Vôlei: Brasil vê sonho do Mundial bater na trave outra vez

Vôlei: Brasil vê sonho do Mundial bater na trave outra vez

Seleção luta até o fim, mas deixa o título escapar no tie-break em Tóquio

O caminho até a quadra é curto. Passos lentos, em marcha, levam as guerreiras até o campo da batalha. Ao lado, um oponente forte, alto e que conhece bem o adversário. Mas elas não se intimidam. Sabem que, na terra dos samurais, a inteligência e a disciplina tática ganham guerras. O duelo é difícil. A tensão do confronto final traz à tona erros do passado, mas também faz refletir sobre os momentos de superação. Não há espaço para uma nova derrota. Quatro anos depois, porém, o triste fim se repete. Com uma vitória novamente no tie-break (21/25, 25/17, 20/25, 25/14 e 15/11), a Rússia destroi a esperança brasileira do título inédito no Mundial e conquista o bicampeonato. A seleção cai diante da rival pela segunda vez e deixa escapar a chance de entrar para a história. Lágrimas em quadra. O sonho acabou.

O Brasil se despede do Japão com uma campanha de dez vitórias em onze jogos e perda de dez sets. E a Rússia chega a um recorde no Munfial. Nunca uma seleção conseguiu fez uma campanha invicta, com onze triunfos na competição. Cuba (1994), Japão (1974) e União Soviética (1956) tinham dez.

Brasil começa avassalador em quadra

Parecia que seria o dia do Brasil. Logo no primeiro set, a seleção mostrou um volume de jogo arrasador, com defesa bem posicionada e Natália virando todas as bolas pela entrada de rede. As russas não podiam acreditar no que viam. Do alto de seus 2,02m, Gamova ? que foi a maior pontuadora do jogo, com 35 acertos ? voava e parava nas mãos do bloqueio de Fabiana ou de Jaqueline no fundo. No placar, a vantagem era de 10/3.

O ritmo foi tão avassalador que teve que diminuir. Depois de três erros do ataque brasileiro, a Rússia começou a gostar do jogo. Gamova virou duas bolas e as europeias encostaram no marcador (14/13). Sassá foi para o saque e dificultou o passe das adversárias. Em seguida, porém, virou alvo. A ponteira foi a direção do saque de Kosheleva e não conseguiu recepcionar bem. Foram quatro pontos seguidos das russas. Sheilla, maior pontuadora do time no jogo, com 26 acertos, assumiu a responsabilidade e quebrou a seqüência da levantadora.

A partir desse momento, o Brasil voltou a brilhar em quadra. Com orientação de Zé Roberto, que gritou ?Vai para a esquerda?, Jaqueline sacou em Makhno e conseguiu um ace. Depois, defendeu um belo ataque de Gamova e deu origem ao 24° ponto. Sheilla veio em seguida e passou pela gigante no bloqueio para fechar o set em 25/21.

Bloqueio para Natália na rede

Mas a Rússia não iria entregar o bicampeonato tão fácil. Na volta para a quadra, a muralha cresceu no bloqueio e parou Natália. Um ace de Sokolova também entrou, e o placar mostrou 6/2. Sem encarar o paredão, Jaqueline encobriu as russas e pontuou com uma largada. Sheilla já veio com toda a potência pelo meio e deixou Sokolova no chão. Mas a porta continuava fechada para Natália, que parou em Borodakova.

Chegou a hora de Startseva voltar ao saque e complicar a vida da recepção brasileira novamente. Foram dois pontos em consequência do bom serviço da levantadora. Sokolova também deu trabalho no fundamento, provocando um erro na combinação de jogada entre Fabíola e Natália, que levou a Rússia a ficar com 13/8. Zé Roberto parou o jogo, e Sheilla virou a bola na sequência.

Joycinha e Dani Lins entraram em quadra. Após o saque da levantadora, Kosheleva se enrolou para receber e mandou a bola longe do lado brasileiro. Depois, Gamova subiu bem alto para atacar, mas encontrou o paredão formado por Fabiana e Natália. Ponto verde e amarelo.

Mas o set era mesmo russo. Joycinha entrou mal no jogo e foi bloqueada duas vezes, com a bola voltando direto nos seus pés. Zé Roberto tirou a oposta de quadra e retornou com Sheilla. Do outro lado, Kosheleva passava com folga pelo bloqueio brasileiro. Perepelkina parou Natália novamente, e a vantagem foi a oito pontos.

Fabi recuperou duas bolas quase impossíveis, e Fabiana cravou na quadra russa antes de sair para a entrada de Sassá no saque. A substituição deu certo, e Sheilla aproveitou o contra-ataque para virar na saída. Em seguida, sob os gritos de seu nome, a ponteira conquistou um ace. Jaqueline também voou na entrada e preocupou o técnico adversário, com o placar em 20/16. Vladimir Kuzyutkin pediu tempo. Na volta, Gamova e Sokolova passaram pelo bloqueio brasileiro, com facilidade. Startseva foi para o saque e, mais uma vez, complicou o Brasil. No ataque de Sokoleva, a Rússia fechou o set em 25/17.

