Um dia, No Rio de Janeiro, às sete e quarenta da manhã, dirigindo era meu Fiat Prêmio, o qual na realidade era castigo e não prêmio, ouvindo uma rádio de notícias, estava sendo entrevistado um cantor do nordeste, que por discrição vou de abster de nominá-lo.
Ele contava que uma noite, lá pelos inícios da madrugada, saía do Recife Antigo. Chuviscava; olhou para o lado, sob uma marquise havia um garoto, com seus, aproximadamente, doze anos, encolhido choramingando.
Chegou perto dele, disse o cantor,e perguntou o que estava acontecendo. E o menino respondeu:
- “Me perdi de minha mãe”.
Disse o cantor:
-Então vamos procurá-la.
-Minha mãe morreu moço.
O cantor sem graça perguntou como ele estava se sentindo, como um início de uma ação de auxílio.
Respondeu o menino:
- “Pode fazer nada não, moço. Tô com sodade dela, moço. Tô com vontade de vê ela de novo, moço”
Então não prestei mais atenção a entrevista e imaginei como um menino de doze anos, sem cultura, sem lar, sem casa, sem mãe, certamente com fome, com frio, na chuva, define “saudade” tão bem ou melhor que o mestre Aurélio Buarque de Hollanda.
Claro, porque ele tinha sentimento.
Estou lembrando, agora desse fato, porque há vários dias, nos canais de TV que assisto enquanto almoço, vejo cenas e reportagens de mortes, fome, desgraça e tudo que não deveria ser mostrado durante as refeições. Não posso desligar a TV, porque almoço fora de casa. Quando muito, não olho para a TV, mas ouvir, não consigo deixar. Ainda não temos domínio sobre esse sentido. Posso não querer ver, posso não querer experimentar meu paladar, posso não tatear, posso tapar meu nariz para restringir o olfato por algum tempo, mas deixar de ouvir, não podemos.
E aí me pergunto a mim.
Por que nesse horário de almoço nossos canais não mostram temas que possam nos aculturar e despertar o nosso orgulho de povo nobre, levantar a auto-estima?
Por que não são mostradas cenas do cerrado, com sua plantação, cultura e colheita de grãos, principalmente soja, dizendo e mostrando que nada existe de diferente de outras regiões do Brasil e certamente do mundo?
Por que não mostramos nossa qualidade de profissionais de saúde, evidenciando a nossa referência no Norte e Nordeste?
Por que não se orienta politicamente aos que votam, principalmente numa época tão própria?
Por que não damos informações sobre a qualidade de ensino e a massa de instituições de ensino superior existente, formando profissionais para que possam elevar a qualidade de vida no Estado?
Por que não mostramos o Piauí?
Não me digam que esses programas se existissem, não teriam audiência e com isso não haveria patrocinadores. Não me digam que não há interesse da população em conhecer as verdades do nosso Estado. Não me digam que os telespectadores não gostariam de conhecer tudo que o Piauí oferece ou tem condição de gerar e produzir.
Não me digam que preferimos ouvir desgraças ou informações que geram medo e infelicidade a aprendermos o que somos e o que melhor poderemos ser e fazer.
Não me digam que pode ser veiculada por três minutos, às 7 horas no Bom Dia Piauí, cena de turismo, informações econômicas e ambientais sobre locais de Aracaju, Natal, Salvador, só para mencionar algumas cidades e não podemos mostrar cena de turismo, informações econômicas e ambientais, semelhantes, do Piauí.
O garoto do Recife só chorou e definiu saudades porque tinha sentimento. Só poderemos definir as potencialidades do Piauí se tivermos sentimento.
Só poderemos ter sentimento se nos mostrarem com realidade o que podemos fazer, se nos ensinarem a ter amor ao que temos e é nosso.
Se a gente não gritar pela aculturação, talvez todos estejamos em baixo de uma marquise chorando com frio e saudades do que não fomos capazes de fazer e, portanto correndo o risco de nunca sermos.
