Te cala, Nazareno!
José Maria Vasconcelos, cronista, josemaria001@hotmail.com
No alto da Ladeira do Uruguai, congestionamento de carros, curiosos, câmeras e jornalistas, dentro e fora da residência do governador W. Dias. Concluí: “ Isto é coisa do Nazareno!.” Só cabeças-de-chaves petistas e o governador, a portas fechadas. Sem Nazareno, claro, o espalha brasa – como o apelidam companheiros de chapa – causador da urgente reunião.
Nazareno carrega divino nome do Mestre, pomposo sobrenome de Cardeal, que se veste com a mesma cor vermelha do PT. Nazareno tem algo de Azareno no partido, apesar de suas inegáveis virtudes cristãs. Bicudo, ortodoxo, xiíta até, como uma minoria do partido, enfurnada em velhos preconceitos de horror aos ricos (burgueses, como dizia no antanho), aos Estados Unidos, aos partidos, digamos como os avós, de direita. O relógio ideológico dessa gente, insuflada pelo ministro das Relações Exteriores Marco Aurélio Garcia, parou há décadas. Traz bolor de velhos baús marxistas explosivoso. Nessa tribuna, o PT só conseguiu derrota atrás de outras. Foi o talento e liderança de Lula, o mais popular de toda a história política do Brasil, que soube modificar o discurso, abraçar adversários, embora pagando caro por inconsequências e escândalos. O senso coletivo entendeu e soube separar as vantagens sadias.
Queres um conselho, nobre e merecido deputado federal? Te cala. Em bom português, cala-te. A comida está na mesa, há bastante tempo. Não queres comer, não comas, mas não saias por aí falando mal do cozinheiro. Nem agires como viúvo de deputada, depois de umas talagadas em mesa de bar:” A gente penou bastante, vivia na lama. O negócio agora é se arrumar, enquanto estamos no poder.” Horrível, não? Já teu companheiro, Antônio José Medeiros, aprendeu a lidar com a malícia política: No início, franciscano de sandálias, aliança de tucum, mísero sem terno e gravata, tipo pé rachado. Hoje, consegue eleger prefeito, espalhar tapinhas, mimos e petecas. Vês deputado João de Deus? A mesma cara de operário, porém nunca mais atirou petardos de sindicalista exaltado.
Nazareno, bom político não se caracteriz pela quantidade de amigos, adversários e bajuladores. Bom político articula-se e se impõe pelo espírito público. Fala pouco e não adianta suas ambições pessoais. Escolhe a hora certa, como o prefeito Sílvio Mendes. Ademais, não é partido que impõe candidato. Nem exclusividade do chefe. São conveniências saudáveis e de aceitação popular. Vês Jesus Nazareno? Bebia e comia com poderosos e antipatizados romanos e pagãos, sem resvalar para o alcoolismo e glutanismo. Conquistou o centurião romano, que afrouxou ante o divino carisma. Entrou na casa do baixinho Zaqueu, corrupto, comeu, bebeu, ouviu frases de arrependimento. Não é lindo, Nazar,saber que Jesus foi mais pragmático do que teus bicudos princípios batizados de cristãos?
Queres mais um conselho, filho de Deus? Deixa o governador trabalhar. Dá-lhe sossego às pálpebras encharcadas. Vai bater ponto no Congresso: tem Pré- Sal na pauta. Enfim, evita esse formigueiro frente à residência do chefe, que eu preciso passar.