“Devemos ir para trás das máquinas”, diz engenheiro Rogério Melzi

Estar bem formado é mais imprescindível do que nunca

Engenheiro de formação, o riopretense Rogério Melzi é exemplo de dedicação e obstinação. Aos 22 anos, assumiu a presidência de uma das maiores indústrias mecânicas do país e iniciou uma pós-graduação em Administração na Fundação Getúlio Vargas. Deixou o Brasil ao ser aprovado em quatro das 10 maiores universidades dos Estados Unidos.

Após a conclusão da MBA em Administração de Empresas Stanford, na Califórnia, Melzi passou pela gerência e direção de uma das principais fábricas de cerveja e de celulose do mundo.

Sob a presidência de uma das maiores organizações privadas de ensino superior do Brasil em número de alunos matriculados, ele esteve esta semana em Teresina, onde palestrou sobre Planejamento de Carreira e Sucesso Profissional. Nesta entrevista, Melzi destaca a importância de investir em si próprio e de como o sucesso profissional está associado a esse fator.

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Jornal Meio Norte - Visto que o mercado de trabalho está cada vez mais exigente e restrito aos excelentes profissionais. Como o senhor vê o desempenho dos jovens ao planejar a carreira profissional?

Rogério Melzi- Os jovens tendem a ser um pouco alienados. Por um lado é engraçado, porque nós já fomos todos assim. É verdade que os jovens têm outra prioridade na vida, mas nas minhas interações, gosto de falar com os alunos, vejo que há uma perda de esperança, mas está exagerada, acho que os executivos e boa parte das lideranças brasileiras estão reagindo muito mal a essa crise, no sentido de que tem muita lamentação e não é assim.

A crise vai se resolver e a vida vai continuar, e se é assim que essa camada que lidera a sociedade se comporta, como os jovem deverão pensar diferente? O que eu tenho procurado fazer hoje, tanto no ambiente empresarial quanto no estudantil, é dizer que sair dessa situação depende de nós e de como nós vamos nos comportar. A mensagem de hoje é muito forte, que enfrentar uma crise? Se prepara, estuda busca o seu lugar ao sol, porque um dia ela acaba e aqueles que são bem qualificados, bem formados vão sair na frente, então vale a pena.

JMN - O que os jovens universitários precisam saber para atingir o sucesso profissional em nível de Brasil e exterior?

R.M - Devem saber da importância de investir em si próprio. Esse investimento tem duas vertentes: o técnico que são os conhecimentos adquiridos quando se frequenta uma universidade e as atitudes, que atitudes eu vou ter para ser um grande profissional? Que atitudes eu tomo para enfrentar uma crise? Como eu crio um network dentro de um campus? Como estabeleço uma reputação desde cedo para fazer que um professor, desde cedo me recomende para uma vaga? Como mostro para a minha empresa que eu tenho iniciativa, que sei trabalhar em grupo, que defendo a minha marca? Isso é uma coisa que temos que ensinar aos nossos jovens desde cedo, se focarmos só no técnico não adianta de nada.

JMN - No ano passado, o IBGE divulgou uma pesquisa que revelou um crescimento de jovens com acesso ao ensino superior desde 2004. Nas universidades públicas esse número era de 1,7% e subiu para 7,2%, nas particulares de 1,3% para 3,6%. Como esses jovens de baixa renda podem fazer um planejamento financeiro para a carreira?

R.M - Tem-se duas maneiras, nos últimos 12 anos o Governo fez dois belos programas de nível superior, que de fato dão bastante acesso àqueles jovens que não têm recursos financeiros e possuem dificuldade em fazer um curso superior. No passado, apenas existia o crédito educacional, mas não foi nem de perto e profundo como é o Prouni e o Fies, que já estiveram em seu auge ano passado. Hoje, o Prouni continua normal, mas o Fies está passando por uns problemas, que todo mundo sabe e se tornou mais escasso, aqui no Nordeste ele não sofreu tanto como no resto do país, existe mais vagas para cá, ainda dá pra fazer essa aplicação pelo Fies.

Caso não dê certo, não dá para desistir, como você banca uma universidade? Há faculdades que oferecem um monte de oportunidades, com financiamento direto, sem juros para pagar em um prazo mais alongado. Conseguem ajudar com bolsas e descontos para aqueles alunos que de fato precisam, oferecem um seguro desemprego. Falta o aluno fazer a sua parte, as dificuldades são superadas se ele quiser, mesmo pedindo para a família, fazendo um trabalho extra, o que não pode é mudar achar que a vida mudará sem fazer um esforço. Se formos esperar as coisas acontecerem, corre o risco de esperarmos por anos e depois vou ser um daqueles que só vai reclamar sem ter feito a sua parte. O Governo ajuda, as instituições ajudam só falta a pessoa se ajudar para saber se as coisas mudam através do estudo ou não.