Comemoração engraçada de Fabíola dá o tom do jogo

A seleção voltou com uma vibração diferente na terceira parcial. Sheilla marcou o primeiro ponto e comemorou muito com Fabíola. Natália devolveu a marcação nos dois sets iniciais e pegou Sokolova no bloqueio. Até a gigante Gamova parou no paredão brasileiro. Com o passe na mão de Fabíola, Fabiana chamou a jogada e pontuou três vezes. Era a alegria de volta ao Brasil, que refletia no placar em 8/6.

Depois de duas defesas incríveis de Sheilla e Fabíola, Jaqueline mandou a bola para o chão e levantou a torcida brasileira. A ponteira também subiu com Thaisa para pegar Gamova no bloqueio e deixar a seleção com quatro pontos de vantagem. O ritmo fez com que o técnico russo pedisse tempo novamente. No retorno à quadra, mais um ataque certeiro de Jaqueline. A ponteira foi a que mais aproveitou o contra-ataque promovido pelo belo saque de Fabíola e a defesa bem posicionada.

Kosheleva até tentou parar Jaqueline. Conseguiu um ace em cima dela. Mas depois errou o saque e saiu de cabeça baixa. Sheilla não deu chances para o bloqueio russo. Foram dois pontos seguidos por cima do paredão, com direito a ace dela mesma no final (15/10). Em seguida, a oposta correu para defender e levou uma bola no rosto tão forte de Sokolova, que arrancou o brinco de sua orelha. A joia foi recuperada, já a bola, não.

Não teve problema. Fabiana resolveu com uma pancada no meio, que iniciou uma engraçada comemoração de Fabíola. A levantadora ficou girando com os braços grudados ao peito de olhos fechados e provocou risos de Jaqueline. Tudo era motivo de festa. Thaisa também quis participar e pegou Goncharova no bloqueio. Sheilla entrou na onda e armou o paredão para Sokolova. A diferença foi a seis pontos (20/14).

Gamova virou a estraga-prazeres. A oposta fechou a porta para Sheilla duas vezes seguidas e diminuiu a vantagem brasileira para três pontos. Zé Roberto parou o jogo. Startseva foi para o saque. Momento de tensão? Nada. Na primeira tentativa, Natália já tirou a levantadora da função, com um belo ataque. Sheilla respondeu do outro lado e provocou outro pedido de tempo. Dessa vez, da Rússia. Não dava mais tempo para elas. Sheilla mandou uma pancada no rosto de Sokolova, e Fabiana fechou o set em 25/20.

O bloqueio russo não quis saber da vibração brasileira e subiu o máximo que pôde para deixar a equipe com 6/3 no placar do quarto set. Gamova também passou pelo paredão triplo e aumentou a vantagem. Parada técnica, e Zé Roberto chama o time para conversar. Era a hora de esfriar a cabeça. Mas o ataque russo continuava ignorando a defesa verde e amarela. Gamova voou sozinha na rede e deixou o marcador em 13/6. Kosheleva também marcou o dela. O Brasil desapareceu em quadra.

Natália errou um ataque e abaixou a cabeça ao lado de Zé Roberto, como se perguntasse o que fazer para passar pela muralha russa. Nada dava certo para a seleção. Sheilla mandou para fora, o saque de Gamova bateu na fita e caiu (20/9). Era o tradicional apagão brasileiro em jogos contra a Rússia. Zé Roberto chamou Sassá e Fernanda Garay, no lugar de Jaqueline e Natália. A mudança não funcionou, dessa vez. Na bola de segunda de Startseva e no voo de Gamova, as russas empatarm o jogo (25/14).

Mais uma derrota no tie-break

No início do tie-break, a torcida brasileira mostrou sua força e gritou muito. Thaisa marcou o primeiro ponto e o time inteiro vibrou. Sheilla soltou o braço e deixou o placar em 2 a 0. Gamova passou pelo bloqueio triplo e a Rússia empatou. Sheilla sacou em Sokolova, que errou a recepção. O ginásio virou um caldeirão. A gigante Gamova parou no bloqueio triplo verde e amarelo.

Mas a tensão continuava. Não havia vantagem de mais de dois pontos no marcador. Kosheleva mandou um ataque para fora, Natália pegou defesa de Gamova, mas Jaqueline ficou no paredão russo. Sheilla também errou. Antes da parada técnica, porém, Thaisa virou (8/7).

Sheilla mandou mais uma bola para fora e a Rússia passou na frente. Thaisa foi a solução de novo. Mas Sokolova voou sob o bloqueio para deixar as europeias com 11/9. Natália respondeu do outro lado. Só que as russas tinham Gamova para quase furar o chão, cravando o 12° ponto. Fabiana devolveu a agressividade. Sokolova, porém, somou mais um acerto no jogo. Gamova abriu o caminho para a vitória e finalizou o sonho brasileiro.

Fonte: Globo Esporte