Leonardo Castelo Branco (II)

03 de Novembro 2008 as 10:32

Miguel de Carvalho e Silva casou-se com sua sobrinha, Ana Rosa Clara Castelo Branco, filha de sua irmã Ana Rosa Pereira Teresa do Lago e de Dom Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco.

Miguel de Carvalho e Silva, abastado fazendeiro e agricultor, requereu de João de Abreu de Castelo Branco, do Conselho de sua Majestade, Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão, a fazenda Taboca, com o Sítio da Boa Esperança, em sesmaria. Por não possuir título da terra e sendo legítimo herdeiro de Antônio Carvalho de Almeida, a ele foi concedido o Sítio da Boa Esperança, com a fazenda Taboca, em 13 de julho de 1739.

Miguel de Carvalho e Silva e Ana Rosa Clara Castelo Branco foram pais de Leonardo, Raimundo, Simplício, Mariano e Miguel de Carvalho Castelo Branco.

Miguel de Carvalho, que foi educado em colégio de jesuítas, passou aos filhos os conhecimentos humanísticos.

Leonardo aprendeu português, latim, geografia, física e matemática. Não chegou, contudo, a construir estudos na casa paterna, por ter casado moço com Judith da Mãe de Deus Castelo Branco, indo situar-se na fazenda Limpeza, onde construiu casa e constituiu família.

A casa grande da Limpeza viveu dias de muita glória, mas sucumbiu devido ao abandono de Leonardo à família, com seu envolvimento político na Guerra da Independência, na Confederação do Equador, e sua obsessão em construir o moto-contínuo, máquina de transporte que se movimentaria sem desprender energia. Abandonando a família, acabou toda sua riqueza em prol da causa pública.

Leonardo e Judith da Mãe de Deus Castelo Branco foram pais de nove filhos, sendo três do sexo masculino, um deles, o poeta caçador – Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, e seis do sexo feminino, entre as quais Rosa Lina Castelo Branco, trisavô do co-autor deste texto, Valdemir Miranda de Castro, e ainda Adelaide Rosa Castelo Branco, Angélica Maria Moreira de Carvalho (casada com João de Deus Moreira de Carvalho), Cândida Maria Castelo Branco e Maria Leonor Castelo Branco.

Miguel de Carvalho Castelo Branco, irmão de Leonardo, casou-se com sua sobrinha, Maria Leonor Castelo Branco, fundando em 1827 a casa grande da Chapada da Limpeza.

Mariano de Carvalho Castelo Branco foi casado com Rosa Maria Pires Ferreira. Fundou, em 1847, a fazenda Olho D’água. Quando da confecção das telhas da casa grande, Mariano autografou-as e fez citações bíblicas, desenho de animais e plantas, e nelas colocou datas de aniversário da família. Podemos citar com segurança a data de aniversário, por constar de uma das telhas da casa – a data de 1847, a justos 47 anos e 3 meses de idade. Portanto, nasceu Mariano de Carvalho Castelo Branco, na fazenda Taboca, 8 de setembro de 1800.

A casa grande da Limpeza, de propriedade de Leonardo, sucumbiu pelo abandono de seu proprietário. Se até alguns anos atrás a casa grande da Chapada da Limpeza existia, sendo demolida, ficando somente seus parentes, a casa do Olho D’água ainda hoje existe, para nossa glória e lembrança do que foi a presença dos Castelo Branco em terras que hoje correspondem o município de Esperantina.

Quanto aos dois outros irmãos de Leonardo, – Simplício e Raimundo de Carvalho Castelo Branco –, foram residir na vila de Santo Antônio de Surubim, hoje Campo Maior, onde constituíram família.

LEONARDO, POLÍTICO

Até 1820, Leonardo só se fez notável pela rigidez de seu caráter e inteligência. Em 1821 seguiu, como eleitor da paróquia de São João da Parnaíba, para Oeiras, para votar no pleito que elegeu os representantes da Província do Piauí perante a constituição portuguesa. Lá, diante do colégio eleitoral, recitou bela e patriótica poesia de sua composição onde manifestava seus ideais de liberdade, agradando a todos com seus versos. Infelizmente, aqueles versos não são conhecidos.