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JMN - Em outro estudo, desta vez realizado pela Pactive Consultoria com mil profissionais, empregados revelam que 58% já pensaram em largar tudo e começar uma nova carreira. O número tão alto de pessoas insatisfeitas com a profissão é resultado de más escolhas ou é normal que o planejamento traçado para a carreira possa sofrer mudanças e ser recomeçado?

R.M - Quando se faz um plano de carreira você não sabe exatamente aonde isso vai levar, você tem uma ideia, um prazo em um lugar que você deseja chegar, também vai administrando de acordo com as oportunidades e suas competências. Então, não tem como não mudar, agora não dá para mudar toda hora e trocar o meu objetivo de vida a cada seis meses. Se isso acontecer, quer dizer que realmente eu não fiz um plano.

Uma frase que é muito importante que foi dita pela Bel Pesce, que também palestra nessa disciplina no final do semestre, é “Quando falo em ter paixão pelo trabalho, não significa ter prazer pelo trabalho, quando você tem paixão, a gente faz coisas de que também não gosta. Não faríamos sacrifícios necessários que você não estaria apto nem faria questão de fazer se não fosse em nome dessa paixão e o objetivo na vida”. Pergunta para um atleta de elite se ele gosta de acordar às 4h da manhã, comer o que não gosta para atingir seus objetivos? Mas na hora de subir no pódio ele atinge o seu prazer.

JMN - Em um mundo onde as profissões com mão de obra humana foram substituídas por máquinas, quais estratégias os jovens podem tomar para competir com essa realidade?

R.M - Nós não podemos competir, o que devemos fazer é ir para trás das máquinas, isso é realidade desde sempre. Na revolução industrial tudo era feito a mão, depois apareceram as máquinas e isso seguiu com a evolução das máquinas, as pessoas continuaram trabalhando, o que mudou foi o tipo do emprego.

Então, mais do que nunca, com essa evolução da tecnologia, que só acontece por conta do cérebro humano que acompanha essa tecnologia, não há outro jeito de fazer isso sem colocar um esforço gigantesco no processo de educação, que não é só sala de aula é leitura também, “mas os jovens não gostam de ler, já nasceram com o twitter”, não dá se você não pegar um bom livro e ler profundamente. Estou querendo dizer que essas gerações de agora são muito mais evoluídas do que a nossa, eles que vão programar essas máquinas que no futuro vamos poder usar.

JMN - Há limites que devem ser respeitados na hora de planejar a carreira, como saber se algo é realmente alcançável ou não passa de um sonho?

R.M - Nós falamos sempre que é importante sonhar grande, que é importante ter ambição, mas ambição não é ganancia, estou falando do desejo de progredir, já ganancia é uma coisa negativa, ruim. Dentro da sua ambição, quando você a define, além de ter um sonho que seja palpável, o importante é que você seja cuidadoso com o prazo, pois acho que o ser humano é capaz de coisas incríveis, se eu dizer que quero ser presidente de uma grande empresa próximo ano, claro, que eu não vou conseguir, isso é um sonho impossível, mas quem sabe daqui a 20 anos eu posso construir um plano.

Então a beleza de um bom plano é que você se dá tempo de conseguir e constrói um passo a passo para chegar lá, basta disciplina. Se você calibrar um grande sonho de uma forma que não senha absurda, acredito que o ser humano é capaz de coisas grandiosas.

JMN - Qual a mensagem que o senhor deixa para o jovem que está ingressando em uma universidade e está começando a traçar o seu caminho?

R.M - Você tem que ser o protagonista da sua vida, tem que tomar o rumo que ela deve seguir, tem que tomar as rédeas da sua vida. Não deixe outras pessoas decidirem o que você vai ser e entre as várias maneiras eficientes de fazer isso, sem dúvida, a Educação é a melhor, pois dá acesso à informação, dá preparo, ter faz uma pessoa desejada naquele ambiente de trabalho escolhido. Isso te permite tomar decisões em prol da sua própria vida e não permita ninguém fazer isso, pois você nação pode gostar do resultado.

Fonte: Thays Teixeira e Rhauan Macedo