"Trabalhar com Adriano é como desarmar uma bomba", diz funcionário do Corinthians

"Trabalhar com Adriano é como desarmar uma bomba", diz funcionário do Corinthians

O Corinthians perdeu para um inimigo invisível a luta para recuperar a carreira de Adriano

O Corinthians perdeu para um inimigo invisível a luta para recuperar a carreira de Adriano e transformá-lo no novo ídolo da torcida após a aposentadoria de Ronaldo. A lesão no tendão do pé esquerdo, o excesso de peso e a falta de comprometimento em alguns momentos foram importantes, mas na escala de problemas ficam atrás da dificuldade de o Imperador ter um equilíbrio psicológico.

Depois da apagada passagem pelo Roma-ITA e da desistência de atuar na Europa, o Corinthians apostou no carinho para reerguê-lo. A começar pela negociação. O aval de Ronaldo foi seguido de algumas reuniões para que o acordo fosse fechado, a última delas no Rio de Janeiro, envolvendo o jogador e o diretor adjunto de futebol Duílio Monteiro Alves, um dos membros do clube mais próximos a ele neste período.

A ruína, entretanto, começou a partir do grave problema físico, sofrido em um treino leve de saltos, no CT Joaquim Grava, em 19 de abril do ano passado. A empolgação por ter mais uma oportunidade de voltar ao futebol de alto nível foi perdendo força durante o demorado processo de recuperação.

Resultado: com um dos salários mais altos do atual elenco alvinegro, cerca de R$ 380 mil mensais, o jogador recebeu aproximadamente R$ 570 mil por partida disputada. Foram oito jogos oficiais disputados com a camisa do Timão, apenas um deles durante todo tempo em campo, contra o Botafogo-SP, no dia 25 de fevereiro.

A conta assusta ainda mais ao ver quanto cada um dos dois gols de Adriano custou aos cofres do clube: quase R$ 2,3 milhões pela virada sobre o Atlético-MG no ano passado e pela vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo-SP no Paulista deste ano.

"Trabalhar com Adriano é como desarmar uma bomba"

Apesar das tantas negativas da direção, Adriano faltou a várias sessões de fisioterapia, irritando os membros do departamento físico. Em algumas, simplesmente não aparecia no horário marcado, deixando os funcionários esperando. Já em outras, avisava que não apareceria para cumprir a rotina de atividades em decorrência de problemas pessoais nunca explicados. Outro obstáculo para demorar a voltar a atuar foi não seguir as recomendações do corpo clínico, sobretudo para evitar o contato do pé lesionado com o chão.

? Trabalhar com o Adriano é como desarmar uma bomba. Se você cortar um fio errado, explode tudo. É um desafio ? disse um integrante da comissão técnica durante a recuperação, em junho.

A dificuldade em lidar com o Imperador também atingiu o elenco. Apesar do bom relacionamento com os outros jogadores, Adriano não conseguiu levar as amizades para fora do clube pelas mudanças repentinas de comportamento que apresentava. Ao mesmo tempo que atraía o grupo com bom humor, também afastava a todos quando fechava a cara poucos momentos depois, sem nenhum motivo aparente.

Nem mesmo com Ronaldo, grande incentivador da contratação, a aproximação foi maior. Adriano era sempre convidado para as partidas de pôquer dos amigos do ?padrinho? Fenômeno, mas nunca jogava e frequentemente permanecia nos locais por pouco tempo por se sentir deslocado.

Quando não viajava para o Rio de Janeiro nas folgas, o Imperador preferia lugares com pessoas mais simples, como aconteceu no mês passado, quando participou de um samba no Capão Redondo, periferia de São Paulo. Ou então, promovia as próprias festas no apartamento na região do Pacaembu, irritando vizinhos pelo barulho e pelo entra e sai de convidados até altas horas da madrugada.

A chegada de 2012 trouxe uma nova esperança de fazer Adriano se recuperar. O peso quase não subiu nas férias e animou a direção. Mas bastou a má atuação em 45 minutos do amistoso contra o Flamengo, em Londrina, para derrubá-lo psicologicamente. O jogador voltou desolado para os vestiários depois de praticamente não tocar na bola. Por alguns minutos, ficou sentado de cabeça baixa sem falar com ninguém. Apesar do incentivo da diretoria, acusou o golpe e, dois dias depois, faltou à reapresentação, sendo multado.

A oscilação no comportamento aumentou conforme a participação ou não nos últimos jogos. Adriano não gostou da ideia de ficar trancado no CT Joaquim Grava para intensificar a perda de peso, outro grande obstáculo, mas aprovou o resultado, ainda mais pelo gol e pela boa atuação na vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo-SP, pelo Paulistão.

A tão esperada arrancada, contudo, não aconteceu. Os trabalhos seguintes não foram como Tite e o restante da cúpula do futebol imaginavam. Pior: o jogador se abateu com a baixa produtividade na derrota para o Santos, cometeu deslizes fora do clube e escancarou a crise ao se recusar a se pesar na última sexta-feira.

Em entrevista à TV Globo, na quinta, o centroavante revelou seu desejo de renovar o contrato com o clube, mas deixou escapar a insatisfação por não estar presente nas últimas partidas. Ele entendia que ganharia ritmo e evoluiria tecnicamente se atuasse com mais frequência em vez de apenas treinar, o que, gradativamente, o desmotivou. Tite e o departamento físico não concordavam.

O custo de mais de R$ 4 milhões por apenas oito jogos realizados e dois gols marcados resume a derrota do Corinthians em tentar recuperar Adriano. Derrota que São Paulo, Internazionale e Roma também sofreram em outras apostas fracassadas. O que será do Imperador a partir de agora, talvez, nem ele mesmo possa responder.



Fonte: Globo Esporte