Chineses usam web para driblar censura e exibir conflito étnico

Como o Tibete, Xinjiang é uma das regiões mais sensíveis politicamente na China

Os chineses estão expressando na Internet sua ira contra os distúrbios por motivos étnicos na região muçulmana de Xinjiang, no noroeste do país, que deixaram pelo menos 156 mortos até agora. Mas os internautas entraram num "jogo de gato e rato" com os censores, que parecem ter removido alguns blogues e postagens.

Muitos dos comentários exigem punição rápida para os envolvidos, repetindo declarações na mídia estatal que responsabilizam o ativista exilado da etnia uigur Rebiya Kadeer pelo planejamento dos protestos na cidade de Urumqi, no domingo.

Quase metade dos 20 milhões de habitantes de Xinjiang é muçulmana da etnia uigur, mas eles se queixam há tempos de que chineses da etnia han, a majoritária no país, se apropriam da maior parte dos benefícios de investimentos e subsídios estatais, fazendo com que os uigures - um povo de origem turca, na grande maioria muçulmano e com as mesmas raízes linguísticas e culturais da população da Ásia Central - se sintam como se fossem estrangeiros.

Como o Tibete, Xinjiang é uma das regiões mais sensíveis politicamente na China. Nas duas áreas o governo procura manter o poder por meio do controle da vida religiosa e cultural ao mesmo tempo promete prosperidade e crescimento econômico.

"Destruam a conspiração, golpeiem duramente esses sabotadores e golpeiem com ferocidade ainda maior do que antes", diz um comentário colocado em um blogue por uma pessoa que assinou como "Chang Qing" no portal www.sina.com.cn.

Alguns fazem advertências de que os hans, a etnia predominante, se vingarão. "A perda de sangue será vingada. Compatriotas han, unam-se e se levantem", escreveu um outro, assinando como "Jason" no site www.baidu.com.

Outros procuram invocar o espírito de Wang Zhen, o general chinês que é insultado e temido por muitos uigures pela repressão que desencadeou ao comandar as tropas comunistas que entraram em Xinjiang em 1949, incorporando a região à recém-formada República Popular da China.

"Estudem bem isto", sugeriu um comentário colocado acima de um texto sobre a história de Wang, aparentemente extraído de um livro chinês de história.

Ainda assim, um pequeno grupo de pessoas fez um chamado por maior compreensão das dificuldades dos uigures.

"Se os membros de sua família não têm nenhum direito, nenhum poder e são discriminados e ridicularizados, não apenas sua família vai desabar, você também vai semear as sementes do ódio", escreveu "Faca Sangrenta."

Uma pessoa, que assinou como "zfc883919" e escreveu no portal de Xinjiang, www.tianya.cn, disse não compreender como a polícia pôde ter deixado a cifra de mortos subir tanto.

"O que diabos vocês estão fazendo? Esses eram 156 seres humanos. Espero que as autoridades relevantes aprendam uma lição, para que este tipo de tragédia não se repita."

As autoridades estão agindo rapidamente para remover comentários sobre violência, aparentemente para impedir que o ódio étnico se espalhe ou os usuários da Internet questionem as políticas governamentais nas regiões povoadas por minorias étnicas.

Muitos blogues simplesmente postaram artigos da imprensa local sobre os distúrbios, mas na seção onde os leitores são convidados a escrever está escrito: "Não há comentários neste momento" - algo incomum, dada a popularidade dos blogues na China, onde há 300 milhões de usuários da internet.

Nos poucos sites que haviam colocado fotos chocantes de corpos ensanguentados, supostamente tiradas durante os protestos, elas também foram rapidamente removidas.

Fonte: g1, www.g1.com.br