“Nosso objetivo foi alcançado. A intenção era acabar com a cúpula, com a cabeça da organização criminosa. Não adiantava pegar as bancas, logo elas seriam substituídas. Então, como que a gente fez isso? A gente prendeu os responsáveis e seqüestrou o prédio que eles chamam de banco.”
A declaração foi dada, em entrevista coletiva, ontem à tarde, pela delegada da Polícia Federal, Ana Cláudia Diniz, que chefiou a ´Operação Arca de Noé´. Duzentos policiais federais, entre eles, atiradores do Comando de Operações Táticas (COT), vindos de Brasília, ´estouraram´ o Banco Paratodos, que controlava, no Ceará, há cerca de 30 anos, a exploração do Jogo do Bicho. Dez pessoas foram presas, entre elas, oito diretores do ´Paratodos´, e quatro estão foragidas. A PF apreendeu ainda cerca de R$ 5 milhões nos cofres do banco.
Prisões A operação foi desencadeada, a partir das 5 horas da manhã, em vários locais de Fortaleza, entre elas, as residências dos diretores do ´Paratodos´, e o próprio banco, que funcionava num prédio de cinco andares na Avenida Tristão Gonçalves, 123, em pleno Centro de Fortaleza.
Até o começo da noite passada, a PF tinha contabilizado a prisão das seguintes pessoas: Francisco Mororó (presidente da organização), 80 anos; seu filho, Francisco Lima Mororó, 64; os sócios Fábio Leite de Carvalho, Fábio Leite de Carvalho Júnior, João Carlos de Mendonça, João Evangelista Camelo Rebouças, Arnaldo Paula Viana e além da gerente do banco, Vilauba Maria de Paiva Salvador.
Na mesma ação, a PF prendeu também o policial militar reformado João Araújo Crisóstomo, acusado de comandar a segurança particular do banco; e o irmão dele, o delegado Francisco Carlos Araújo Crisóstomo, superintendente-adjunto da Polícia Civil do Ceará. Estão foragidos e sendo procurados pela PF outros quatro sócios do ´Paratodos´: Hamilton de Paula Viana, seu filho Hamilton Paula Viana Filho; José Geraldo Martins de Souza e Francisco de Assis Rodrigues de Souza.
Segundo a delegada Ana Cláudia Diniz, todos os acusados, à exceção do delegado Crisóstomo, tiveram prisão temporária de cinco dias decretada pelo juiz federal Danilo Fontenelle, titular da 11ª Vara da Justiça Federal no Ceará.
Investigação Os diretores do ´Paratodos´ vinham sendo investigados desde 2002, num inquérito instaurado pela PF para apurar, a princípio, os crimes de sonegação fiscal e contra o sistema financeiro nacional. Mas, segundo Ana Cláudia, no decorrer das diligências sigilosas, quando foram quebrados os sigilos telefônico, fiscal e bancário dos acusados, acabaram sendo descobertos outros delitos graves como: corrupção ativa e passiva, inclusive de agentes públicos; prevaricação, tráfico de influência, posse ilegal de armas, exercício ilegal de segurança privada e ´lavagem´ de dinheiro, sem contar a contravenção penal do Jogo do Bicho.
Na semana passada, a PF decidiu que havia chegado a hora de ‘estourar’ o esquema criminoso e encaminhou à Justiça Federal o pedido de prisão para 13 envolvidos, além de 21 mandados de busca e apreensão. O pedido foi deferido pelo juiz Danilo Fontenelle e, logo, o superintendente da PF no Ceará, delegado Aldair da Rocha, pediu a mobilização de agentes de outros Estados.
Na entrevista coletiva, Aldair da Rocha afirmou que o objetivo foi alcançado, pois a desarticulação da rede criminosa só seria possível se os ‘cabeças’ fossem presos. Ele ressaltou que o trabalho da PF não tinha por objetivo reprimir a prática do Jogo do Bicho, pois segundo ele, esta era uma atribuição da Polícia Estadual. A PF entrou no caso quando descobriu a prática de delitos federais, como a sonegação de impostos e crimes contra a organização financeira do País.
A delegada informou que os agentes tiveram que arrombar vários cofres espalhados pelo interior do banco, além de chegar ao cofre-forte, onde foram encontrados os R$ 5 milhões em espécie. Além disso, toda a contabilidade do ´Paratodos´ foi confiscada e será submetida a análise pela perícia contábil.
Segundo a delegada que comandou a operação ´Arca de Noé´, somente ao fim deste exame pericial será possível constatar quanto o banco movimentava por mês e qual o volume de sonegação praticada nos últimos anos.