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••• atualizado em 07 de Junho de 2009 às 12:54

Tempo de estudo aumenta salário, diz estudo

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Repórter

Segundo a pesquisa "Você e o Mercado de Trabalho", da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a cada ano de estudo completado o salário dos brasileiros pode subir 15%. Além disso, as chances de arrumar emprego aumentam em 3,3% por ano de estudo finalizado. Os resultados da pesquisa evidenciam as relações entre educação e ascensão social. No entanto, para ampliar as possibilidades de ocupação e renda, é preciso investir além dos Ensinos Fundamental e Médio.

A importância do Ensino Superior, para a pró-reitora de graduação da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Maria Amélia Sabbag Zainko, vai muito além do diploma. "A universidade, ainda que capacite tecnicamente os futuros profissionais brasileiros, os preparam para o desenvolvimento social do País por meio da melhor percepção dos problemas que o acercam", diz ela. De acordo com a professora, são essas as características que garantem profissões melhor remuneradas. "Quanto maior o nível de escolaridade maior serão os ganhos", resume ela.

O estudo da FGV comprova isso. Ele indica que a taxa média de ocupação de uma pessoa que nunca estudou, por exemplo, é de 59%. Esse índice sobe para 90% quando se fala de brasileiros com 18 anos de estudo, o que inclui profissionais com mestrado e doutorado. A mesma teoria foi comprovada em relação à média salarial dos brasileiros. Apesar das jornadas de trabalho ser similares, as diferenças salariais podem chegar a R$ 4 mil. Enquanto quem nunca estudou recebe, em média R$ 392,14, aqueles que possuem título de mestre ou doutor ganham, em média, R$ 4.454,69.

O coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV, Marcelo Néri, relata que os dados confirmam o chamado fenômeno de retornos crescentes. "Em geral, pessoas com baixa educação ficam presas à armadilha de que estudar pouco é suficiente. Isso é um equivoco", afirma o coordenador. Segundo ele, para alcançar altos retornos, é preciso percorrer toda a trajetória educacional. As maiores taxas de retorno da educação, segundo o coordenador, estão nas regiões com maior escassez de mão-de-obra qualificada. "No Nordeste, por exemplo, o índice de retorno é de 17% a cada ano de estudo. Já no Sul - região com o número maior de pessoas educadas - a média é de 12%", exemplifica.

Neri aponta a educação como principal porta de entrada para as classes de rendas mais altas. Mas, na opinião dele, a vantagem comparativa ainda está no Ensino Superior. "O acesso às universidades brasileiras é mais restrito do que em outros países da América Latina", afirma ele. Enquanto a taxa média de estudantes de 18 a 24 anos integrados ao sistema de educação superior na América Latina e no Caribe é de 24%, o Brasil mantém apenas 13,2% da população jovem na graduação. "Isso explica parte da desigualdade social no País", explica ele.

A ascensão social, no entanto, não está vinculada exclusivamente à renda. De acordo com a coordenadora do programa de pós-graduação em Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Maria da Glória Bonelli, a mobilidade social também está relacionada ao grau de escolaridade e a ocupação do cidadão. "Dinheiro representa apenas condição de conforto, o prestígio na sociedade também pressupõe reconhecimento", explica a socióloga.

Fatores históricos

Ainda que o Ensino Superior seja significativo, o coordenador da FGV acredita que o retorno da educação representa duas corridas paralelas. De um lado, o número maior de brasileiros com acesso às escolas, com conseqüente aumento na oferta de profissionais qualificados. Do outro, maior demanda de mão-de-obra especializada por parte de empresas. "Nos anos 60, a corrida entre oferta e demanda de educação foi vencida pela demanda. O que justifica o fortíssimo aumento da desigualdade social no País. Já nos últimos sete anos, o sinal foi oposto: a oferta educacional tem vencido a demanda", explica Neri.

A história brasileira, de acordo com a coordenadora do programa de pós-graduação em Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Maria da Glória Bonelli, também contribuiu para que a educação se tornasse potencial de acumulo de dinheiro, prestígio e posição. "A mobilidade na pirâmide social sofreu grandes transformações no decorrer dos anos, mas o fator que impulsionou essas transições sempre foi o Ensino Superior", afirma ela. "Na década de 70, por exemplo, a mobilidade social foi representada pelo fenômeno inter-geracional (de pai para filho). Com a urbanização do País, a corrida por profissionais qualificados foi grande. No entanto, apenas os filhos daqueles que já pertenciam aos grupos do topo da pirâmide tinham condições de freqüentar os bancos acadêmicos", conta a socióloga.

