Por José Maria Vasconcelos *
Senti, na fisionomia e comentários dos policiais, repórteres e curiosos, alíviada satisfação, contemplando um dos assaltantes, atropelado e morto pelo automóvel da vítima, que o perseguiu após o roubo. Vibraram-se-me algumas fibras da consciência. Duvidei dos limites das virtudes cristãs, quando não funciona a Justiça dos homens, enviezada e truculenta.
A Bíblia, fonte quase universal de orientação ética, contempla mais a violência do que a misericórdia. É mais assassina que o Alcorão: “ Dente por dente, olho por olho.” No Antigo Testamento, matava-se mais, em nome de Javé, do que nos holocaustos de animais em cultos à divindade. Jesus ensina não dar o troco, porém não é frouxo: pega a chibata e manda brasa nos celerados bagunceiros do templo. E adverte a Pedro, no Monte das Oliveiras, cercados da soldadesca armada: “ Guarda tua espada, porque quem com ferro fere, com ferro será ferido.”Princípio da paz pela paz, mas pela arma se merecer. Nas parábolas, o Mestre mostra remédio amargo aos irresponsáveis e negligentes com as agruras do xeol infernal.
A Igreja, interpretando o zelo biblico e herdando horrores do Império Romano, impôs desumana e cruel justiça, durante séculos, com fogueira, enforcamento, tortura e calabocas aos infieis a seus preceitos, estigmatizando-os de bruxos. Seminários e escolas religiosas, com a bênção dos pais, aplicavam bofetadas e solitárias em crianças e jovens“ malcriados”. A sociedade aprendeu, no altar, como castigar o mal. Escravizavam-se índios e negros na intenção de batizá-los e cristianizá-los, para não deixá-los pagãos nas estepes e florestas.
Depois da execução de Tiradentes, por ordem da rainha louca de Portugal, sinos repicaram, celebraram-se missas em ação de graça e submissão à Coroa, à infalibilidade romana. Condenados pela Inquisição recebiam últimos sacramentos e castigo como expiação dos pecados, na certeza da salvação eterna como prêmio. Veja só como eram interpretadas, não as lições bondosas de Jesus, mas as sanguinárias lições do Antigo Testamento.
Deixemos de lado ortodoxas e bicudas interpretações bíblicas, comuns nas religiões, quando se interpretam adoidadamente capítulos e versículos, ad literam. Hoje, predomina extremada bondade: a doutrina do mimo e alisamento à malandragem, o não-me-trisque ao menor infrator. Joio e trigo na mesma balança. O joio leva vantagem à sombra da proteção à impunidade.
Que senti alívio com menos um bandido, senti. Que merece uma oração de libertação, merece. Só falta, no entanto, justiça aos encarregados da Justiça. Esta é que causou a execução do assaltante, num país de amenidades jurídicas e penais, de revoltar a população, perseguida e morta por bandidos.
* José Maria Vasconcelos – é cronista e professor - www.josemaria001@hotmail.com