculino que, por ventura, saia dos limites da heteronormatividade. Nas palavras da autora, “os homens continuam inventando razões para encostar-se aos ânus dos outros homens”.Ward avaliou também uma pesquisa realizada na década de 1960, quando o comportamento de indivíduos que se diziam heterossexuais e que, inclusive, eram casados, foi estudado.

À época, era comum que esses homens se encontrassem com outros homens com a mesma identidade sexual, em banheiros públicos, onde realizavam sexo oral uns nos outros.Naquele tempo, a conclusão da pesquisa foi a de que esses homens eram católicos, casados e que não usavam camisinha e também não queriam filhos. Dessa forma, eles eram forçados a buscar outra forma de “aliviarem suas necessidades”.

A autora também cita as brincadeiras muito comumente feitas entre homens heterossexuais, geralmente usando termos pejorativos como “bicha”, “viado”, “afeminado” em diálogos que, na verdade, atuam reforçando a heterossexualidade desses homens que são tão “machos” que até fazem piada com homossexualidade sem o menor problema.

“E esse é precisamente o argumento que eu faço com relação a como e por que é possível que essas práticas homossexuais na verdade reforcem a heterossexualidade, porque elas dão a oportunidade de o homem hetero mostrar ‘eu sou tão hetero que eu posso fazer isso sem, de fato, ter qualquer consequência que seja na minha orientação sexual diária, que é hetero’”, explica a autora.

Outra análise feita no livro é em relação a anúncios publicados em sites de encontro. Há diversos homens que fazem questão de dizer que são heterossexuais, mas que estão à procura de outros caras para algumas experiências sexuais. Nesses anúncios, Ward reparou que a linguagem é sempre “hiperheterossexualizada”, e, em alguns casos, o homem já deixa claro que os dois não vão assistir pornô gay.

Para Ward, não é possível dizer se esses homens são gays ou não, mas muitos deles deram entrevistas sobre o assunto e, apesar de participarem de práticas sexuais com outros homens, se consideram heterossexuais. “O que eu descobri comparando esses anúncios com os anúncios de homens gays foi que os anúncios publicados por esses caras heteros incluem não apenas muita homofobia.

Há muito ‘eu odeio bichas’ e há também muito foco sobre como eles vão falar sobre mulheres. Eles vão assistir pornô hetero”, avaliou.A diferença entre homossexuais e homens heteros que praticam apenas sexo homossexual, para Ward, é principalmente a questão de identidade. Segundo a autora, os gays se identificam com a cultura queer, enquanto os heteros não apenas não se identificam como sentem necessidade de fazer sexo e ter relacionamentos com mulheres.

“Se falamos a respeito de quem pratica sexo homossexual, nós geralmente pensamos ‘bem, apenas gays, lésbicas e pessoas que se identificam como bissexuais fazem sexo homossexual’, mas a verdade é que mulheres heterossexuais têm muito contato homossexual com outras mulheres, assim como homens heterossexuais, e isso significa que quase todo mundo pratica sexo homossexual, então eu acredito que ajudaria se começássemos a ter consciência de que o desejo homossexual é apenas uma parte da condição humana”, finaliza a autora.E você, o que pensa a respeito de toda essa discussão?

Fonte: Mega Curioso