José Fortes

Impedida de sair de Cuba, blogueira fala sobre sua luta

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04/10/2009 - 20h:08

ÉPOCA
O Generación Y é provavelmente o mais visitado dos blogs cubanos, com uma média de 10 milhões a 12 milhões de acessos mensais só em sua versão em espanhol. Mas a própria dona do blog, Yoani Sánchez, não pode acessá-lo – nem ela nem nenhum cubano, por conta de um filtro instalado pelo governo de Raúl Castro. Mesmo postando “às cegas” de cibercafés ou hotéis (não é permitido aos cubanos comuns ter internet em casa), Yoani não desanima. Diz que o Generación Y é a forma de “extirpar alguns demônios” de um passado em que ela simulou acreditar nas ideias do regime castrista.

Em entrevista a ÉPOCA, em que Yoani falou por telefone de seu apartamento em Havana, a blogueira diz não confiar em grandes mudanças em Cuba no curto prazo. Bem humorada, afirma que o único ponto positivo na troca de Fidel por Raúl foi o fato de as telenovelas brasileiras terem voltado a começar no horário – antes, elas sempre atrasavam por causa dos discursos intermináveis de Fidel. Yoani também comenta sobre a simpatia do presidente Lula com os Castros e anuncia seu plano de criar uma escola de jornalismo digital junto com outros blogueiros. Leia abaixo:
Ernesto Mastrascusa
ÉPOCA – Qual é sua rotina para atualizar o blog Generación Y?
Yoani Sánchez – Nenhum cubano pode contratar um serviço de internet doméstico, só altos funcionários do governo e estrangeiros. Uma pessoa comum como eu precisa ir a locais públicos, como cafés e hotéis. E o custo é o equivalente a um terço de um salário médio em Cuba – estou falando de US$ 6 a US$8 por hora. Isso me obriga a trabalhar sem conexão, escrever os posts, levar a um cibercafé e programá-los ao longo da semana. Eu me conecto uma ou duas vezes por semana.

ÉPOCA – Você já sofreu algum tipo de intimidação do governo cubano?
Yoani – Só uma vez, em dezembro do ano passado, fui convocada a depor numa delegacia. Disseram que eu tinha ultrapassado todos os limites, mas não aconteceu nada depois. Eles trabalham nas sombras. Fazem campanha de difamação na internet e entre meus amigos e familiares dizendo que sou da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos). E há sempre dois homens do Ministério do Interior em frente a meu prédio. Mas não quero o papel de vítima. Levo isso tudo com um pouco de ironia e de humor, ainda que seja um custo pessoal alto.

ÉPOCA – Já pensou em desistir?
Yoani – O caminho que escolhi não tem mais volta. Não quero sair do meu país, tampouco quero regressar a um período de silêncio e simulação. Quando era mais jovem, aplaudi e simulei acreditar no regime. O Generación Y é uma forma de extirpar alguns demônios.

ÉPOCA – O fato de o governo permitir que você publique seus posts, mesmo sem poder acessar seu próprio blog, não é uma prova de que há mais liberdade de expressão?
Yoani – Para quem me pergunta se o governo está mais tolerante, acho que não. Nós, cidadãos, é que estamos mais atrevidos. Se quisessem me deter nos primeiros meses de vida do blog, poderiam tê-lo feito sem muita gente se queixar. Agora, porém, o custo político de calar a blogosfera seria muito alto. Acho que o governo está pagando pela besteira que fez na Primavera de 2003 (onda de repressão que levou a penas severas de prisão para 75 dissidentes, além do fuzilamento de três homens por sequestrarem um barco para tentar chegar aos EUA). O rechaço internacional foi muito forte.

