Especialistas criticam Vale por cortes em investimento no País

A avaliação de parte deles é que não faz sentido a maior companhia privada do país gastar US$ 5 bilhões a menos

A decisão da Vale de desacelerar investimentos é alvo de questionamento por parte dos especialistas em mineração.

A avaliação de parte deles é que não faz sentido a maior companhia privada do país gastar US$ 5 bilhões a menos, se tem em seu caixa US$ 12 bilhões intocados. Na quinta-feira, a companhia anunciou que reduziria de US$ 14 bilhões para US$ 9 bilhões seu plano de investir em 2009 --um corte de 36%.

Os US$ 12 bilhões em caixa foram resultantes da oferta de ações que a empresa fez em julho de 2008 para se capitalizar. Na época, a Vale tinha planos de adquirir a mineradora anglo-suíça Xtrata, que chegou a ser avaliada em US$ 90 bilhões.

A Xtrata acabou não sendo comprada porque os controladores não aceitaram a oferta. Hoje, o valor de mercado da Xtrata é de US$ 28 bilhões.

Com todo esse dinheiro, a Vale deveria aproveitar para investir mais, uma vez que os projetos ficaram mais baratos, e assim se preparar para quando as encomendas de minério voltarem a crescer, diz um ex-executivo da empresa.

O executivo lembra que, para desenvolver a mina de Brucutu, em Minas -a maior do Sudeste-, a Vale gastou US$ 1 bilhão, ou três vezes o previsto inicialmente, porque os custos, acompanhando a demanda, estavam nas alturas. Já que a economia não faz sentido financeiro, a suspeita é que a Vale esteja "economizando" para poder fazer aquisições pelo mundo.

"Existem alguns ativos não tão grandiosos, mas que podem interessar à empresa", afirma Gilberto Cardoso, analista de mineração do Banif Securities.

Fornecedores da Vale já sofriam com o corte antes mesmo do anúncio oficial. A indústria de máquinas e equipamentos enfrenta queda de 40% nas encomendas da mineradora em relação ao período pré-crise.

"Há um amontoado de orçamentos que a Vale pediu e não mandou executar. Eles não estão comprando nada", diz José Velloso, presidente da Abimaq (reúne as indústrias de máquinas e equipamentos).

A Vale argumenta que não cortou projetos, mas os "reprogramou" em razão da demanda mais enfraquecida neste ano. Para a Vale, não é necessário correr para implantar novas minas se está vendendo menos minério de ferro.

A crise derrubou a demanda em 30%. A estratégia é aguardar a melhora do mercado e a recuperação dos preços antes de acelerar novamente os investimentos.

Sob essa lógica, a Vale adiou dois grandes projetos, os maiores em curso: as minas de níquel de Onça Puma (Pará) e de Goro, na Indonésia. É que a crise fez o preço do metal despencar e reduziu a rentabilidade dos projetos.

"A decisão da Vale já era esperada. A companhia procurou preservar seu caixa", disse Antônio Emílio Ruiz, analista do Banco do Brasil especialista no setor de mineração.

Fonte: Folha Online, www.folha.com.br