Foram eleitos representantes da Província do Piauí, o deputado Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco e o poeta Ovídio Saraiva de Carvalho, que não aceitou o mandato, sendo substituído pelo Pe. Domingos da Conceição.

Proclamada a Independência do Brasil, a Província do Piauí estava sob o comando do Major João José da Cunha Fidié. Na Vila de São João da Parnaíba proclama-se a independência do Piauí a 19 de outubro de 1822. Leonardo das Dores alia-se aos insurgentes e quando Fidié desceu de Oeiras para Parrnaíba, na tentativa de sufocar o movimento separatista, Leonardo com seus companheiros, refugiam-se no Ceará. Em Granja, Leonardo não refreara o seu patriotismo. Aliado ao Capitão José Francisco de Miranda Osório, organizou uma tropa de voluntários em prol da independência, e dividiu em duas linhas. Tomou o comando da primeira, que marchou sobre Piracuruca, e deu o comando da segunda a José Francisco de Miranda Osório, que deveria seguir para Campo Maior.

Leonardo entrou em Piracuruca a 22 de janeiro em 1823, prendeu o destacamento que Fidié ali deixara e proclamou a independência. Em seguida, redigiu extenso termo de proclamação, datado do Quartel de Piracuruca, a 24 de janeiro de 1823 e por ele assinado.

De Piracuruca segue Leonardo para Campo Maior, onde, a 2 de fevereiro, prende o destacamento que Fidié ali deixara, composto do 4º Esquadrão 1º regimento de cavalaria, comandado pelo tenente Egídio da Costa Alvarenga, de 100 homens ao mando do tenente-coronel José Antônio da Cunha Rabelo e de artilheiros, com duas peças de campanha, – e proclamou a adesão da Vila ao movimento de independência e fez aclamação de D. Pedro I, como Imperador Perpétuo do Brasil. Na Igreja Matriz de Santo Antônio, celebrou-se um solene Te-Deum em ação de graças, sendo a cerimônia perturbada por alguns arruaceiros.

Em Campo Maior, Leonardo efetuou algumas prisões como a do Vigário colado, Pe. João Manoel de Almeida. No dia 6, escreveu à Câmara de Caxias, comunicando o movimento separatista e pedindo adesão ao comandante militar daquela Vila maranhense.

Não esperou resposta. Desejoso de ver a família, da qual já estava ausente por algum tempo, dirigiu-se à Fazenda Limpeza, onde residia, arquitetando aí o plano de ir à Vila de Brejo dos Anapurus, na Província do Maranhão, a fim de persuadir seus habitantes à causa da independência.

Com apenas três soldados, segue para o porto das Melancias, no Piauí. Atravessa o rio Parnaíba e entra no Maranhão, onde foi preso a 1º de março de 1823, em Repartição, pelo comandante da Vila, José Antônio Correia. Escoltados pelo tenente de cavalaria, João José Alves de Sousa, Leonardo e os homens com os quais havia sido preso foram enviados a São Luís-MA, chegando ali a 21 de março, sendo aguardados pelo povo nas ruas. No dia seguinte, encontrava-se na cadeia de Ponta da Areia, sendo processado pelo Desembargador José Leonardo da Silva e Sousa. Os documentos que depunham contra ele eram apenas o termo de proclamação do dia 24 de janeiro, em Piracuruca, e algumas cartas tidas como sediciosas.

Depois de processado, foi Leonardo deportado no brigue “Sociedade Feliz” para Lisboa, onde chegou no fim do mês, sendo recolhido à Cadeia do Limoeiro, a 2 de junho de 1823. Sobre esses acontecimentos e as conseqüências sofridas, escreveu estes trechos de uma carta redigida a um amigo:

“Tendo-me demorado 9 dias em Campo Maior, para consolidar a independência que ali fiz proclamar, no dia 02 de fevereiro, regressei a Piracuruca, onde havia deixado parte das forças que trouxe da Vila de Viçosa, dirigi-me depois à Vila do Brejo dos Anapurus, levando apenas 03 soldados, com o fim de me entender com o comandante geral daquela vila, Severino Alves de Carvalho, e persuadi-lo aderir à causa do Brasil, porém ao passar o rio Parnaíba, o oficial que guarnecia o respectivo porto prendeu-me e conduziu-me para a vila de Brejo, donde fui remetido para o Maranhão, dizendo-se na parte oficial dirigida ao governo daquela província que eu era o homem mais perigosa do Piauí.

