22/05/2008 - 21h46 Atualizada em 23/05/2008 - 06h42 Fenelon Rocha
O poeta H. Dobal, que faleceu nesta quinta-feira por volta das 19 horas, recebeu uma homenagem poucas horas depois de falecer. E uma homenagem em forma de versos, assinados pelo jornalista e poeta piauiense radicado em Brasília, Paulo José Cunha.
Nascido em Teresina, Hindemburgo Dobal Texiera, ou simplesmente H. Dobal, tinha 80 anos (completaria 81 em 17 de outubro). Ele estava internado há três semanas no HTI, a causa de dupla pneumonia. Ele faleceu depois de uma parada cardíaca.
Dobal foi um dos maiores nomes da poesia brasileira da segunda metade do século XX e, junto com Mário Faustino, expressão maior da poesia piauiense. Por muito tempo viveu em Brasília e lá ficou amigo de Paulo José Cunha.
Sabedor da enfermidade de Dobal, há alguns dias Paulo José rascunhou um poema em homenagem ao poeta. Hoje, ao receber um e-mail de Cienas Santos comunicando o falecimento, concluiu a homenagem que publicamos abaixo.
Ao enviar o poema, Paulo José explicou:
"Acabamos de perder H. Dobal, um os maiores expoentes da poesia brasileira contemporânea. Éramos amigos. Sofria de parkinson e ultimamente seu estado de saúde vinha se agravando. Prefaciou meu primeiro livro de poemas, "O Salto sem trapézio". E escreveu seu último prefácio, também para um livro meu, "Perfume de resedá", ainda inédito, a ser publicado até o final deste ano. Sempre que podia, quando ia a Teresina, no Piauí, visitava-o na companhia de amigos, nas famosas "dobalinas". Dobal era uma dessas pessoas inesquecíveis.
Há alguns dias eu vinha escrevendo alguma coisa em versos, sobre ele. Quando me chegou a notícia de sua morte, agora há pouco, apenas completei o texto que segue abaixo, juntamente com alguns dados biográficos que puxei da internet.
Outro dia escrevi, e repito agora, com uma certeza ainda mais clara:
marretadas não abolem
uma verdade maior
nenhum verso vira pó
todo verso vira pólen.
Um abraço.
Paulo José Cunha
Eis o poema:
Um brinde ao amigo H. Dobal
Ergo um poema ao poeta
como se uma taça ao brinde.
Um brinde ao riso afável, honesto, verdadeiro
do operário calmo das palavras,
do mestre de desapegada vaidade
incapaz de grito ou impropério,
mas capaz de levantar
enormes e frágeis catedrais
feitas de versos.
É ler Dobal
para sentir-se em meio
ao seco das caatingas,
no largo dos sertões,
ardendo,
in vitro
à fumaça do ferro em brasa
marcando bois e homens.
É conhecê-lo
para aprender
que toda glória é vã,
além de arredia aos que a perseguem.
A alegria guardado nas retinas
e o macio da mão trêmula
distraem o sorriso de menino travesso,
que ironiza vida e fama
por saber
que os pombos sempre cagam nas estátuas.
O que fica, para além da vida,
e ele bem sabe,
é o brinde que se ergue,
além do nada,
e os versos que se cantam,
além da glória,
a um tempo de carinho e amizade.
Agora, de repente, tudo é pouco
e tão grande, apenas na memória:
A conversa amena, regada a café com bolos fritos,
umas risadas, os afagos dos velhos companheiros,
ao redor de sua cadeira preguiçosa,
nas manhãs dobalinas de domingo.
Morreu Hindemburgo Dobal Teixeira.
Viva H. Dobal!
(A poesia de Dobal, como bem disse Cineas Santos, no e-mail em que acaba de me comunicar a sua morte, resistirá)."
Um Pouco Mais de DOBAL
Hindemburgo Dobal Teixeira é de Teresina (17 de outubro de 1927). Curso secundário no antigo Liceu. Bacharelou-se em Direito na turma de 1952 da Falcudade de Direito do Piauí, tendo sido o orador. Diretor da Revista Meridiano, figura líder da geração vanguardista, tornou-se um poeta respeitado no Brasil inteiro.
Fez concurso para Fiscal do Imposto de Consumo do Ministério da Fazenda; membro do Conselho de Contribuites e professor da Escola Superior de Legislação Fazendária, em Brasília. No Governo Médici fez parte da comissão que reestruturou todo o sistema tributário nacional. Poste