Com a expansão do setor no Brasil, no entanto, a mobilidade social mudou. "Como a industrialização não seguiu o ritmo da década de 70, a transição passou a ser circular", afirma Maria da Glória. Ou seja, para conseguir uma vaga no mercado de trabalho é preciso que alguém se aposente ou seja demitido. Segundo ela, a mudança também tem refletido no papel do Ensino Superior. A graduação, na opinião dela, é um requisito para que o brasileiro mantenha sua posição em relação ao topo da pirâmide social, sem se afastar ainda mais do ápice.

O acesso ao Ensino Superior, de acordo com Maria Amélia, também foi impulsionado pelas políticas governamentais de distribuição de renda e de atendimento. "Ações como Bolsa Família, por exemplo, ajudam a nivelar as oportunidades e diminuir desigualdades sociais. Elas propiciaram maior mobilidade entre classes B e C", aponta a pró-reitora da UFPR. Neri concorda. "Mesmo que ainda não seja suficiente, há programas que incentivam a inclusão de jovens de baixa renda na graduação, como o ProUni (Programa Universidade para Todos)", cita o coordenador da FGV.

A iniciativa já contribuiu inclusive para a ascensão social de muitos brasileiros, segundo aponta estudo encomendado pelo MEC (Ministério da Educação). A pesquisa indica que, para 80% dos profissionais formados com bolsas integrais do ProUni, o mercado de trabalho se abriu. "O nível de empregabilidade desses bolsistas aumentou 24%. A expansão foi ainda maior nas regiões Norte e Centro-Oeste, que registraram índice de crescimento de 33%", conta a diretora de Políticas e Programas de Graduação do MEC, Paula Branco de Mello, que aponta que 61% dos profissionais empregados atuam na área de formação. A pesquisa também comprovou que 68% dos beneficiados apresentaram aumento da renda familiar. Na região Nordeste, o índice foi de 70% e no Sul, 69%.

Por outro lado, a democratização do acesso, segundo Maria da Glória, diminui os privilégios proporcionados pelo Ensino Superior. "Quanto mais profissionais, maior a necessidade de partilhar o bolo de empregos e clientes", relata a socióloga. No entanto, a concorrência deveria estimular investimentos maiores na educação. "Para ganhar destaque, não se pode ficar restrito ao Ensino Superior", aconselha a professora da UFSCar. Os profissionais em busca de ascensão social, segundo Maria da Glória, precisam dominar idiomas estrangeiros, conhecer tecnologias da informação e até investir em pós-graduações.

Novas mudanças

Apesar de reconhecer o valor de ações afirmativas, como o ProUni, Maria Amélia acredita que elas possam causar dependência e emperrar o desenvolvimento dos beneficiados. "Bolsa não é trabalho, mas é um dos meios de acabar com a desigualdade no Brasil. Mas é preciso preparar as pessoas para que possam usufruir do seu trabalho", alerta ela.

A possível dependência dos benefícios, de acordo com Paula, foi desmistificada com a experiência dos próprios bolsistas. De acordo com os números do MEC, dos profissionais formados por intermédio do ProUni, 97% se mostraram motivados a seguir os estudos e embarcar na especialização, mestrado ou doutorado. "Além disso, o programa também serviu como instrumento motivador para a própria família", destaca a diretora do MEC, que aponta que oito de cada dez entrevistados dizem que a formação deles motiva e incentiva familiares a começar ou prosseguir nos estudos.

O grande desafio, para o coordenador da FGV, é conciliar a expansão do acesso à Educação Superior com a qualidade do ensino. "O consenso de que educação é o caminho para a transformação do Brasil já pode ser considerado um grande avanço em direção a esse objetivo", acredita ele. Segundo o coordenador, o PDE (Plano de Desenvolvimento Educacional) é um exemplo de que realmente há uma mudança de atitude na política social brasileira. "Se atingirmos as metas estabelecidas para 2021 já seremos um País muito melhor", garante.

Além disso, Neri aposta na construção de um bom sistema de crédito educativo. "Se o ensino gera diferencial, significa que as pessoas têm condições de obter financiamento e, depois de formada, pagar esse empréstimo para que outros usufruam do mesmo benefício", afirma. Para ele, o Fies (Programa de Financiamento Estudantil) não é suficiente. "É preciso pensar em soluções mais gerais, principalmente em relação à taxa de pagamento médio. Enquanto o Brasil se aproxima de zero, o Chile mantém índices próximos a 100%", compara o coordenador. "A economia do futuro será comandada pelos jovens de hoje. Portanto, temos que olhar para eles como parte da solução", afirma ele.

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