Recolhido ali à prisão da Ponta da Areia, fui processado pela ouvidor do crime, ficando incluso em muitos artigos criminais! Mandaram-me depois para Lisboa, e finalmente fui ter à cadeia do Limoeiro, em cuja prisão fui muito socorrido pelo deputado do Piauí, Dr. Miguel de S. Borges Leal Castelo Branco, e pelo coronel maranhense Honório José Teixeira, que então se achavam em Lisboa”.

Tendo passado algumas semanas na Cadeia do Limoeiro, Leonardo só foi posto em liberdade, depois que D. João VI, acompanhado do regimento de cavalaria, sob o comando do Conde de Amarante, dissolveu a Corte Portuguesa, tornando-se de novo absoluto. Quando, em virtude do decreto-lei de 6 de junho de 1823 indultando presos políticos, Leonardo dirigiu-se ao Rei pedindo a sua soltura, só conseguida a 22 de junho por acordo da Relação de Lisboa. Sendo dada baixa nas culpas, Leonardo regressou ao Brasil, onde esteve em Pernambuco com o presidente daquela Província, Manoel de Carvalho Paz de Andrade, sendo tratado com muita atenção. Depois de dois anos de ausência, regressou à sua casa. E passou a usar o nome de Leonardo de Senhora das Dores Castelo Branco, como pagamento de uma promessa feita a Nossa Senhora das Dores, sua protetora.

Não gozou, porém, de muita folga, pois, a 25 de agosto de 1824, é proclamada, em Parnaíba, a adesão do Piauí à Confederação do Equador, sob o comando do Dr. João Cândido de Deus e Silva. Leonardo tomou parte ativa no movimento, chegando a induzir gente para uma possível revolução. No entanto, em virtude de portaria imperial de 16 de fevereiro de 1825, Leonardo foi preso pelo presidente da Província, Manoel de Sousa Martins, ficando recluso em Oeiras por um ano, para depois ser remetido a São Luís, onde finalmente recobra a liberdade.

O CIENTISTA

Após as agitações políticas, Leonardo, que também foi gênio inventivo, empreendeu a construção de um mecanismo de moto-contínuo, também tentado por Richard Arkwriyht, de Preston, que ele julgava ter dado solução definitiva. Procurou, então, aprofundar conhecimentos científicos, deixou o Piauí, demorou algum tempo no Maranhão e em 1833 segue para Lisboa, passando a residir na casa do Conselheiro Drumond, Ministro brasileiro da Corte Portuguesa, de quem tinha o prestígio e amizade. Em Lisboa, estudou tudo sobre Mecânica e Astronomia, sendo que, em 1837, publicou em seu poema filosófico-descritivo O Ímpio Confundido.

Em 1843 volta ao Brasil, sempre preocupado com seu projeto mecânico; e em 1849, Leonardo recorre ao patriotismo da Assembléia Províncial. Em lei províncial de 31 de agosto de 1849, conseguiu um empréstimo de 5.000$000 (Cinco contos de reis) para construção de uma barca. A Assembléia autorizou o empréstimo, mas o executivo não liberou o recurso. Por ignorância do presidente, cheio de rancores partidários, perdeu-se a realização de uma obra importante, reveladora do gênio do nosso venerado conterrâneo.

Desiludido e contrariado com a perseguição de presidente Pereti, em 1850 partiu Leonardo para o Maranhão; demorando-se algum tempo, saiu dalí para Bahia, onde se demorou por dois anos, trabalhando na realização de sua grande máquina. Segue para a Capital do Império. Por intermédio do Conselheiro José Antônio Saraiva, Presidente da Província do Piauí, é apresentado ao Imperador D. Pedro II. Do Imperador conseguiu o material, no Arsenal da Marinha, para a construção de seu magnífico aparelho. Fez várias tentativas, todas de resultado insatisfatório. Durante sua permanência no Rio de Janeiro, publicou Leonardo vários escritos, entre eles seu poema científico A Criação Universal.