ÉPOCA – É possível haver em Cuba uma nova mobilização popular como o Maleconazo de 1994 (protesto em que centenas de cubanos enfrentaram a polícia com pedras no Malecón, o calçadão à beira-mar de Havana)?
Yoani – Não acredito. O país anda mal, mas não está com aquela indigência material daquela época. O turismo e o aumento de remessas estrangeiras trouxe dólares para cá, e os que se revoltaram naquela época acabaram tomando o caminho para fora do país. Não há ambiente para uma manifestação daquele porte.

ÉPOCA – Como você se sustenta financeiramente?
Yoani – Trabalhava como tradutora e professora de espanhol para estrangeiros de forma ilegal porque o governo não concede licença a professores autônomos. Mas a repercussão do blog fez com que muitos clientes, por medo, se afastassem de mim. Por outro lado, o blog me abriu portas para o jornalismo no exterior. Assino uma coluna numa revista italiana e colaboro com outros veículos. Se não aparece um artigo para escrever no mês, aperto um pouco mais o cinto em casa.

ÉPOCA – A chegada de Raúl Castro ao poder mudou alguma coisa em Cuba?
Yoani – Gostaria de dizer que sim, mas as mudanças adotadas por Raúl, como liberar a venda de celulares, foram cosméticas. No fundo, Raúl é como Fidel, só que mais discreto. Com um pouco de humor, posso dizer que a única grande mudança foi na programação televisiva. Os discursos de Fidel atrasavam toda a grade horária. Agora, com Raúl, que não fala nada, os cubanos estão felizes porque o horário das telenovelas brasileiras vai ser respeitado.

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ÉPOCA – Qual é sua opinião sobre a relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como regime cubano?
Yoani – Sei que há vínculos de simpatia entre Lula e os Castros, mas isso não se converte em subsídios do Estado, como faz Hugo Chávez com Havana. E Lula faz bem em defender o fim do embargo americano a Cuba, um dinossauro que sobreviveu à Guerra Fria. A ideia dos EUA era asfixiar o governo castrista, mas foi o povo cubano quem pagou pelas consequências materiais.

ÉPOCA – Um dos posts do livro fala sobre ditaduras na América Latina e da atual situação em Honduras. Você considera correta a posição brasileira de dar abrigo ao presidente deposto Manuel Zelaya?
Yoani – Sou uma pessoa muito inexpressiva para poder opinar sobre assuntos de chancelaria tão delicados. E aqui em Cuba tampouco recebemos muitas informações sobre o que se passa por lá. Temo bastante pelo povo hondurenho. Os países latino-americanos somos muito sensíveis a figuras carismáticas que acabam nos pondo a camisa de força do autoritarismo. O que posso aconselhar Lula é defender os interesses do povo de Honduras, não os de um líder. Honduras não é Zelaya ou (Roberto) Micheletti (presidente interino), mas sim o seu povo.

ÉPOCA – Você faz menção no livro às jornadas blogueiras. O que são elas?
Yoani – Uma das coisas mais importantes para mim nesses dois anos de Generación Y foi ver a onda blogueira. Quando comecei, me sentia solitária. Hoje tenho a felicidade de dizer que essa ferramenta está sendo usada por muita gente jovem. A jornada é uma reunião que fazemos quase todas as semanas, com um grupo de mais ou menos 20 blogueiros. Falamos sobre coisas rotineiras, sobre novidades no mundo dos blogs, assistimos a documentários. De vez em quando, recebemos blogueiros estrangeiros, que contam a realidade deles. Agora, temos um plano de criar uma academia de jornalismo digital.

ÉPOCA – Como assim?
Yoani – Queremos ensinar aos cubanos como expandir a rede de informação pela internet. Já temos um grupo de professores, e vamos fazer uma seleção de alunos, porque a procura foi bastante grande. Pelas leis do governo, não podemos fundar uma escola sem licença, mas duvido que eles vão nos impedir. A ideia é começar ainda este ano. Temos alguns laptops, o meu teto, e muita vontade. Pode não ser a melhor estrutura de início, mas em Cuba funciona assim: se a gente for esperar ter as melhores condições para fazer alguma coisa, ela nunca começa.

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