Quando o coração bate do lado direito do peito

22 de Julho 2012 as 15:46

“Amigo é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito. Mesmo que o tempo e a distância digam não... o que importa é ouvir a voz que vem do coração”. O trecho da letra da música “Canção da América”, de Fernando Brant e Milton Nascimento se refere ao coração do lado esquerdo do peito, onde são “guardadas” as emoções. Mas para quem tem o coração do lado direito do peito, ou melhor, os órgãos invertidos, os amigos, as emoções são guardadas do lado oposto ao lado esquerdo do peito.

A engenheira Civil Cecília Maria Batista Campos, de 50 anos de idade, a funcionária pública Maria Nazaré Silva e o estudante de iniciais D.P.C (preferiu não se identificar, por motivos pessoais) têm algo em comum: eles têm o coração do lado direito do peito, residem em Teresina e vivem de bem com a vida. Cecília Maria Batista descobriu aos vinte anos de idade que tinha o coração do lado direito.

“Sempre que eu ia fazer exames de raio x para apresentar na universidade para a disciplina de Educação Física, um funcionário via o coração do lado direito e virava o raio x e grampeava ao contrário. Um dia um médico me explicou que meu coração era do lado direito e eu entrei em pânico, porque achava que ia morrer”, relata Cecília Batista, acrescentando que, nesse dia, ficou tão transtornada, que o médico foi deixá-la em casa, onde conversou com a mãe de Cecília.

"Meu coração bate do mesmo lado que o coração do meu marido"

A engenheira conta que, a partir daí, passou a perceber que ter o coração do lado direito era normal, porque seu coração não tinha nenhum problema, a não ser o fato de ter nascido do lado oposto do da maioria das pessoas no mundo. Ela diz que leva uma vida normal, casou, tem dois filhos adultos, comemorou bodas de pratas e “casou novamente”, com o mesmo marido, claro. “O lado bom de ter o coração do lado direito é que o meu coração bate do mesmo lado do coração do meu marido”, brinca.

Cecília Batista conta que em todos os seus documentos pessoais constam mensagens com avisos de que ela tem “situs inversus totalis”, ou seja, todos os órgãos invertidos. Ela lembra também que antes da descoberta “oficial” feita por um médico, ela passou por um vexame. Cecília conta que teve uma dor na perna, e o médico que a examinou disse que ou se tratava de uma apendicite ou ela estava grávida. “O médico já ia me levar para o centro cirúrgico, quando chegou uma médica, interveio, fez outros exames e descobriu que eu estava com um cisto em um dos ovários”, relata Cecília Batista, acrescentando que, por precaução, costuma realizar exames, anualmente, uma espécie de check-up.

Ciência desconhece causa específica da inversão do órgão

De acordo com a fonte eMedicine (em inglês), esse quadro acontece quando os órgãos internos estão posicionados como a imagem do espelho, do lado oposto ao que deveriam estar. Essa transposição intrigante atinge apenas 0,01% das pessoas e parece atingir igualmente homens e mulheres.

Quando você se olha no espelho, você vê uma imagem invertida de si mesmo. Em muitos casos, a inversão de órgãos não diminui a expectativa de vida da pessoa, nem prejudica sua qualidade de vida. É por isso que algumas nem sabem que apresentam o problema. O quadro pode ser diagnosticado acidentalmente - uma descoberta casual durante um procedimento médico não relacionado, como uma cirurgia abdominal. O situs inversus e outros transtornos relacionados também podem ser diagnosticados por meio de raio x, de ultra-sonografia, de tomografia computadorizada e de ressonância magnética (em inglês). Também por meio da ultra-sonografia, os médicos conseguem detectar inversão de órgãos do feto ainda no útero.

Na maioria das vezes, não há necessidade de tratar órgãos invertidos. Órgãos inteiros podem estar invertidos, mas em alguns casos algum tipo de intervenção pode ser necessária. A Ciência ainda não sabe ao certo porque uma pessoa nasce com os órgãos invertidos. Os cientistas sabem apenas que pode-se observar uma mutação nos genes de pessoas com órgãos invertidos, mas a causa específica da mutação e sua natureza são desconhecidas.

A cada 100 mil pessoas, 5 podem ter órgãos invertidos

O cardiologista Benício Sampaio diz que o coração do lado direito (situsinverso) é raro. Segundo ele, o coração se forma por volta de trinta dias e é nesse momento que é definido o lado que não só o coração, mas os outros órgãos, vão ficar. “Essa é uma situação onde o coração está em uma posição invertida, mas é normal, anatomicamente”, explica o médico, acrescentando que a pessoa que tem o coração do lado direito, pode ter uma vida normal e arrisca dizer que a cada cem mil pessoas, três e até cinco, podem nascer com os órgãos invertidos. E muito raramente, alguma delas pode ter algum tipo de problema no coração.

Descoberta assusta, mas é possível ter vida normal

No caso da funcionária pública Nazaré Silva, de 50 anos, a descoberta de que ela tinha o coração do lado direito foi feita por sua madrinha. “Ela estava balançando, comigo, em uma rede, quando sentiu meu coração do lado direito e alardeou, para minha mãe, que imediatamente me trouxe para Teresina, onde foram feitos vários exames. Os exames constataram que o meu coração era do lado direito e que isso era normal, que eu poderia conviver normalmente com isso”, lembra.

Nazaré Silva conta leva uma vida normal e nunca deixou de fazer nada, pelo fato de ter o coração do lado direito. As pessoas que trabalham e/ou convivem com ela, não acreditam na sua história. “Elas só acreditam quando põem a mão no meu peito e sentem que meu coração bate do lado oposto do delas. Faço academia, caminhada e espero viver mais do que as outras pessoas”, diverte-se.

Estudante

A mãe do estudante D.C.P, de 28 anos, Jesus Pereira Carvalho, relata que descobriu que o filho tinha o coração do lado direito, quando ele era bebê. “Ele teve uma alergia pelo fato de ter pego poeira e eu o levei ao médico. De repente, o médico que o atendeu chamou outros médicos e quando um deles me falou que meu filho tinha o coração do lado direito eu fiquei desesperada. Mas com o tempo, percebi que ele era uma criança supernormal e altamente saudável. Ele nunca teve nenhum problema no coração”, finaliza.