Médicos testam vacina para "arrumar" o cérebro

Médicos testam vacina para "arrumar" o cérebro

Previsão é que novos tratamentos ainda levem anos até serem colocados em prática

Pesquisadores de várias partes do mundo estão investindo em estratégias diferentes para "consertar" o cérebro das pessoas dependentes de cocaína e tentar conter o vício da droga, que cresce a cada ano e já atinge quase 1 milhão de pessoas só no Brasil. Hoje, as tentativas incluem remédios, estimulações magnéticas na cabeça e até uma vacina.

O vício em cocaína, assim como por outras drogas, danifica o cérebro. Por causa dessas alterações, a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera essa dependência como uma doença de caráter crônico, com várias complicações. Trata-se de uma enfermidade determinada por vários fatores, segundo o psiquiatra Philip Ribeiro, do IPq da USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo).

Por isso, a terapia exige uma equipe com profissionais de várias especialidades e não se restringe aos limites do hospital.

- O tratamento é mais complexo. Usamos medicamentos, internações, apoio à família, reinserção social.

No entanto, segundo Ribeiro, os métodos atuais não estão surtindo efeito, o que justifica o aumento do número de usuários e das pesquisas que testam novos tratamentos. Para ele, a cura fica ainda mais difícil com a falta de uma medicação específica e o preconceito.

- O vício não consegue ser visto como uma doença. Muitas famílias são preconceituosas e acham que é um problema de caráter.

Estimulação magnética transcraniana

Para impedir que os usuários continuem danificando seus cérebros, cientistas de todo o mundo estão desenvolvendo pesquisas que vão desde vacinas até a estimulação magnética cerebral. No Brasil, o IPQ testa um novo tratamento por estimulação magnética. Esse método consiste na criação de um campo magnético em uma única região do cérebro, o córtex dorsolateral, que é relacionado ao controle e à expressão

De acordo com Ribeiro, coordenador do estudo, ao estimular essa região, os pesquisadores esperam modificar outras áreas do cérebro que são afetadas pela cocaína.

- A cocaína faz o cérebro funcionar em outra vibração. Com a estimulação, o objetivo é fazer o cérebro funcionar mais próximo do normal.

Para avaliar se o método é eficaz ou não, a pesquisa utiliza como parâmetro a fissura, que é a vontade incontrolável que o usuário tem de sentir os efeitos da droga.

- A fissura tem a ver com esse cérebro modificado. Com a estimulação, o que se quer é reverter essas alterações.

Em outras palavras, os pesquisadores querem consertar o cérebro para reparar os danos causados pela cocaína e, com isso, expulsar a fissura e fazer o usuário não sentir vontade de consumir a cocaína. Por enquanto o projeto está avaliando apenas os viciados na cocaína em pó, que é usada por aspiração (nariz) ou injetada. As outras maneiras de processar a cocaína, na forma do crack e da merla, causam muito mais danos ao cérebro e, por isso, serão estudados em uma etapa seguinte.

No próximo mês de agosto, o pesquisador da USP vai apresentar os dados preliminares do estudo durante um congresso internacional de estimulação magnética que será realizado no Brasil. Desde o início, a pesquisa já recebeu ?centenas de voluntários? para serem testados. Mas, após uma rigorosa triagem, apenas 17 pessoas foram aprovadas para começar a estimulação magnética. Destas, apenas dez concluíram os testes.

Por causa disso, os pesquisadores do IPq estão buscando mais voluntários, porque são necessárias pelo menos 40 pessoas para a conclusão do estudo.

Vacina pode "prender" cocaína no sangue

A pesquisa que causou mais reações, dividindo as opiniões dos cientistas, foi um estudo norte-americano divulgado em outubro do ano passado. Cientistas da Escola de Medicina da Universidade Yale e da Escola de Medicina Baylor apresentaram uma vacina que impede a ação da cocaína no cérebro. Segundo eles, 38% das pessoas testadas produziram anticorpos (moléculas responsáveis por desencadear a defesa do corpo contra infecções) para a droga.

A vacina, que vem sendo desenvolvida desde 1996, estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos que impedem que a droga deixe a corrente sanguínea, bloqueando, assim, seu efeito no cérebro.

Um dos autores do estudo, Thomas Kosten, da Escola de Medicina de Baylor, em Houston, contou ao R7 que a segunda fase do projeto começa nesta semana nos Estados Unidos, com testes em várias regiões do país.

Mas, ainda que tenha suscitado boas expectativas, a vacina levanta dúvidas entre psiquiatras brasileiros que trabalham diariamente com usuários de drogas.

Para a médica Florence Keer-Corrêa, coordenadora do Programa de Álcool e Drogas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), mesmo com essa vacina, o usuário consegue sentir os efeitos da droga. Para isso, ele precisa consumir uma maior quantidade de cocaína, o que pode piorar o problema. Ela diz que "a vacina está longe de ser um bom tratamento".

Já Marcelo Niel, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e pesquisador do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), diz que os resultados divulgados até agora indicam que a eficácia desse tratamento é baixa. Segundo ele, os riscos da substância para o coração e para o cérebro continuam, mesmo que a pessoa seja vacinada.

Ainda assim, Niel afirma que houve bastante evolução nas pesquisas para o tratamento do problema.

- Temos visto mais resultados positivos. A vacina é uma expectativa, mas acho que é um avanço. Estamos caminhando para isso.

Ribeiro, por outro lado, confia que a vacina será útil para prevenir uma recaída do paciente.

- É uma vacina que leva um tempo para gerar imunidade. Mas ela aumenta o reforço positivo, porque dificulta a ação da substância.

Além da estimulação magnética e da vacina, pesquisadores da Universidade de Kentucky anunciaram em maio que estão desenvolvendo um remédio contra a cocaína. Segundo Chung-Guo Zhan, professor de Ciências Farmacêuticas da universidade, os testes em ratos tiveram resultados positivos.

- Essa medicação poderá ser usada para o tratamento de overdose.

Quando a pesquisa vira um tratamento de verdade?

Apesar dos avanços dos últimos anos, as pesquisas levarão ainda muito tempo até se tornarem um tratamento disponível para os usuários. Kosten diz que a vacina irá enfrentar uma terceira fase de testes antes de passar pelo crivo da FDA (agência que regula o setor de medicamentos e alimentos nos EUA). Somente então é que ela estará disponível para tratamento.

Já o psiquiatra da USP espera concluir o estudo sobre estimulação magnética até a metade de 2011.

- Estamos todos numa corrida para resolver um problema grave, o que pode vir de uma solução brilhante, mas nunca de uma solução isolada.

Ele diz que os próximos cinco anos reservam ?grandes novidades?.

- Esse tempo de ?alguns anos? é o tempo mínimo para um procedimento estar disponível como tratamento.

Fonte: R7, www.r7.com