Projeto de irrigação produz uva no semi-árido piauiense

Na comunidade, em São João do Piauí, a uva produzida tem mesma qualidade da produzida em Petrolina

31/10/2008 - 14:20

Erica Maciel Paz e Mayara Bastos

Especial para Portal Meio Norte

Pelo Piauí a fora, trabalhadores rurais e urbanos, perambulam, em silêncio ou lutando, na busca por um sonho: ter terra para produzir e sentar morada. Para os que já o conquistaram, o sentimento é que brigar por reforma agrária é combater o fim das desigualdades sociais no campo e na cidade. E é seguindo esse rumo que trabalhadores rurais do município de São João do Piauí, sul do Estado, provam que a reforma agrária é possível.

No assentamento Marrecas, primeira ocupação de terra no Piauí, um projeto de irrigação em uma área de quatro hectares, evidencia o constraste entre a paisagem seca do sertão e o verde da plantação de uva.

Sem gastos com energia elétrica, as famílias assentadas fazem o aproveitamento do poço jorrante Capim-seco que tem uma vazão de 170 mil/litros de água por hora. O projeto de irrigação já proporcionou a colheita de 25 mil toneladas de uva, dos tipos Brasil e Itália Melhorada, apenas no ano passado.

Com 12 famílias envolvidas diretamente no plantio da videira, o projeto garante também a comercialização junto ao Compra Direta do Governo Estadual de 20 mil toneladas, sendo o restante destinado para o mercado local e redes de supermercados de Teresina.

Creches, escolas e entidades sem fins lucrativos são algumas das instituições beneficiadas com as uvas do Marrecas. Este ano a colheita promete chegar a 30 toneladas. Para quem antes produzia apenas milho e feijão, vê a produção de uvas é como ter um sonho realizado.

“No começo ninguém botava muita fé, não. Mas quando as uvas começaram a nascer bonitas, todo mundo pensou que novos tempos estavam chegando. E ninguém se enganou”, contou a assentada Maria Sousa Mendes.

Para ela, a atividade se tornou sua principal missão diariamente em busca do desenvolvimento sustentável para o assentamento. “Aqui no Marrecas, estamos só começando. E graças a Deus está dando certo. Mas ainda vamos ver muita coisa sendo produzida nessa terra abençoada”, desabafou.

No Marrecas já foi fundada uma Associação dos Produtores Irrigantes que tem trabalhado para expandir a irrigação para outras atividades agrícolas, provando que essa alternativa pode ser a mola propulsora para o desenvolvimento produtivo da região.

Nos quintais de alguns assentados é possível encontrar plantios de caju, milho, feijão e capim, que já é resultado do crescimento da atividade de ovinocaprinocultura também muito forte na comunidade.

“Como convivemos com uma seca muito grande na região, a atividade de irrigação é uma alternativa para que possamos conviver com o clima semi-árido. Apesar dos investimentos do poder público, muita coisa aqui é resultante do nosso trabalho. Aqui podemos continuar explorando de forma racional várias atividades produtivas a partir da irrigação”, afirma Tomás Raimundo Ribeiro, integrante da Associação dos produtores Irrigantes do Marrecas.

A comunidade Marrecas foi a primeira no país a receber investimento da Codevasf na área de irrigação, com a liberação de R$ 1,5 milhão para o projeto que foi desenvolvido com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Rural, Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Na parceria, o Incra entrou com área e o campo para a produção, rede elétrica e poço. A Codevasf e o Emater contribuíram com a assistência técnica, instalação da área irrigada, expansão da rede de energia e equipagem do poço.

OUTRAS POTENCIALIDADES PRODUTIVAS SERÃO EXPLORADAS

Até 2010 o assentamento Marrecas terá toda a infra-estrutura de abastecimento de água e irrigação completamente implantada. Essa é a meta da Codevasf.

Segundo José Ocelo Júnior, engenheiro agronômo da Companhia, a barragem Lagoa do Peixe está sendo concluída, o que vai acelerar o processo de expansão da produtividade local.

Com a barragem, no primeiro semestre de 2009, a irrigação da água vai ultrapassar as barreiras das margens e chegará com mais força aos mil hectares do assentamento.

“Hoje 50% das culturas estão implantadas. E o que vemos é que além da uva e do caju, vamos poder explorar a cultura da banana, goiaba e acerola, que já provaram serem também o potencial produtivo no assentamento”, explicou José Ocelo.

Ele afirma ainda que a uva produzida na comunidade tem o mesmo padrão das produções de destaque no Nordeste. “As famílias produzem uma uva com o mesmo padrão e qualidade de Petrolina (PE) que é referência nacional na produção com clima tropical”, destacou. (E.M.P. e M.B.)

