"A música que se ouve no mundo é cada vez pior", diz maestro Júlio Medaglia

O célebre de Caetano Veloso concedeu uma entrevista sobre o assunto

Ex-aluno dos vanguardistas Boulez e Stockhausen e criador de arranjos de canções do célebre primeiro disco solo de Caetano Veloso, em 1967, o maestro Júlio Medaglia – que participará do projeto Acorde Brasileiro – concedeu uma entrevista para falar sobre a música no mundo.

Como se pode alterar o cenário em que as músicas regionais estão distantes da maior parte do público brasileiro?

Não tem jeito. As culturas populares são frágeis, indefesas e vítimas de manifestações renovadoras mais agressivas. Ninguém mais dança tarantelas em Nápoles, csardas em Budapeste,  sarabandas em Madri ou minuetos em Viena. As culturas populares mais ricas e recentes, como o jazz e suas ramificações, a MPB e a infinidade de músicas regionais brasileiras – já que o Brasil tem mais matéria-prima musical do que qualquer outro país, sobretudo as impulsionadas pelos ritmos de origem africana que aqui se multiplicaram –, enfrentam outro “inimigo”, este mais poderoso e perverso: a indústria cultural, a cultura de massa eletrônica. As gravadoras, rádios ou TVs de todo o mundo não possuem mais diretores artísticos, e sim gerentes de marketing. O grande universo pop no mundo saiu da mão dos criadores e está na mão dos produtores, que criam seus monstrengos para serem consumidos e descartados rapidamente.

Júlio Medaglia

A grande cultura pop internacional vive mais em função de efeitismos, de pirotecnias superagressivas, como de resto ocorre nas outras linguagens de entretenimento. É só pegar o controle da TV e ficar passando de um canal a outro dos 500 existentes que só se vê explosões, ataques violentos, autos pelos ares, monstros atacando e coisas assim. Na área musical, os subprodutos do rock, que já é música de bárbaros (com as honrosas exceções), o funk, o punk e, mais recentemente, o rap, o hip-hop e os MCs (que nem pretendem ser músicas), caminham ainda mais rapidamente no sentido da imbecilização coletiva.

Como se pode reforçar a divulgação de músicas menos conhecidas em um cenário de distribuição pulverizado como o que temos na internet?

A internet é a maior maravilha inventada pelo homem recentemente. Mas é burra. Toda a Crítica da Razão Pura de Kant está na internet. No entanto, ninguém virou filósofo por causa disso. Se você colocar no YouTube “9ª de Beethoven”, aparecem mil gravações em áudio e vídeo da melhor qualidade. No entanto, a música que se ouve em grande quantidade no mundo, hoje, é cada vez pior. O que provoca a audição, a aquisição do produto musical maravilhosamente industrializado, é o esquema de marketing das gravadoras, das produtoras de música industrializada. As novas gerações estão cada vez mais reféns desses esquemas.

Qual o papel dos professores de música nas escolas? Como tornar a música atraente para as novas gerações – e que tipo de música deve-se apresentar às crianças primeiro?

Estive mil vezes em Brasília para poder fazer ser votada a lei que torna obrigatório o ensino musical nas escolas. Quando foi aprovada a lei, falei com ministros e secretários de cultura. Não consegui ver nenhuma ideia minha posta em prática. Acho que o banco escolar é a tábua de salvação da sensibilidade musical para as novas gerações. O negócio é fazer o jovem ouvir muita música diferente e de qualidade. Das bandas de pífanos de Caruaru à Quinta de Beethoven, de Edu Lobo a Villa-Lobos, de Benny Goodman a Borghettinho e, a propósito de gaitas, de Chiquinho do Acordeão (gaúcho bravo!), Sivuca e Hermeto (Pascoal) a Toots Thielemans, de Beatles aos Sole Mios do grande cancioneiro napolitano, e assim por diante. Música feita com talento, de qualidade.

O senhor aprendeu com grandes mestres da chamada música de concerto de vanguarda. Mas essa  música contemporânea, em alguns contextos, ainda encontra dificuldade de se afirmar nos programas de concertos de orquestras no Brasil e do Exterior, com algumas exceções. O público ainda é muito nostálgico do romantismo e do classicismo?

Houve muitos equívocos no século 20. Muita música que se criou, teve efeito sazonal. Foi música de festivais. Pretendiam romper esquemas clássicos, mas não deixaram algo no lugar com a mesma consistência. Vejo hoje filmes da nouvelle vague pelos quais babávamos quando aqui chegaram e hoje são insuportáveis. A peneira do tempo se encarregará de selecionar o que vai ficar ou não. A Sagração da Primavera, de Stravinsky, questionou todo o passado romântico, e vai ser executada até o fim dos tempos.

 

Fonte: Zero Hora