Seu planos de invento parece nunca terem sido levados a sério por seus contemporâneos. Entretanto, Leonardo nunca teve oportunidades para provar a eficiência de suas invenções. O barco de rodas, impelido por propulsores mecânicos, foi experimentado no rio Parnaíba com resultado satisfatório, apesar do aparelho ter sido confeccionado em madeira.

Muito alto e magro – diz Clodoaldo – compenetrado das sua superioridade intelectual, dos profundos conhecimentos sobre mecânica, astronomia e física que adquiriu nos dez anos que passou em Lisboa estudando, gastou todos os seus haveres. Leonardo era pouco acessível e nada aplaudido. Estudou muito mas cometeu o grande erro de não ter tirado uma carta de formatura. A falta de um título científico muito o prejudicou durante a vida inteira.

“Creio que os seus sentimentos liberais” – suspeita Clodoado – “tocando pelas raias republicanas, e o seu orgulho de mártir político, criaram-lhe uma situação embaraçosa perante os donos da política nacional e provincial.

O Imperador, que diziam ser protetor dos homens de mérito, nunca, na verdade, deu-lhe a devida proteção. Para se ver livre de Leonardo e sem mandar examinar seus planos, D. Pedro II o remeteu para o Arsenal da Marinha, onde, depois de muito labutar, não conseguiu coisa alguma. O Conselheiro Saraiva tornou-se esquivo”.

Não se entende perfeitamente o que seria o moto-contínuo de Leonardo. Alguns afirmam tratar-se de um mecanismo que, disparado sobre a matéria em estado de repouso, ela sairia do estado de inércia sem despender energia, o que é impossível para as leis da física. Em sua execução projetou mecanismos para várias máquinas mirabolantes. Ora para um cavalo mecânico, para facilitar suas andanças; ora para um motor para navegação fluvial; depois para uma descaroçadeira de algodão; e, por último, inventou um pilão movido a mãos por uma máquina de madeira, sendo que, nos dois últimos inventos, os resultados práticos foram excelentes.

De 1860 em diante, diz Miguel Borges que já se sabia facilmente que a fecunda inteligência do venerado piauiense, oprimido sob o peso dos anos e dos trabalhos, começava a decair, e, atacado finalmente por uma grave enfermidade, que se prolongou por alguns anos, faleceu no Sítio Barro Vermelho a 12 de junho de 1873, na idade de 85 anos incompletos, após construir enorme máquina de madeira e metal, que ele dizia ser o moto-contínuo.

Sobre Leonardo, disse Clodoado Freitas:

“Assim foi a vida desse ilustre patriota, o único, afinal, que realmente, sofreu pela causa da Independência entre nós e, por isso mesmo, menos mereceu dos poderes públicos”.

A seu respeito, disse Lucídio Freitas:

“Leonardo iluminou os longes de nossa vida, surgindo aos nossos olhos como símbolo primitivo da nossa raça; desencontrado e furioso como uma onda bravia; sonhador e sugestivo como um deus; firme nas suas investidas, amando a liberdade acima de todas as coisas e vendo na revolução o meio mais prático e mais eficiente para a conquista rápida dos novos ideais políticos. Foi uma das principais figuras das lutas em prol da Independência do Piauí, representando papel saliente na nossa história. Começou pela poesia, sendo, no Brasil, quem primeiro tentou poesia cientifica.”

Afirma Miguel Borges que Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco nunca teve e nunca requereu coisa alguma ao governo, como recompensa dos relevantes serviços prestados ao país. Estusiasta das idéias liberais, sempre soube conciliá-los com os dogmas do catolicismo, do qual foi extremoso e incansável defensor, como se evidencia nos seus versos publicados pela imprensa.

“Enérgico, ativo, empreendedor e perseverante, sempre o mesmo em todas as circunstâncias da vida, este distinto piauiense morreu pobre e pouco deixou para sua família, além do exemplo duma existência honrosa e de estimáveis virtudes”.

OBRAS

Segundo Sacramento Blake, eis a detalhada relação de seus trabalhos:

- O Ímpio Confundido ou refutação a Pigault-lebrum: Poema filosófico, descritivo, dividido em três cantos, publicado em Lisboa em 1837, com 286 páginas.