EDUCAÇÃO TAMBÉM É DESTAQUE

O agricultor Arlindo de Goes acredita que o desenvolvimento da comunidade Marrecas está no fortalecimento da agricultura familiar que vem provando que é possível obter resultados positivos.

“Mas não podemos esquecer da educação. Se não tem educação, a agricultura não funciona. A organização das famílias nas atividades produtivas permite o desenvolvimento do assentamento. Talvez ninguém imaginou que fosse dá certo nossa experiência da uva e hoje estamos colhendo mais de 20 mil toneladas”, disse Arlindo.

Um exemplo da importância da educação no assentamento Marrecas é a participação de cerca de 50 jovens no curso técnico em Agropecuária que é coordenado pelo Incra e a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) no colégio agrícola do município de São João do Piauí.

A idéia é fazer com que os assentados encontrem na própria comunidade a assistência técnica que eles precisam. E assim se tornem completamente autosustentáveis. “Ver as crianças e os jovens indo para a escola, tendo a oportunidade que muitos de nós não tivemos...chega a dar um aperto no peito de felicidade”. Relatou o agricultor Arlindo.

O assentamento completou 19 anos e para quem chega no local encontra escola, duas igrejas, casas com abastecimento de água, energia elétrica, processos produtivos em andamento e expansão dos agronegócios. No entanto, o assentado José Ciríaco do Nascimento, afirma para conseguir créditos e habitação foram “dois anos de muito sol e chuva na lona do acampamento”.

Ele relembra que no município de Simões, trabalhava como diarista e agricultor, mas que queria mesmo era se dedicar somente ao plantio de milho e feijão.

“Antes me desgastava muito, porque plantava sem condições, porque não basta ter a terra, a assistência técnica também é importante. E com muita dificuldades conquistamos essas condições aqui no Marrecas e hoje planto meu feijão e meu milho. E fico feliz e espantado de ver até uva por aqui”, brinca. (E.M.P. e M.B.)

COMO TUDO COMEÇOU

No dia 10 de junho de 1989 várias famílias de municípios como Pio IX, Picos, Paulistana e Itainópolis se reuniram e foram em busca do que para eles é o mais importante para viver: um pedaço de terra para plantar.

Nesse dia, 120 famílias ocuparam a área chamada Marrecas e acamparam durante dois anos na luta pela terra, sofrendo repressão e violência tanto dos donos da terra quanto da população local que os via como “forasteiros”.

Hoje, mais de 266 famílias integram o assentamento Marrecas, criado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no município de São João do Piauí, que foi a primeira ocupação de terra em todo o Estado.

Antônia Maria da Conceição, ou dona Antônia, como é mais conhecida pelos assentados, lembra aos seus 67 anos, o dia em que os “portadores de moiséis”, pessoas que percorrem cidades em busca de terras improdutivas para a ocupação, anunciaram que no município de São João haviam as “terras prometidas”.

Sem pensar duas vezes, saiu de Pio IX, juntamente com mais 20 famílias para se juntar a outros piauienses para a ocupação das terras Marrecas. “Não tive medo, deixei o pouco que tinha e sair em busca dessa terra. Levei meus filhos e enfrentei todas as dificuldades com muito suor. E, hoje vejo meus filhos trabalhando na terra que conquistamos”, conta dona Antônia, uma das dirigentes mais antigas do Movimento dos Sem- Terra (MST) no Piauí.

Viver em um assentamento, segundo ela é entender a questão da coletividade e não querer muito para melhorar a qualidade de vida. E completa: “Ter terra para morar e plantar é tudo que nós queremos. Aqui, mesmo cada um tendo sua produção,sua horta, somos um grupo comunitário, onde olhamos sempre pelo grupo”.

De acordo com os assentados, a área escolhida para a ocupação ocorreu por conta da disponibilidade de água de um dos maiores poços jorrantes do mundo. Por isso, muitas famílias produzem melancia, goiaba, além de estarem se dedicando á atividade de ovinocaprinocultura. Toda a produção do assentamento é comercializada com o mercado local, além de contribuir para a subsistência das famílias.

“Nos últimos anos, nossa produçao deu um salto de qualidade considerável e a meta é mantermos. No assentamento existem alguns grupos que se destacam mais em algumas atividades, como agricultura, do que outras. Na pecuária estamos descobrindo agora esse potencial”, ressalta a agricultora Maria de Lourdes Pereira.

No entanto, ela esclarece que mesmo o assentamento Marrecas dando os primeiros passos para sua auto-sustentabilidade, o investimento na produção ainda é uma das principais dificuldades enfrentadas pelas famílias agricultoras. “A questão econômica ainda precisa melhorar. È uma necessidade urgente estarmos buscando investimentos para a nossa produção, porque partindo disso, chegaremos a ser autosustentáveis”, analisa a agricultora. (E.M.P. e M.B.)

FONTE: Portal Meio Norte
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