Emissoras, produtores, imprensa de modo geral, empresários, experimentem criar, divulgar, escrever artigos, fazer reportagens, patrocinar programas, não só para o Piauí, mas principal
É hora de mexermos com nossa auto-estima, nossa de brasileiro eu quero dizer.
O mundo mostra hoje, uma população de seis bilhões de pessoas. Isso escrito por extenso, não causa impacto, mas escrito de forma numeral - 6.000.000.000 assusta. Pois bem, assusta muito mais se soubermos que desses seis bilhões, cinco bilhões, é 5.000.000.000 estão na classificada Camada 4, isto é, pessoas que tem um rendimento anual menor do que mil e quinhentos dólares. Isto representa 83,3% da população, vivendo abaixo da linha da pobreza. Os números internacionais vão mais longe, mostram que dessas cinco bilhões de pessoas, um bilhão e quatrocentos milhões - 1.400.000.000 vivem se é que vivem na mais miserável situação, recebendo menos que um dólar por dia, mais uma vez, menos que US$ 1/dia. Mais uma vez, essas pessoas representam 23,3% da população. Uma reportagem mostrou que a FGV revelou que 61,7%, um milhão e quinhentas mil pessoas vivem, no Piauí abaixo da linha da pobreza. Será verdade? Numero menor que os números mundiais. Diz esse JORNAL que desses um milhão e meio, há um contingente de quinhentos mil vivendo em miséria absoluta, o que foi qualificado como “indigentes”. Não sei, mas pergunto novamente: Será verdade? Esse número de indigentes representa 20,2% da população do Estado do Piauí, cifra também menor do que as mundiais, mostradas pela ONU. Claro que isso é terrível e não nos deve servir de consolo. Temos que ser melhor que o mundo e não “menos pior”. Acontece que em outros países, as imagens que nos revelam são imagens que nos deixam invejosos. Essas imagens muitas vezes não são verdadeiras. Claro que sei e até por ter vivido em alguns países que lá se pode viver mais confortável do que aqui e que cenas de misérias não são tão expostas, mas, por exemplo, quero lembrar que em Nova Iorque, no inverno, há em média 178 incêndios por noite devido à falta de dinheiro para calefação e os habitantes dos bairros pobres, aqueles que não são mostrados internacionalmente, para se aquecerem e não morrerem congelados, dentro de suas casas, põe fogo em tambores de metal, com madeiras e jornais e muitas vezes incendeiam seus lares, geram incêndios enormes, que também não são mostrados, nem lá. Isso é miséria. Só não é indigência porque essas pessoas recebem um seguro desemprego que não lhes permite morrer. Acontece também que essas situações de pobreza estão sendo analisadas por empresas privadas, gerando trabalho e oportunidades de sobrevivência digna, até que o trabalho seja efetivamente gerador de renda. Vejam o que a Singer faz em parceria com o Banco Grameen (primeiro prêmio Nobel da Paz, recebido por um banqueiro), de Bangladesh, que faz com que 504.000 pessoas, dessas que estão entre os 1.400.000.000, comprem máquinas de costura que custam US$ 100, pagando a cada vinte dias US$1, é um dólar. O que faz a SELF uma ONG que criou um fundo de crédito para fornecer energia à China pobre, a Índia, ao Nepal, ao Vietnã, só para citar alguns. E há mais de uma centena de empresas que podem estar enquadradas nessa situação. O fato é que, internacionalmente estima-se que em 20 anos, lá em 2030, haja o epicentro social e a Camada 4 esteja no meio das tecnologias de ruptura. Vamos analisar o que está sendo proposto e executado em Sri Lanka, na Índia, na China, na Indonésia, países que tem um volume de habitantes assustador. Vejamos o que os mestres da Administração e da Economia, C.K. Prahalad, Stuart L. Heart, e muitos outros, para não tomar espaço desse artigo, hoje, estão propondo às empresas privadas, e que estas estão executando, e não esperando pelas ações dos governos. É claro, que os governantes tem uma grande parcela de contribuição, mas cabe a economia privada a responsabilidade maior, a responsabilidade muito maior de gerar possibilidades de ganho, gerar as palavras que estão na moda que todos falam, mas muito poucos fazem muito pouco; emprego e renda. Há um estudo estatístico que mostra que é mais fácil crescer quando pequenos, do que d
