‘Riquismo’, um novo mal econômico

22 de Fevereiro 2012 as 09:51

É muito engraçada a pregação de muita gente pelo extermínio do capitalismo, porque esse sistema econômico é realmente o pior de todos, excluídos os demais – para usar uma variação da frase de Churchill sobre a democracia representativa. Isto posto, voltemos ao velho capitalismo: seus defeitos podem e devem ser realçados. Um deles, em especial: o ‘riquismo’, que prolifera como erva daninha.

‘Riquismo’ é uma deformação do capitalismo. Está em todo lugar. Consiste na ideia equivocada de socializar perdas e dificultar a distribuição de ganhos. Manifesta-se com força em coisas esquisitas como o Tea Party, a ala ultraconservadora dos conservadores norte-americanos, ou no que alguns colunistas sabiamente chamaram de criminalização das ideias de lord John Maynard Keynes.

Nos Estados Unidos, o ‘riquismo’ recorre a tudo para não ser incomodado. Pagar mais impostos, jamais. Alegam que carga tributária a maior para os ricos traz riscos para a economia. Mentira grossa. Segundo Paul Krugman, economista e ganhador do Nobel de Economia, em artigo na Folha de S Paulo, edição de 21 de janeiro passado, “os dias em que os muitos ricos pagavam impostos altos não são coisa do passado distante. Em 1986, Ronald Reagan -sim, Reagan- assinou uma reforma tri-butária que adotava a mesma alíquota máxima para os impostos de renda e sobre ganhos de capital: 28%”. Reagan, como se sabe, foi um presidente que surfou no sucesso econômico.

Os gatos gordos do ‘riquismo’, no entanto, não querem que seus redondos dedos se percam e sequer querem permitir o sacrifício de seus lindos aneis. Como sugeriu Clovis Rossi (Folha de S Paulo, 12 de fevereiro), o ‘riquismo’ impõe uma intervenção antidemocrática na Grécia e "quem paga a crise são os trabalhadores de salário mínimo, a ser reduzido, e os aposentados, cujos vencimentos serão cortados”. Em circunstâncias como essa, os bancos , supra sumo da representação do ‘riquismo’, somente “cedem anéis para poderem manter os dedos gordos, ainda mais engordados pelos juros obscenos”.

Porém, é seguramente na decisão europeia de criminalizar Keynes que se manifesta mais fortemente o ‘riquismo’. Os colunistas Celso Ming (O Estado de S Paulo) e Vinícius Torres Freire (Folha de S Paulo) deploram o que consideram a colocação das ideias de Keynes na ilegalidade: os países-membros da União Europeia não poderão ter deficit acima de 0,5% do Produto Interno Bruto. Isso precisa estar escrito na Constituição dos países.

“Essa resolução pode ser entendida como a condenação de John Maynard Keynes, maior economista do século passado, que, em seu tempo, recomendou como saída de crises de estagnação e desemprego a expansão de déficits públicos, ou seja, o aumento das despesas públicas”, diz Ming, enquanto Torres Freire anunciava que ‘keynesianismo’, ou coisa que o valha, não pode. Emprestar meio trilhão de euros a 1% ao ano para os bancos pode.

Keynes, então, está na ilegalidade pela força do ‘riquismo’. As ações preconizadas para salvar economias falidas pela ganância não visam a atender os mais pobres. Elas são as salvaguardas dos mais ricos. Ou seja, em vez que capitalismo, ‘riquismo’. Em vez de democracia, o ‘donatarismo’. Tristes tempos estes.