- O Santíssimo Milagre: Canção em 7 cantos que contém a história completa do Santo Milagre de Santarém, publicada em Lisboa em 1839 com 159 páginas.

- Carta sobre a certa parte do tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, publicada em Lisboa a 15 de maio de 1841.

- Memória acerca das abelhas da província do Piauí no império do Brasil, na qual se descreve a história e, sucintamente, o tamanho, cor, natureza, costumes e produto de cada espécie e suas variedades, declarando-se os nomes pelos quais ali são conhecidas, publicou em Lisboa, 1843;

- Astronomia e Mecânica Leonardina ou Arcanos da Natureza Manifestados, divididas em duas partes: Uma que se refere às leis da natureza e a outra referente à astronomia, publicada em Lisboa em 1843, dividida em 2.422 números; na qual, abordou os mais graves problemas geográficos e astronômicos, dando a todos eles uma solução sempre de acordo com a lição bíblica, interpretando-a, ás vezes, a seu modo quando não podia conciliar com a ciência. A obra foi ilustrada com um retrato do autor em bico-de-pena com idade de 54 anos.

- Juízo ou parecer dado em Lisboa em 1845, a pedido de um diplomata brasileiro, sobre o discurso do tenente-coronel Antônio Ladislau Monteiro Baena, dirigido ao Instituto Histórico do Brasil, datado no Maranhão, 1847, contendo 32 páginas. A esta publicação seguiu-se a carta reservada ao Sr. Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco (Antonio Ladislau Monteiro Baena). E a resposta de Leonardo com data de Oeiras 1849. Contendo 26 páginas.

- A Criação Universal: descrita poética e filosoficamente, poema dividido em 6 cantos conforme a ordem da criação relatada no Gênesis, contendo 4.247 versos brancos e numerosas notas explicativas. Publicado no Rio de Janeiro, em 1856, contendo 153 páginas em linguagem clássica e estilo camoniano.

- Investigação da causa eficiente do Alvoroço Ante-religioso em Lisboa, alcunhado de patriotismo por seus autores, Fração dos Pseudos – liberais e Resposta aos seus Sofismas, dividida em duas partes: Política e Religiosa, publicada no Rio de Janeiro em 1858, contendo 40 páginas.

- Verdades Singelas, refutação mais conhecida pelo título de Voz da Razão, atribuída a José Anastácio da Cunha. Obra que se perdeu num incêndio em sua casa em Lisboa.

Bibliografia a respeito de Leonardo:

Leonardo: Um homem e sua história – Valdemir Miranda de Castro, editado pela Academia de Letras do Vale do Longá/FUFPI, Teresina, 1995;

Referências: Literatura Piauiense – João Pinheiro, Imprensa Oficial, Teresina, 1937;

Apontamentos biográficos e outros – Mons. Joaquim Chaves, COMEPI, Teresina, 1981 – 1º Vol.

Vultos Piauienses – Clodoaldo Freitas, Fundação Mons. Chaves, Teresina, 1998 – 2ª edição;

Nota Introdutória ao livro “Leonardo: Um homem e sua história” – Heculano Moraes;

Leonardo, inaugurador da poesia científica – José Pereira Bezerra, Teresina, 1996.

ANTOLOGIA

Como Leonardo não foi reeditado, mesmo sua mais importante obra, A Criação Universal, então não é possível uma avaliação profunda de sua poesia, o que muito bem poderia ter acontecido. Até agora a crítica não lhe foi favorável, mas há os que discordam. O poeta Paulo Machado é um desses e proclama que ele foi, mutatis mutandi, uma espécie de Sousândrade do Piauí.

João Pinheiro transcreve trechos de O Ímpio Confundido e de A Criação Universal, de cujas transcrições nos servimos:

De O Ímpio Confundido:

Às vezes no horizonte, ao longe, vemos

Surdindo, pouco a pouco, desde o abismo,

Brancas cabeças de enroladas nuvens,

Qual d’altas torres apinhados cumes!

Dum a outro momento cresce, aumenta

De fatal tempestade o anúncio horrível!