Era uma vez, há muito tempo, em um condado distante, grande, populoso e economicamente importante, havia um interventor sério, um homem rico, com sua família muita bem constituída. Tinha um casal de filhos. Em outro condado, não tão grande, mas tão economicamente importante, morava uma família com uma história conhecida nos dois condados e em muitos outros. Era a família de um nobre militar, um almirante. Esse chefe de família havia sido fuzilado em uma revolta em terras distantes. Essa família nobre tinha toda a pompa, mas sem nenhum dinheiro aparente, já que as autoridades lhes haviam tirado tudo, até o título, pela participação na revolta, o que não causou grande problema para o futuro, porque pouco tempo depois, mudava o regime governamental. Essa família nobre também tinha um casal de filhos, dentre outros. Como a única propriedade que permaneceu com a família nobre estava localizada no condado do interventor; a família do nobre mudou-se para lá. O condado era pouco populoso, naquela época, e foi fato o estreitamento da amizade. Seus filhos se casaram. Curiosamente a filha da família do intervetor, casou-se com um filho da família nobre e uma filha da família nobre casou-se com o filho varão da família do interventor. Formavam-se assim duas novas famílias, com sobrenomes cruzados. Todos viviam em harmonia. Cresceram, tiveram mais herdeiros, dentre eles uma filha, a primeira, que na nobreza chama-se morgada, isto é a filha mais velha da filha mais velha, quando não havia filhos homens. A morgada conheceu um estrangeiro, na faculdade. Casaram-se. Conta a história que esse homem, plebeu, aos olhos da família que se associara, fez todo o esforço para se igualar a família da morgada, cheia de ranço heráldico. Estudou línguas, entrou para o mundo acadêmico, escreveu livros, até plantou árvores. Eles tiveram um filho. Ele criou esse menino enchendo-o de cultura, contando-lhe histórias reais e irreais, forjando-o, talvez o homem que ele gostaria de ter sido. Dizem que os pais da morgada eram senhores admiráveis. Ela, filha do nobre, senhora da casa, ele, filho do interventor, engenheiro. Todos protegendo e zelando por esse filho único, continuador das famílias. Passaram-se os anos e esse menino cresceu. Muito educado, formou-se como militar, seguindo a tradição, mas deixou todo o ranço nobre para o passado. Conta ainda a história que ele foi criado dentro de todas as intolerâncias. Acreditava na honestidade, na seriedade de comportamento, na lealdade. Ganhou outras culturas, muitas, mas muitas outras e viveu em outros condados e até em outros mundos. Aprendeu outras línguas e outras muitas ciências. Fez amigos, poucos, já que a história conta que ele era muito difícil. Os mais velhos dizem que a história conta que esse menino, sempre teve vontade de produzir alguma coisa real. Dizem que ele voltou a terra onde sua mãe e seus avós tinham feito coisas muitas. Mas quando chegou encontrou uma diferença de mais de meio século. Era uma cidade pertencente a um condado diferente do que lhes contaram. O regime político era distinto, havia um rei que ficava no poder temporariamente, depois de um tempo a corte e a plebe escolhiam outro. A cidade era pequena, se comparada a de origem do filho da morgada. Nessa cidade aceitavam todos os forasteiros que fossem úteis provisoriamente à sociedade e queridos pela corte. Mas essa mesma corte os alijava quando eles se transformavam em imigrantes formais. Mas como o filho da morgada havia vivido em muitas plagas, acreditou que poderia produzir alguma coisa de bom, sério, de útil como seus avós fizeram, mesmo com essa característica de rejeição tão presente. Não deixaram. Parece que ele tentou. Fez-se presente na sociedade. Viveu um par de anos e até fez laços triviais com uma fada, dizem que era uma fada. Mas ele era ou é orgulhoso de sua cultura, de sua educação, de seus predicados e por não acreditar nos vícios sociais locais e nem nas hi
Há algum tempo li um artigo do meu amigo José Roberto Whitaker Penteado, sobre aquela velha história do copo não completamente cheio; aquela história que conta sobre o otimista e o pessimista, conhecida e muito própria. Só para lembrar; o otimista o vê meio cheio e o pessimista o enxerga meio vazio. Ele dizia que circula nas web"s que os países economicamente estáveis, o crescimento dos bens de consumo é baixo, ao passo que os paises em desenvolvimento o consumo é crescente. Para exemplificar; na Inglaterra o segmento de biscoito, há 10 anos não apresenta evolução, nos EUA, o segmento de cerveja cresceu nos últimos cinco anos apenas 2%. No Brasil, país emergente, ainda caminhando para maturidade, o crescimento é assustador e convidativo a investimentos.
