Calazar: Sacrificar cão pode não ser efetivo;confira saídas

O calazar é uma doença conhecida muito bem em todo o Brasil

A Leishmaniose, popularmente conhecida como Calazar, é considerada a principal zoonose (doença de animais que são transmissíveis ao ser humano) do país, vitimando cerca de 350 mil pessoas anualmente.

A atual política de combate a essa doença, que atinge principalmente os cães, é baseada na eliminação do animal acometido, sendo que o problema consiste no mosquito vetor.

O Brasil é o único país que adota o sacrífico dos animais como estratégia de eliminação dessa doença, que é transmitida pelo ?mosquito-palha?, além de ainda tirar a vida do animal que possa estar doente.



Essa medida de eliminar os animais soropositivos veio através de uma portaria que visa a proibição do uso de medicamento destinado ao homem. Porém, essa política acaba ferindo a lei, na medida em que vai contra a prerrogativa essencial da profissão de médico veterinário, pois cabe a esse profissional decidir qual tratamento é o mais indicado.

Essa proibição também confronta outra lei, a do artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (9605/98), que proíbe, entre outras coisas, a realização de experiências dolorosas ou cruéis em animais vivos, mesmo que seja para fins científicos ou didáticos, quando houver recursos alternativos, sujeitando também à multa e pena de até mais de um ano, podendo ser agravada caso ocorra a morte do animal.

Apesar de o tratamento não ser permitido, alguns veterinários já obtiveram êxito ao tratar animais leishmaniosos, além dos donos, que também lutam para salvar a vida dos seus companheiros, muitas vezes considerados um membro da família.

Segundo a médica veterinária Roseli Klein, a política de sacrificar os animais contaminados pelo mosquito vetor é adotada há quase meio século. ?A eutanásia já usada no Brasil há cerca de 50 anos, ou seja, já é uma política ultrapassada, já que não se consegue controlar. Os resultados estão aí, os casos da doença não param de crescer, o que mostra que matar os animais não é saída?, pontua.

A profissional conta ainda que, segundo pesquisas divulgadas nos meios de comunicação, os índices da doença são alarmantes em vários Estados do país, e que ela é responsável pela morte de mais pessoas do que outras doenças em que a população possui mais conhecimento.

?Fala-se que em nove Estados, não sei precisamente dizer quais, o Calazar já mata mais do que a dengue. Fazendo uma comparação, a dengue é combatida através da eliminação do mosquito, e por que não existem medidas para controlar o vetor??, indaga a médica, que trabalha na área há 30 anos.

Ela explica que, como a doença ataca o sistema imunológico do ser humano, o sistema de combate à Leishmaniose deve ser no foco ? o vetor - e não nos animais, que são as vítimas. ?Hoje, o Calazar é uma doença negligenciada, porque é uma doença de pessoas com menos recursos financeiros.

Como ela atinge o sistema imunológico, e essas pessoas nessa situação financeira vivem em moradias precárias, com alimentação inadequada, com ausência de saneamento básico necessário, então todos esses fatores fazem com que elas acabem se tornando mais fracas, ou seja, mais suscetíveis à doença.

Além disso, os animais que elas criam, também não possuem o tratamento adequado, se alimentam com rações que não têm baixa qualidade?, explica Roseli.

APIPA aponta saídas



A Associação Piauiense de Proteção e Amor aos Animais acredita que existem, sim, outras soluções para esse problema que tira milhares de vida anualmente, tanto de animais, quanto de pessoas. ?A APIPA, uma associação de proteção, que tem o bom senso, acredita que pode existir um consenso entre o dono do animal e o médico veterinário, para que, assim, a doença possa ser tratada, evitando a matança, que não controla a doença.

Para as pessoas que têm condições financeiras, a cura da doença é possível, pois nos outros países já existem medicamentos para esse fim?, disse Roseli Klein, presidente da associação.

?Como médica presidente da APIPA, eu acho que precisa haver um entendimento também entre o Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para que se possa agir da maneira correta. É preciso fazer a vacinação em massa desses animais, liberar o tratamento, para que ele seja feito com responsabilidade. É preciso que isso seja discutido, mas que passe da discussão para a ação?, acrescenta.

Roseli Klein diz ainda que, assim como outras doenças muito conhecidas e que afetam a população, a Leishmaniose merece que sejam promovidas mais campanhas que visem a conscientização.