Eis, senão quando, toma um corpo imenso

Já negro e feio e em tenebroso manto

Envolve, abafa, o aterrado mundo!...

Fervem os raios, os trovões rebentam!

Rasgando o ar, sussurram d’água gotas;

Solto corre e sibila o irado vento

Quais fúrias do averno s’escapassem,

E consigo arrebata a quanto encontra,

Não lh’ escapam nem mesmo as grandes árvores,

Que desarraiga ou despedaça todas!

Té os penhascos roda e abala os montes!

A natureza horrorizada geme,

Os mares bramam e os rios mugem,

No campo as flores suspirar parecem!

Tudo aterrado está, tudo está triste;

Até os brutos a seu modo espressam

A mágoa, o sentimento qu’ os penetra!

Do poema A Criação Universal:

Deste penoso estado libertou-me

Uma doce toque na minha alma aflita:

Os olhos volvo, e noto, o que não tinha

Até então notado; e é qu’os mundo

Postos em linha reta estavam todos:

Eis que do Eterno um poderoso impulso

A eles dado foi; e todos correm,

Uns com mais ligeireza, outros com menos,

Segundo o plano do Divino Mestre,

Que, ao terminar o impulso, um jeito deu-lhes,

Com que, a um tempo, vão correndo e rotam!

(Qual jogador de bola ao despedi-la,

Dando c’ os dedos de torcer o impulso).

Porém não aos satélites; a estes

Só lhes foi dado o movimento reto.

Notei e vi que estes foram logo

Seus amos cortejando, em torno deles;

Pois da lisonja até os astros gostam;

E por não virar costas a seus amos,

Se vêem precisados a fazerem

Em cada giro rotação completa.

SÍNTESE CRÍTICA

Leonardo escreveu muito. Abordou os mais elevados assuntos, mas talvez por ter vindo a este mundo brasileiro demasiadamente cedo, como firmado nos Pensamentos Morais de Chateaubriand ou mesmo, em contraposição a Musset, ele próprio supunha, justificando o seu insucesso e conseqüente indiferença com que eram acolhidas suas obras, ninguém o compreendeu, nem, certo, o compreenderá.

João Pinheiro

Para a ciência propriamente dita, sua obra não trouxe qualquer contribuição. Mas, por ser obra de um homem nascido e criado numa das mais rústicas Províncias do Norte do Império, é de reconhecer-se que ele se superou a si próprio e honrou a terra natal.

Mons. Joaquim Chaves

Seja como for, Leonardo das Dores, pelo seu trabalho indefeso, pelos seus estudos, pela sua obra sobre mecânica não é de todo um nulo e bem poderia ser, se a tivesse publicado, que fosse um benemérito da ciência. Ele dorme esquecido o sono da morte. A posteridade infelizmente ratifica o juízo dos coevos com relação aos seus trabalhos científicos e literários, mas deve honrar a sua memória como patriota, que trabalhou denodadamente e sofreu gloriosamente pela nossa independência, cumprindo, como nenhum outro contemporâneo, seus deveres de cidadão, através de tremendos padecimentos físicos e morais, sem ter jamais recebido, por tudo quanto fez, a mínima recompensa.

Clodoaldo Freitas

“Poeta, foi o primeiro brasileiro a tentar a poesia científica, escrevendo um poema de 4.247 versos, à moda de grandes épicos, elocubrando sobre o movimento de rotação da terra, a vida dos astros e sua influência no comportamento humano, a criação do homem e Deus. Inventor, passou significativa parte de sua vida tentando criar um mecanismo de moto-contínuo.”

Herculano Moraes

“Pode-se afirmar que Leonardo das Dores Castelo Branco é uma personalidade singular no cenário histórico e cultural piauiense e brasileiro. Ele foi um raro caso de homem de ação, lutando pela independência do Brasil, e, ao mesmo tempo, homem de saber sistematizado e criativo, e ainda um espirituoso poeta de seu tempo, aliás, o primeiro na história da literatura brasileira a inaugurar a poesia científica”.

José Pereira Bezerra

“Sua obra científico-literária A Criação Universal pode ser vista sob três aspectos fundamentais: como obra científica de cunho filosofante; obra religiosa-explicativa das coisas do mundo e poesia telúrica em versos brancos.