Vamos falar de crescimento! Em nosso país, mercado de fraldas descartáveis os últimos cinco anos cresceu 859%, O leite longa vida onde decresce em todo mundo, no Brasil apresenta um crescimento de 219%. Que água mineral cresceu 81%. E o Piauí? O Piauí que tem água. O Piauí cresceu o de consumo de diesel alguma coisa da ordem de 100%, em 4 anos, isso é desenvolvimento real. O Piauí apresentou o segundo maior crescimento de cimento “portland” do nordeste, perdendo apenas para o Maranhão, isso é desenvolvimento real. Poderia até dizer mais, mas vou contar uma história rápida.
Há alguns meses, um amigo, trouxe três holandeses para conhecerem o Piauí. À noite me convidou para um bate-papo, ao som de “scotch”. Eu não bebo whisky, abri o Frigobar e peguei uma cajuína. Um dos visitantes me perguntou o que era e me foi difícil explicar em inglês, apesar de me expressar muito bem. Depois desse sacrifício ele quis saber quanto tempo a cajuína agüentava viva na garrafa, e eu disse mais ou menos dois anos, sem conservante, sem corante, absolutamente natural. Ele quis saber onde estava localizada a fábrica, eu expliquei que não havia, era artesanal, familiar. Nesse momento um outro visitante pegou o telefone e pediu que trouxessem doze garrafas e as empacotou para levar para a Holanda.
Sou capaz de apostar que dentro de algum tempo eles montam uma fábrica de cajuína aqui, e nós mais uma vez vamos ficar esperando que as coisas caiam em nosso colo, ou melhor, em nosso solo. Como nós sabemos que nosso consumo cresce e esses visitantes também o sabem. Como nós sabemos que o consumo em seus países está caindo e eles também o sabem. E aí, que a “coisa pega”, como usa dizer o escritor e professor, José Roberto. Queremos ter um copo cheio, um copo que nós o tenhamos enchido, todo, não somente parte, ainda que seja a maior parte.
Aí eu imagino meio copo com cajuina, tesouro também desconhecido. Nem cheio nem vazio. Vejo-o cheio, para as oportunidades e para as potencialidades do Piauí. E quando não sei das ações tomadas para mostrar esse gigante ao Brasil e aos demais países que possam estar interessados. Quando não conheço as resoluções, só os ensaios, sem atividades operacionais e estratégicas para apresentação de tudo que aqui existe disponível e viável para um crescimento real e auto-sustentável (palavra da moda), entendo que existe um "deixar a desejar" enorme. Eu particularmente vivo olhando copos. Às vezes cheios, muitas vezes vazios, algumas vezes pela metade. Agora o estou vendo quase vazio e fico com medo, medo da velocidade que os outros podem ter, ou o medo da velocidade que não temos e que deveríamos ter.
