Petrobras, 60, causa mais dúvidas do que certezas sobre o pré-sal e Bolsa

Administração do Plano de Negócios e Gestão (PNG), que prevê investimentos de 236,7 bilhões de dólares até 2017.

A maior empresa da América Latina completa 60 anos tendo grandes desafios pela frente. Na opinião de quatro especialistas consultados, os maiores são o desenvolvimento da produção do pré-sal e a administração do Plano de Negócios e Gestão (PNG), que prevê investimentos de 236,7 bilhões de dólares até 2017.

Gerar caixa suficiente e evitar um alto endividamento são problemas que precisam ser resolvidos, bem como apresentar uma produção consistente, desenvolver tecnologia que permita suprir a demanda e também obter mão de obra qualificada para a realização das operações. Até que isso seja realizado, as ações da empresa poderão sofrer no curto prazo. Confira as opiniões dos especialistas a seguir sobre ações, desafios, pré-sal e intervenção do governo na empresa.

Vale a pena investir em ações da Petrobras?

Bruno Piagentini e Marco Aurélio Barbosa, analistas da Coinvalores

Sim. Nossa projeção aponta a recomendação de compra ainda que nesse presente momento haja muitos ruídos que atrapalhem a cotação.

A empresa tem um futuro muito promissor em termos de potencial geração e entrega de valor para os acionistas.

É uma das empresas que tem maior futuro no Brasil porque há uma perspectiva de demanda crescente do petróleo, que é um recurso escasso e estratégico.

Ainda que várias tecnologias estejam sendo desenvolvidas para substituir o petróleo, estas ainda são incipientes perto da necessidade que existe no mundo inteiro.

Além disso, a empresa detém o controle da indústria no país, e tem à sua disposição uma bacia riquíssima em termos de recursos naturais que é a costa brasileira. São recursos que poucas empresas no mundo detêm.

Luiz Caetano, analista da Planner Corretora

Sim para o longo prazo, não para o curto prazo. No curto prazo, a empresa tem problemas persistentes. Primeiro problema: uma defasagem de preço bastante elevada com relação ao mercado externo.

Antigamente, vender combustível mais barato do que o preço que paga na importação era apenas uma questão de não realizar um lucro potencial. Mas com o grande aumento de consumo de combustíveis, a empresa se tornou uma grande importadora de derivados de petróleo.

Com isso, ela amarga prejuízo com a importação. Segundo problema: um plano de investimentos bastante ousado que faz com que a expectativa de crescimento e endividamento seja real. Com tudo isso, no curto prazo a empresa não deve ter nem lucros nem dividendos crescentes.

Se for investir com uma perspectiva de longo prazo, há pontos positivos, já que a empresa deve dobrar a produção de petróleo em sete anos.

Roberto Indech, responsável pela área de Estratégia do home broker Rico.com.vc

Não, não acreditamos que seja viável no momento, por vários motivos. A empresa não consegue atingir as metas de produção, o endividamento crescente da empresa é muito grande e muito atrelado ao dólar, que vem tendo uma valorização expressiva nos últimos meses, prejudicando mais ainda o endividamento da Petrobras.

A não participação das principais gigantes do setor leva dúvidas ao leilão do pré-sal. E a empresa ainda é importadora de petróleo, ficando excessivamente dependente do preço do petróleo no mercado internacional. Além disso, há refinarias com gastos excessivos e a questão de problemas derivados de gestões anteriores que estão aparecendo agora.

Quais são os desafios que a empresa irá enfrentar nos próximos anos?

Bruno Piagentini e Marco Aurélio Barbosa, analistas da Coinvalores

Os desafios são de grande magnitude. Observamos três pontos cruciais que a empresa tem de enfrentar: apresentar uma produção consistente, desenvolver tecnologia que permita suprir a demanda e desenvolver a produção do pré-sal. E conseguir mão de obra qualificada para realizar as operações.

Este trinômio é essencial do ponto de vista estratégico e no curto prazo tem sido problemático para a empresa.

O aspecto mais preocupante que se percebe nos balanços é a questão da produção.

A empresa tem de importar para atender o consumo interno e por conta da intervenção do governo importa por um preço maior do que revende. Há muito tempo o mercado vem criticando essa intervenção no controle do preço dos combustíveis.

Luiz Caetano, analista da Planner Corretora

Eu acho que o grande desafio é implementar o plano de investimentos de US$ 236,7 bilhões entre 2013/2017. É desse plano que surge a expectativa do crescimento da produção e da geração de caixa.

Sem o aumento da geração de caixa a empresa terá de elevar muito o endividamento.

Roberto Indech, responsável pela área de Estratégia do home broker Rico.com.vc

Principalmente o controle de gastos muito maior para adequar suas metas de produção. A empresa também tem de ver qual será a participação do governo nos leilões do pré-sal e ainda quão intervencionistas vão ser as medidas do governo em relação à companhia.

O endividamento da empresa também preocupa.

O pré-sal é a salvação ou uma grande incógnita?

Bruno Piagentini e Marco Aurélio Barbosa, analistas da Coinvalores

É um pouco dos dois. A empresa tem obrigatoriedade de ser operadora dos blocos de pré-sal tendo uma participação de 30% dos blocos que foram leiloados. Isso gera necessidade de investimento.

A empresa tem uma agenda de investimento gigantesca e tem feito esforços no sentido de focar a exploração e produção de petróleo, reduzir despesas, recuperar poços.

Tudo isso para melhorar a saúde financeira e arcar com um investimento de 236 bilhões de dólares de 2013 a 2017.

Mas, por outro lado, o pré-sal deixa a Petrobras com um potencial muito grande em termos de produção de petróleo. A empresa tem um potencial e necessidades que não existem em nenhum lugar do mundo nesse momento.

Luiz Caetano, analista da Planner Corretora

O pré-sal já é uma realidade. Com ele, a Petrobras já produz 300 mil barris/dia e em 2017 deve atingir 1 milhão de barris/dia.

Roberto Indech, responsável pela área de Estratégia do home broker Rico.com.vc

Acho que pode ser os dois, mas por enquanto é uma grande incógnita. É preciso ver realmente qual vai ser a participação da empresa e quanto vai demorar para que se torne realidade.

A intervenção do governo é um problema real?

Bruno Piagentini e Marco Aurélio Barbosa, analistas da Coinvalores

Sim. A principal é com relação ao controle do preço do combustível, já que a empresa importa petróleo a um preço mais caro do que revende no mercado interno por determinação do governo.

A intervenção também acontece pelo lado dos investimentos. A mudança de pagamentos de dividendos conforme as classes de ações, que costumavam receber o mesmo valor, prejudicou uma parte dos acionistas.

Outro problema é a exigência de conteúdo nacional para desenvolver suas operações. Isso tem representado entrave porque tem motivado atrasos na entrega de sondas e equipamentos utilizados na produção de petróleo. Esse atraso pode implicar queda de ações.

Luiz Caetano, analista da Planner Corretora

É um problema real. Se não tivesse a intervenção no preço dos combustíveis já seria excelente. A intervenção do governo não se limita a isso, mas essa é a pior.

Roberto Indech, responsável pela área de Estratégia do home broker Rico.com.vc

Sim. Não só no caso da Petrobras, mas em outros setores-chave da economia. O problema já começa pelo leilão de pré-sal obrigando a empresa a ter uma participação mínima de 30%. Por que isso é negativo? Porque obriga a ter custos mais elevados e ela já está muito endividada.

O alto endividamento dá margem à especulação de aumento de capital, o que também acaba sendo negativo para os acionistas, pois dilui as ações.

Fonte: UOL