Com mais de 2 mil canções, Maria da Inglaterra é a prosopopeia da cultura

Com mais de 2 mil canções, Maria da Inglaterra é a prosopopeia da cultura popular


Engana-se quem pensa que uma cantora e compositora de mais de 2 mil canções viva repleta de luxo e glamour. Pois é em uma casa simples do Bairro Anita Ferraz, zona Leste de Teresina, que mora Maria da Inglaterra. O nome poderia ser de uma rainha inglesa, mas seu império é na cultura popular mafrense. E apesar do talento e legado incontestável da artista, Maria da Inglaterra hoje passa por dificuldades. A voz não é mais a mesma, em razão de um nódulo nas cordas vocais. O problema começou em 2011. “Foi um pesadelo. Esse negócio na minha garganta quase mata minha voz”, comenta a cantora.

E para piorar, no sábado (7), em um pequeno acidente doméstico, Maria quebrou o braço, e agora também está impossibilitada de tocar violão. Mas mesmo assim ela ainda mantém o sorriso no rosto, que se traduz na esperança de voltar aos palcos. “Meu maior sonho é recuperar minha saúde, para depois voltar aos palcos. Quero muito voltar para meu lugar. Já tenho andado por toda a medicina e até agora não dão jeito na minha voz”, diz. “Não exerço mais a profissão [de cantora], mas continuo a compor sozinha. Isso eu não paro”, garante Maria da Inglaterra.

Além da saúde, as contas da cantora também estão comprometidas. Embora Lázaro do Piauí, secretário da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves (FMCMC), tenha garantido que a artista está na folha de pagamento, ela afirma que não recebeu o benefício referente ao mês de março. “Hoje eu não sei mais nem onde eu trabalho. Eu tenho uma folha na Fundação, mas já estamos chegando ao final do mês e até agora não recebi, então não sei se ainda estou na folha”, diz Maria da Inglaterra. Ela recebe como auxiliar da Orquestra Sanfônica de Teresina, que atualmente tem 20 sanfoneiros.

E o peru rodou...

Maria é cantora antes de ser da Inglaterra. Ela conta que, aos 26 anos, após uma anunciação divina, resolveu iniciar a carreira, mesmo sem saber ler ou escrever. Em 1973 subiu pela primeira vez em um palco, e logo foi campeã do Festival Universitário do Teatro de Arena, defendendo a música “O Peru Rodou”, que até hoje é seu maior sucesso. Com o porte educado e fino da artista, logo remeteram-lhe à nobreza inglesa: Ricardo Cravo Albin, que viajava o Brasil com Plano de Ação Cultural (PAC), descobriu a cantora e lhe deu o nome artístico que leva até hoje.

Artista tem esperança de voltar aos palcos

Em razão de seu afastamento da carreira musical, Maria da Inglaterra diz que não consegue mais ouvir música. “É triste”, diz. Porém, o sonho em voltar aos palcos – alguns que já até levaram o nome da artista – continua vivo. “Eu tenho visto gente mais velha do que eu no palco cantando. Quero fazer o mesmo. Sei que não será em poucos dias, mas eu volto. Eu tendo a minha saúde, tenho tudo”, diz sorrindo. Por toda a importância cultural, pode ter certeza que Teresina aguarda ansiosa e agradecida Maria da Inglaterra. (L.A.)

Maria da Inglaterra quer reconhecimento

Autodidata, Maria da Inglaterra nunca pisou em uma escola de música, mas seu talento transcende as academias. “Tenho duas mil e duzentas composições inteiramente minhas: letra, harmonia e música, tudo meu. Eu acho fraco o meu reconhecimento, pois acho que eu deveria ter um grande valor. Sou uma pessoa que não sabe ler e escrever. Nunca tive estudo”, aponta a cantora.

Sobre a situação geral da música teresinense, a artista mostra-se incomodada.“A música teresinense está a mesma coisa de 20 ou 30 anos atrás: muito fraca. Temos bons [artistas], mas pouco reconhecimento. E os poucos que têm não sabem de nada. Não sabem interpretar, falta interpretação”, critica.

Fonte: Virgínia Santos e Lucrécio Arrais - Jornal MN