Vejo um copo quase vazio com um pouquinho de cajuína. A parte sem cajuína é o que deixamos de oferecer ao mundo, é a parte não produzida em escala, como produto real e que, a meu ver o copo está vazio. Nesse caso até os otimistas não conseguem saboreá-lo. O copo está vazio, sem cajuína.
Obrigado José Roberto, obrigado pelo artigo, no qual pude ter um exemplo. Estou mandando uma garrafa de cajuína para você. Cheia heim!
Um fato absolutamente verídico. Durante as décadas de 70 e 90, fiz muitas viagens para alguns países; Evidentemente trabalhando. Numa dessas viagens, aos Estados Unidos, estive em Maryland. Como não sou de orgias sempre que viajo, aproveito para conhecer lugares históricos e saber de fatos marcantes de cada lugar, já que não sei se volto ou quando volto.
Nessa viagem conheci uma igreja, e nessa igreja havia um texto exposto, que a quatro mãos, fizemos uma tradução, e que passo ao conhecimento de todos, por ter um fundo muito atual e pensamentos bastante próprios para os nossos dias:
“No meio da precipitação urbana, lembre-se de que a paz talvez se encontre no silêncio. Faça um esforço honesto e continuado para se dar bem com todos. Fale a verdade claramente, mas com brandura, e ouça os outros, mesmo os ignorantes e sem brilho: eles terão igualmente as suas histórias para contar. Evite as pessoas agressivas, que falam alto, pois trazem constrangimento ao espírito. Se você se comparar aos demais poderá tornar-se vaidoso ou amargo, pois existirão sempre os que estão pior ou melhor que você na vida. Saiba apreciar as suas próprias realizações, seus planos. Tome gosto pela sua carreira, por mais humilde que ela seja: é o único bem verdadeiramente seu. Trate de seus negócios com muito cuidado, pois o mundo está cheio de espertos, mas não endureça seu coração e saiba descobrir o lado bom das pessoas. Ainda há idealistas nesse mundo e por toda a parte ainda encontramos atos de heroísmo. Seja você mesmo. Sobretudo não finja amizade. Nem ponha cinismo no amor. Apesar de tudo o que se diz por aí, o amor ainda é eterno. Aceite com doçura o conselho dos anos e saiba renunciar os hábitos próprios da juventude. Mantenha o espírito galvanizado para agüentar as surpresas da vida. Mas não se aflija com imaginações. O medo nasce do cansaço e da solidão. Acima de qualquer auto-disciplina, seja generoso com você mesmo, afinal, você é filho do universo tanto quanto as árvores e as estrelas e tem tido o direito de estar aqui. E embora isso lhe pareça muito claro, o certo é que o universo está se desdobrando por sua causa. Portanto esteja em paz com Deus ou a quem você Chama de Deus. E por mais agitadas e extenuantes que sejam suas atividades nesse planeta, entre as barulhentas confusões e aspirações de vida, procure conservar a paz de espírito. Porque apesar de tudo que anda acontecendo por aí afora, esse nosso mundo ainda é ótimo.
“Você só precisa ter cuidado e fazer seu esforço diário para ser feliz”
Pois é. Esse texto foi encontrado em um banco dessa igreja que visitava, sem a identificação do autor, apócrifo, portanto, e pasmem, isso aconteceu em 1653. É isso mesmo, em 1653. Há muitas traduções, mas esta feita à quatro mãos, fala mais a minha emoção e a minha razão.
Se pararmos para pensar, vamos ver que esse texto parece que foi escrito, hoje.
E aí me reporto a século onde viveu o escritor português Alexandre Herculano, que disse que a HISTÓRIA SE REPETE, mudam-se as pessoas, os lugares e as datas, mas a HISTORIA SE REPETE.