Valdemir Miranda de Castro

CONCLUSÃO

A dra. Teresinha de Mesquita Queirós foi quem melhor soube analisar a vida e obra de Leonardo. Embora conterrânea do poeta, soube justificar, isenta de bairrismo, os motivos da falta de correspondência crítica. Portanto, a ela damos a palavra.

“No nosso entender, o motivo da carga desfavorável contra a obra de Leonardo está explicado pelo próprio João Pinheiro, quando afirma: ‘Conquanto inteligente e esforçado, o velho piauiense não correspondeu ao gosto literário de seu tempo. Escreveu muito. Abordou os mais elevados assuntos, mas talvez por ter vindo a este mundo brasileiro demasiadamente cedo (...) ninguém o compreendeu....’

No momento em que João Pinheiro e Clodoaldo Freitas, referindo-se ao terceiro canto do poema A Criação Universal, falam, respectivamente, em descrição feita em versos ou coisa que o parece ( ao menos no modo da escrituração) em tudo nele é prosaico e chato, deixam claro que Leonardo estava muito à frente dos poetas de sua época, pois enquanto os demais estavam presos aos modelos tradicionais do fazer poético, Leonardo já fazia versos sem rimas e sem métrica rígida.

Pouco lido e apreciado, Leonardo julgava-se vindo ao mundo brasileiro demasiadamente cedo para que fosse entendido. Sua vida extremamente movimentada e igualmente precária, sua alienação, real ou presumida, se manifestava para os contemporâneos e foi incorporada por seus biográfos, não só a partir de seus projetos mirabolantes, como de seus escritos ilegíveis.

De qualquer maneira, Leonardo não foi um homem do seu tempo e muito menos de seu lugar, mas é possível que os seus problemas fossem mais próximos de toda uma civilização da máquina e das suas maravilhas que era o tempo europeu dos séculos XVII a XIX, tempo do qual talvez se apropriara pelas leituras e viagens a que pouquíssimas pessoas então tinham acesso. É irrelevante a questão maior: a de que não teve interlocutores e que ainda não foi realizada outra leitura de sua extensa e rara obra.”

É hora de os críticos piauienses redimirem os zoilos do passado, com relação a crítica de seus trabalhos científicos e literários. Quando Alberto da Costa e Silva era embaixador do Brasil em Portugal teve a oportunidade de conseguir sua fabulosa obra A Criação Universal, que, doada ao Departamento de Letra da UFPI, terá dentro em breve sua segunda edição pelo projeto “Reviver”. No Piauí, o único exemplar que o Arquivo Público possuía foi roubado. Um outro exemplar foi encontrado na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.

Em 1996 tivemos a oportunidade de levar ao conhecimento público um pouco mais de sua vida e obra através do trabalho Leonardo: um homem e sua história, solicitado em todo o Brasil, infelizmente esgotado.

Em 1997, pelo projeto do Deputado Olavo Rebêlo, o Governador do Estado cria o Memorial Leonardo de Carvalho Castelo Branco, até agora sem implementação (Lei Nº 4993, de 30 de dezembro de 1997).

Urge uma segunda edição de sua obra literária para que procurem os críticos dar-lhe uma interpretação mais justa. Passamos essa incumbência a Assis Brasil, piauiense que pontifica na crítica nacional como um dos mais competentes, ao emérito Prof. Paulo Nunes e ao historiador Herculano Moraes. Que esses, com paciência e determinação, possam fazer uma análise mais justa de sua obra.

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DADOS BIOGRÁFICOS (dos autores):

VALDEMIR MIRANDA DE CASTRO nasceu em Esperantina, Estado do Piauí, a 21 de agosto de 1969. Professor do município de Esperantina e do Estado, por concurso público. Poeta, humorista e escritor, autor de “Leonardo: Um Homem e sua História”, 1995 e “Aspectos de Esperantina”, 1999.

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA, poeta, ensaísta, romancista, nasceu em Francisco Santos – Piauí, a 16 de junho de 1933. Já publicou 19 obras literárias, entre as quais destaca “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”, 1972, e “Poesia in Completa”, 1997.