Mano Menezes já fala em vencer a Copa do Mundo

Mano Menezes já fala em vencer a Copa do Mundo

Ele fez questão de falar no torcedor brasileiro e em sua percepção do futebol.

O novo técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes, 48 anos, só começa a trabalhar nesta segunda-feira. Mas o discurso deste gaúcho de Passo do Sobrado já soa promissor. Em entrevista exclusiva ao repórter Bruno Laurence, da TV Globo, concedida na tarde de sábado, ele fez questão de falar no torcedor brasileiro e em sua percepção do futebol.

- Eu espero e acredito na capacidade do trabalho, de poder construir juntamente com todos, com a direção da CBF e com o torcedor brasileiro - que é importante - uma seleção que seja capaz de voltar a vencer uma Copa do Mundo, que a gente já está com saudade.... - disse o treinador, que se despede do Corinthians neste domingo, após enfrentar o Guarani às 18h30, no Pacaembu, pelo Campeonato Brasileiro.

A ênfase na visão dos 190 milhões de "treinadores" da população brasileira foi sublinhada com uma bela frase e um raciocínio muito bem-vindo:

- Cabe ao técnico da Seleção procurar traduzir para todo esse povo aquilo que ele quer ver. É isso que vou buscar incessantemente fazer. Quando se consegue isso, se consegue o máximo do trabalho - anunciou o novo contratado da CBF.

Com uma convocação já marcada para a tarde de segunda-feira, Mano deixa escapar um sorriso quando é perguntado sobre quando iria trabalhar nesta primeira missão:

- Olha, nós vamos trabalhar na segunda pela manhã, de maneira oficial. Mas é lógico que já estou começando a delinear ideias na minha cabeça. Tenho ainda que ir me inteirando de como funcionam as coisas na Confederação [CBF]... - respondeu.

Mano disse que pretende montar a comissão técnica com calma, mas já adiantou que irá chamar seu assistente no Corinthians, Sidnei Lobo:

- Ele é meu auxiliar direto. Vamos fazer consultas e conversar com algumas pessoas antes de definir outros nomes - comentou.

Confira abaixo a íntegra do depoimento de Mano Menezes.

SER TÉCNICO DA SELEÇÃO BRASILEIRA

Soa bem. Você vai escrevendo uma trajetória, vai construindo isso. Eu digo que a minha é proporcionalmente rápida para o futebol brasileiro. Mas muito segura. Isso me deu boas garantias de que ela vai continuar sendo segura. Quando você se propõe a fazer um novo trabalho, uma etapa mais importante, mais grandiosa, isso passa segurança interna, ajuda muito.

O técnico da seleção brasileira é um privilegiado. Você poder escolher os melhores jogadores para compor uma equipe, dentre os melhores do mundo - e somos os melhores do mundo -, é sem dúvida nenhuma uma oportunidade única.

A DECISÃO DE TROCAR O CORINTHIANS PELA SELEÇÃO

Em nenhum momento me passou pela cabeça recusar o convite. Apenas precisei me certificar de certas coisas. Gosto das coisas muito claras, para estabelecer que tipo de relação a gente vai assumir depois. Eu exijo muito que cumpram comigo aquilo que combinamos. Porque eu vou cumprir aquilo que combinamos.

Uma decisão precisa ser embasada e [que seja] retirada dela a emoção, o orgulho de ter sido escolhido. Ela tem que ser amparada em pilares mais da razão. Na frente isso vai fazer a diferença. Quando você entra de cabeça você tem que apostar da forma mais segura. Durante esse caminho que que eu vim construindo, em muitos momentos eu não queria receber a oportunidade porque entendia que não era o momento. Mas mesmo não querendo eu tinha uma convicção muito grande de que, se acontecesse o convite, eu deveria aceitar! Porque é assim a vida. As trajetórias profissionais não nos oferecem tantas oportunidades ou oportunidades repetidas. Talvez ela não aparecesse novamente... Eu procurei me preparar bem nessa trajetória. Se as pessoas que estão olhando de fora enxergam em mim as condições para fazer o trabalho, eu procuro corresponder.

A PRESSÃO NA COPA 2014

É normal. Dadas as proporções, não é nada muito diferente de todas as missões que tive até hoje. Acho que falar em conquista da Copa, na necessidade de o Brasil conquistar o título em 2014, é adiantar muito os fatos. Você não consegue nada se não construir uma seleção capaz de suportar tudo que significa jogar uma Copa do Mundo no Brasil. Existem coisas positivas por jogar aqui, mas teremos uma pressão maior, claro.

Temos um chão longo a ser pisado. Temos uma Copa América que vai ser jogada na Argentina, temos as Olimpíadas em Londres... Tudo isso vai fazer parte da formação de uma seleção capaz de suportar a pressão na Copa 2014.

DESAFIOS DE SUA CARREIRA

Proporcionalmente, cada clube que você assume é importante. Em me lembro que em 2001, quando estava saindo da categoria de base do Internacional, em final de temporada, fui convidado para dirigir o Guarani de Vênacio Aires, onde comecei como jogador. O Guarani estava na lanterna do Campeonato Gaúcho, cinco pontos atrás do penúltimo colocado. Assumir um clube nessa condição era um risco total. E acabamos sendo campeões do segundo turno e depois ganhamos o título gaúcho [pela fórmula de disputa vigente em 2001, Grêmio, Inter, Caxias e Juventude só entravam na disputa do que foi chamado Supercampeonato Gaúcho].