Voltando da Ásia, lá pelos idos de 1966, muito antigamente, fiz várias escalas obrigatórias, na penúltima dessas escalas, fiquei em Marrocos por mais de um par de semanas. Lá conheci o Jean Dupuis. Ex-oficial do exército francês. Assim ele se apresentou. Ele havia sido posto em liberdade, depois de cinco anos, cumprindo pena no deserto da ex Algéria Francesa, por ter tentado um golpe contra o então General De Gaule. Assim ele se apresentou. Devia ter uns 38 anos e eu 22. Levou-me a vários interessantes lugares, boas casas de comer, fantásticos mercados ótimas escolas e uma biblioteca de muitos trocentos anos. Conhecia muito de Marrocos. Pelas mãos do Jean, lamentavelmente, estive em apenas duas cidades, a capital, a extraordinária e insinuante Casablanca e Marrakesh, uma encantada e encantadora cidade. Esse homem, mais tarde, veio para o Brasil, casou-se com uma brasileira filha de polonês com uma peruana e foi morar em Manaus, dono da uma farmácia e da distribuidora de medicamentos, atuava com toda a veemência e dedicação de um estranho numa “terra abençoada que bem o recebeu”. Depois de viúvo, casou-se novamente e com seus mais de oitenta anos, vive, se ainda vivo, em Ji-paraná. Em 1980 voltamos a nos encontrar. Desde então posso dizer sermos AMIGOS, até hoje, sem reclamações pelo silencio da distância ou da morte, sem cobrança por favores feitos reciprocamente. Lá em Casablanca, em um determinado dia, Jean apresentou-me um conhecedor de lendas e contador de histórias do deserto. Malba Tahan ficaria extasiado. Contou histórias lindas. Anos mais tarde li essa mesma história em um livro, que não me lembro o autor, nem o título e muito menos a editora.
Imagine um dia lindo. Um contador de lendas do deserto, vestido com aquelas roupas do Norte da África, que os filmes e novelas nos mostram; sentado com toda a tradição oriental dos contadores de lendas, falando conosco. Dizem que no deserto, algumas das tribos nômades não se misturam com outras tribos, mas pelas razões estatísticas, capítulos das probabilidades, em um determinado momento, se encontram. Isso aconteceu e elas, apesar de não se darem muito bem, armaram suas tendas razoavelmente próximas, mas com uma distância razoável, para que não se vissem nem ouvissem. Numa manhã na tenda do líder de uma das tribos, aparece um cavalo, descrito como imponente. Os povos do deserto têm uma maneira muito própria de descrever e valorizar os cavalos, não é pra menos. Lembro que essa história me foi contada por um marroquino. Um cavalo imponente, branco, alto, nobre, com a cabeça em posição altiva e as narinas finas e abertas, mais pelo cansaço do que pela sua origem. O filho desse líder sai e se encanta pelo cavalo. Um vizinho disse, com uma ponta de inveja:
-Que sorte teve seu filho, ganhar de Alah um cavalo puro.
-Pode ser sorte ou pode ser azar, respondeu o líder do acampamento:
No dia seguinte quando a tribo acordou o cavalo tinha ido embora. O Vizinho invejoso disse com tom um pouco alegre que o filho do líder tivera azar em ter perdido o cavalo.
Pode ser azar ou sorte, da mesma maneira respondeu o líder da tribo:
Mais tarde, antes do anoitecer, o cavalo imponente, branco, alto, nobre, com a cabeça em posição altiva, volta e com ele quatorze cavalos e éguas da mesma estirpe. Surpreso o vizinho quase invejoso diz que o filho do líder teve sorte em ter o cavalo voltado com uma cavalhada. Pode ser azar ou sorte, respondeu o líder da tribo.
Mais tarde, quando o filho do líder montava seu cavalo imponente, branco, alto, nobre, esse com sua altivez. O cavalo empina e o filho do líder cai e quebra uma das pernas. O vizinho quase muito invejoso regozijando-se diz que o rapaz teve azar pelo acidente.
Novamente o líder respondeu que poderia ser sorte ou azar.
Dois dias mais tarde as tribos, como de hábito, estão em conflito e vão à luta. O rapaz, filho do líder, por estar com a perna quebrada, não pode montar e nem ir à contenda.
E assim, concluiu o conhecedor de lendas e con