“ A escola precisa fazer sentido para o aluno tanto na Eja como no ensino regular”

Coordenadora fala dos resultados do Telesol

A meta é realizar a alfabetização de jovens e adultos. A dificuldade é achar uma metodologia que seja adequada às experiências que os alunos já possuem e que, sobretudo seja atraente depois de um dia puxado de trabalho. Com esta meta e esta dificuldade a ONG Alfabetização Solidária (Alfasol) está realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Semec) aulas do programa Telesol, voltado para a Educação de Jovens e Adultos.

Avaliando os rumos do programa Telesol, Marilda Miranda Barbara, diretora de formação e acompanhamento pedagógico destaca que há motivos para comemorar o programa em Teresina e no Piauí.

Jornal Meio Norte: Em que estágio está o Telesol em Teresina?

Marilda Miranda: Nós queremos divulgar os resultados do Telesol implantado em 2009 e investir em formação de professores que vão atuar no segundo segmento do Telesol.

JMN: Como funciona o Telesol atualmente?

MM: O Telesol é um programa que trabalha com várias linguagens e recursos. É um programa que serve não só para a aprendizagem do aluno como para a formação do professor. Ele trabalha a partir da teledramaturgia com vídeos que trazem situações do cotidiano.Então essa situação do cotidiano do aluno é explorada e nessa vivência da realidade do aluno são incorporadas as abordagens de conteúdo. Nas várias áreas de conhecimento os assuntos são abordados a partir dos vídeos e depois tem os cadernos de apoio pedagógico que servem para o professor desenvolver a partir do vídeo a sua aula.

JMN: Como o Telesol ataca um dos principais problemas da Educação de Jovens e Adultos (Eja), a evasão?

MM: A evasão é um problema sério da Eja, assim como no ensino regular temos percebido um índice de evasão crescente. No caso da Eja há vários fatores que influenciam na evasão desse aluno, como a situação de trabalho em que geralmente é muitas vezes precária e inconstante em que ele é obrigado a migrar para os outros Estados em busca do trabalho. Fora isso também é um pessoal que vem de um trabalho bastante penoso durante o dia. É difícil e é preciso uma coragem e força de vontade muito grande para ir à sala de aula depois de um dia exaustivo de trabalho. Passa por esses fatores, mas também pela metodologia não ser compatível com as necessidades desse aluno.

JMN: Quais os problemas na metodologia adotada para o Eja?

MM: A escola precisa fazer sentido para o aluno tanto na Eja como no ensino regular também. No caso da Eja o que vem acontecendo é que a Eja é tratada com a mesma metodologia do ensino regular. Só que temos um público que vem com um conhecimento bastante grande e uma vivência a partir do trabalho e das situações sociais. Ele já vem com um conhecimento prévio muito grande e que não é levado em conta no desenvolvimento do ensino e aprendizagem. Acaba não fazendo sentido aquela escola. Esse é um dos fatores para a grande evasão da Eja.

JMN: O vídeo então acaba sendo um meio fundamental na aprendizagem?

MM: Esse material é feito para esse público e dialoga mais com a realidade do aluno através do vídeo. Os vídeos são situações concretas da realidade desse público, desde a dificuldade de se virar no mundo com pouca escolaridade e as dificuldades do dia a dia para manter a família e da comunicação quando tem pouco domínio da língua falada e com receio de expor suas idéias. Então esse material ajuda em todos esses fatores e faz sentido para o aluno. Ele olha aquele vídeo e se vê naquela situação. A partir daí é aportar os conteúdos. Os conteúdos não são apartados de tudo que ele passa.

JMN: O dia a dia do aluno é inserido na sala de aula?

MM: Aquilo que ele passa, o trabalho dele em que ele usa matemática como um pedreiro que sabe quantos azulejos vão em uma parede, mesmo sem conseguir registrar aquela conta. Quando ele vê nesse vídeo citações em que ele pensa ?isso eu já passei?, ?é isso mesmo?, vai ter um sentido aquela aula para ele. Com isso ele vai ter mais interesse em buscar as aulas.

JMN: Como os resultados do Telesol são avaliados?

MM: Nós fizemos uma pesquisa, em que foi aplicada no final do ano uma prova para os alunos que terminaram o primeiro segmento. Um instrumento objetivo da língua portuguesa e matemática. O índice de acerto foi alto, com mais de 65% tanto na língua portuguesa quanto em matemática. Foi quase 70% nas turmas trabalhadas. Fora isso foi feita uma pesquisa pela Teresa Penafirme, que é uma especialista em avaliação, para saber qual o impacto das nossas formações nos professores e na prática docente. Era imporante nós sabermos se essa prática estava sendo modificada. Os resultados dessa pesquisa que foi feita também mostraram um grande avanço na mudança da prática desses professores. Passaram a considerar o conhecimento prévio que o aluno traz e passaram a registrar o processo de aprendizagem dos alunos. Houveram várias mudanças que contribuem para o ensino e aprendizagem dos alunos.

JMN: Que outras transformações acontecem na sala de aula através do Telesol?

MM: Os professores também aprenderam mudando a sua postura. Um dado bastante importante para a gente foi que esses professores disseram que essa mudança na prática docente que eles foram desenvolvendo no Telesol, passaram a utilizar em outras atividades docentes. Foi uma mudança do professor mesmo, da prática do professor e não só do professor atuando no Telesol e esse dado é bastante importante. Ele passou a ter uma prática diferente e considerar esse aluno de forma diferente. Para nós é um grande resultado porque impacta no ensino regular.

JMN: Quais são os resultados hoje do Telesol no Piauí?

MM: No Piauí não posso te dizer precisamente porque temos além de Teresina outros municípios. No Brasil estamos em 205 municípios, com 80 mil alunos. Só no Telesol são 38 municípios hoje.(C.R.)

Fonte: Carlos Rocha, Jornal Meio Norte