Quando saí do XV de Novembro de Campo Bom, depois de ser terceiro colocado da Copa do Brasil de 2004, assumi o Caxias. O time estava na 22ª colocação entre 24 times na Série B. Tinham sido jogadas dez rodadas, só tinha 13 para jogar. Saímos da zona de rebaixamento e fomos ao nono lugar, falou um ponto para classificar entre os oito. Na época, classificavam oito para ver quem subia.

O DIVISOR DE ÁGUAS

Em cada clube, houve trabalhos que exigiram muito. E depois eu cheguei no Grêmio, também na Série B, em 2005. Foi difícil, mas muito mais pela maneira como ela terminou [na épica vitória sobre o Náutico que ficou conhecida como Batalha dos Aflitos, com o Grêmio terminando com apenas sete jogadores em campo]. Mas já era uma reconstrução. Tivemos que formar um time durante a própria competição. E foi o que fizemos. Atingimos a Série A, o objetivo, conquistando o título de forma extraordinária. Aquilo foi um jogo muito diferente de um jogo de futebol, fora do padrão. A exceção da exceção. É quase uma benção, como se dissessem "vamos dar para aquele grupo de homens um prêmio por tudo que passaram"... O clube grande quando cai é sempre muito traumático. Tinha feito um primeiro semestre difícil, não tinha chegado ao final do Campeonato Gaúcho... Fui construindo uma equipe da forma como eu gostava, baseada em preceitos que eu acredito, um nível de profissionais da forma como eu gosto de trabalhar... Era para ter um término com sucesso, mas não daquela maneira...

Enxergo ali um divisor na carreira. Eu já conversei com o Roberto Cavalo sobre isso; é importante ouvir o outro lado, ele era técnico do Náutico. Como foi duro para o lado de lá, e como foi extraordinário para o lado de cá!

CORINTHIANS

Eu vi o Corinthians como uma grande oportunidade de repetir um bom trabalho. Era a primeira vez que eu ia trabalhar em um clube grande fora do Rio Grande do Sul. É difícil vencer num mundo maior, onde as expectativas são maiores, os investimentos maiores, o reconhecimento, um eventual fracasso... Tudo muito maior. Entendi que o Corinthians seria uma grande oportunidade para fazer um trabalho bem realizado. Mesmo estando na Série B. Porque, se tem um momento bom para assumir em um clube maior, é nessas horas, quando as pessoas estão mais humildes. Elas ouvem mais, respeitam mais.

Vivemos momentos difíceis e momentos felizes no Corinthians. Felizmente foram mais momentos felizes, senão não teria chegado a quase três anos de trabalho no clube. A participação do torcedor - do torcedor normal - foi maravilhosa! Nossas viagens pelo Brasil, desde os tempos de Série B deixaram isso muito claro. Tentamos sempre colocar em campo uma equipe que traduzisse esse sentido do torcedor e conseguisse uma identidade com ele, com aquilo que ele pensa do futebol. Ás vezes, a gente conseguiu, nem sempre se consegue. Mas a procura foi sempre essa.

O que vale muito no trabalho de um profissional quando sai de um clube é poder olhar pra trás e ver que deixou algo construído e que mudou, que não vai deixar as coisa como estavam antes.

MANO E A FAMÍLIA

O apelido Mano vem da minha irmã mais velha, que só é um ano e pouco mais velha do que eu. Quando eu nasci, eu era o irmão, o mano. E ela não sabia dizer meu nome, só me chamava assim. E foi ficando o apelido, ficou na carreira como jogador. Quando você se torna técnico, passa a usar o sobrenome. Como eu brinco, é para ter uma certa pompa, né?

Fui parar no futebol por influência do meu pai, que faleceu muito cedo. Ele é o responsável por me fazer gostar de futebol. Em casa, a família sempre me deu apoio. A Maria Inês, minha mulher, trabalha comigo, coordena a nossa empresa. Minha filha Camila também, faz a minha assessoria. É importante no futebol de hoje cuidar da imagem, e esse apoio delas é fundamental. Elas compartilham comigo as horas boas como agora, e estão do meu lado também quando as coisas não vão tão bem.

190 MILHÕES DE MANOS

Eu já dirigi uma nação. Agora vou dirigir a maior nação do futebol mundial. Com a responsabilidade de representar os outros técnicos do país, dirigir os melhores jogadores do mundo - repito. Sou um profissional que tem uma trajetória e sempre segui uma linha. É esta linha que me trouxe até aqui, para dirigir a Seleção Brasileira. E será esta a linha que vai me levar na sequência do trabalho.

Vejo como algo positivo trabalhar com todos esses 190 milhões de "treinadores". Cabe ao técnico da Seleção procurar traduzir para todo esse povo aquilo que ele quer ver. É isso que vou buscar incessantemente fazer. Quando se consegue isso, se consegue o máximo do trabalho.

Fonte: Globo Esporte, www.globoesporte.com