?A dengue, por exemplo, é uma doença que a maior parte da população sabe como prevenir, porque existem campanhas frequentes para alertar sobre os seus perigos, com a Leishmaniose também deve acontecer o mesmo, já que é comprovado que ela mata mais que a dengue.

Se você chegar em uma periferia e perguntar à população se ela sabe como combater a dengue, ela saberá responder, agora pergunte se ela sabe como tratar o Calazar, certamente ela vai dizer que é matando o animal que está com a doença?. É preciso alertar as pessoas, é uma questão de saúde pública, que merece investimentos?, analisa.

?A APIPA não vai resolver tudo sozinha, porque é uma coisa que é preciso que se amplie. O Estado precisa criar mais políticas para os animais, principalmente para os que estão abandonados, sofrendo.

Já existem médicos veterinários que se reúnem para que medidas sejam adotadas, com o envio de documentos contra a política adotada no país?, conclui a presidente da APIPA, que diz que o vetor que transmite a doença é difícil de eliminar por completo, mas que conscientizar é essencial e que, definitivamente, o sacrifício não é a única medida.

Veterinários defendem o tratamento



O cão é apenas o reservatório do protozoário que causa o Calazar, que é transmitido pelo vetor que se propaga principalmente em locais possuidores de uma grande quantidade de matéria orgânica em decomposição. Por isso, os profissionais da área veterinária defendem que o tratamento de animais que contraíram a doença deve receber o devido cuidado.

Entre os medicamentos utilizados para tratar os animais acometidos pela Leishmania, está o Alopurinol, administrado por humanos para atenuar a síntese de ácido úrico. Para Roseli, o uso desse remédio permite a remissão clínica do animal.

?Foi constatado que com o uso desse medicamento o animal passa do quadro sintomático, para o assintomático, ou seja, ele faz com que o animal fique com a aparência mais saudável, diminui a queda de pelo, os ferimentos e outros sintomas da doença. Mas é claro que o remédio não cura, ele apenas ameniza os efeitos da doença?, esclarece.

A médica acredita que as pessoas que resolvem criar um animal devem ir até às últimas consequências, o que exige responsabilidade, já que o animal merece cuidados assim como um ser humano. ?Quando uma pessoa fica doente, por exemplo, ninguém vai matar, e com o animal deve acontecer a mesma coisa, que é receber os cuidados necessários.

O fator econômico, infelizmente, ainda interfere muito nesse assunto, já que muitos não podem arcar com as despesas que isso requer, então acabam abandonando os animais nas ruas?, disse.

A médica veterinária diz que o país já possui recursos necessários para o combate ao Calazar. A solução não é sacrificar, não existe só essa solução. O Brasil já tem subsídios suficientes para tratar dessa questão que é de saúde pública.

Assim também como a Aids, em que o paciente é tratado com a medicação adequada, acaba diminuindo os sintomas, mesmo sabendo que não vai ter cura, apesar de já terem comprovado caso?, exemplifica.

Controle de natalidade é um dos caminhos

A médica ressalta ainda que as medidas que deveriam ser aplicadas para combater essa doença deveriam ser, em último caso, o sacrifício do animal.

?A política adotada pelo Centro de Zoonoses não resolve o problema. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o que deve ser preconizado é o controle de natalidade, diminuindo-o?, disse.

Ela acredita ainda que as condições que animais são submetidos - assim como os seus donos - acabam culminando em fatores que acentuam a suscetividade a essa doença. ?Muitas vezes as pessoas não têm como arcar com os gastos que um animal exige.

Ele precisa de cuidados, de uma alimentação balanceada que só as rações de qualidade podem oferecer, se eles ficam doentes é preciso levá-lo ao médico. A vermifugação, as vacinais contra doenças específicas, como a anti-rábica, também são cuidados que devem existir?, ressalta a Roseli Klein.

Para Roseli, outra questão relacionada à saúde dos animais que merece ter olhares voltados para a sua concretização é criar a hospital veterinários públicos, que já realidade no Estado de São Paulo.

?Recentemente a Paraíba realizou uma discussão sobre a implantação de um hospital público que atenda animais. Acredito que isso também será possível aqui, estamos caminhando para isso?, pontua.

Ainda segundo a profissional, o Ministério da Saúde e Conselho Regional de Medicina Veterinária realizam pesquisas para comprovar se o animal é ou não o vilão desse problema. ?Eles querem mostrar que o animal não é o foco, o causador de todo esse mal?, disse.

Fonte: Wherika Carvalho