A deterioração das relações sociais e o uso cada vez mais freqüente da violência na resolução de conflitos cotidianos estão entre as causas do aumento no número de assassinatos e tentativas de homicídio na região do Entorno do Distrito Federal, onde policiais da Força Nacional de Segurança Pública atuam há quatro meses.
A afirmação é da professora Lourdes Bandeira, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, que destacou: "Se buscarem as causas dos homicídios verão que se iniciaram por pequenos conflitos da vida cotidiana. Há uma desvalorização das relações sociais que envolve a banalização da vida, da outra pessoa. O outro vira um objeto qualquer que pode ser descartado a qualquer momento.”
De acordo com balanço da Polícia Militar de Goiás, nos quatro municípios do Entorno onde a Força Nacional atua desde 19 de outubro (Luziânia, Valparaíso, Cidade Ocidental e Novo Gama), as ocorrências de furtos e roubos foram reduzidas em cerca de 40%. O número de assassinatos, no entanto, aumentou 2% e o de casos de tentativa de homicídio subiu 33,3%, na comparação entre o último trimestre de 2006 e o de 2007.
Por essa ligação com as relações sociais, Lourdes Bandeira explica que o reforço do policiamento não é suficiente para conter a violência nessas áreas. Segundo ela, é fundamental que a atuação da Força Nacional não se restrinja à repressão e se integre com instituições locais, como associações de moradores e sindicatos.
“Enquanto a Força Nacional ou qualquer outro grupo, seja Polícia Militar ou Civil, não estiver articulada com outros segmentos do movimento social, da sociedade civil, provavelmente a situação terá repercussão muito menor do que poderia ter se essa articulação se fizesse”, disse.
Sem essa integração, a presença da polícia pode ainda ocasionar o deslocamento da violência, alerta a professora. “A força policial, mais para impor sua presença do que para possibilitar a construção de uma relação de confiança com a população, pode ser ao mesmo tempo ser ocasionadora da prática da violência – porque a violência se desloca, sai de onde está a força policial e vai para outro lugar”, explica.
As forças policias, segundo ela, devem ainda estar articuladas com as políticas públicas: “É importante que ela esteja articulada com hospitais, com a direção das escolas para antecipar que jovens entrem conflito. E é preciso que essa polícia esteja preparada e aberta para a nova missão.”