Investir em título de capitalização é "roubada", dizem especialistas

Investir em título de capitalização é "roubada", dizem especialistas

Títulos de capitalização corrigem o dinheiro guardado pela chamada TR (Taxa Referencial), também usada para a poupança

Caderneta de poupança, imóveis e títulos de capitalização costumam ser a santíssima trindade para os brasileiros quando se trata de aplicar dinheiro. Mas, enquanto poupança e imóveis são minimamente justificáveis, o título de capitalização é um campeão de críticas entre os especialistas de finanças pessoais.

Seu rendimento é, de longe, pior do que o da poupança --um produto que já deixou de ter algum apelo desde o ano passado pelo menos, com a mudança nas regras da caderneta.

Títulos de capitalização corrigem o dinheiro guardado pela chamada TR (Taxa Referencial), também usada para a poupança. A poupança, no entanto, oferece a TR e uma parcela de juros a mais (0,5% ao mês, pela regra antiga; 70% da taxa básica de juros, pela regra nova), que faz toda a diferença.

R$ 15 mil na poupança X R$ 10.625 nos títulos de capitalização

Entre janeiro de 2007 e dezembro de 2012, a inflação acumulada foi de 37,76% pela variação do IPCA, o índice de preços utilizado pelo governo para sua política de metas.

Caso um poupador tivesse aplicado R$ 10 mil no início de 2007 na caderneta de poupança, poderia sacar pouco mais de R$ 15 mil no final do ano passado, livre de Imposto de Renda, e com folga sobre a inflação do período (o ganho acumulado é de 51,3%).

Se a mesma quantia tivesse sido aplicada em títulos de capitalização, seria corrigida apenas pela TR, e o investidor teria o valor de R$ 10.625 ao final dos cinco anos. Isso significa uma variação de apenas 6,25%.

Resultado na "vida real" seria pior ainda

Na verdade, o resultado na "vida real" seria ainda pior. Pelas regras dos produtos de capitalização, o que o poupador recebe no final do prazo de aplicação (que varia entre 24 e 60 meses) é a chamada "reserva de capitalização".

Essa reserva de capitalização corresponde a cerca de 90% do valor efetivamente pago ao banco, e que vai ser corrigido pela TR. O restante vai ser usado para duas funções: acumular dinheiro para os sorteios (a chamada "corta do sorteio") e para pagar o trabalho da instituição financeira (a "cota de carregamento").

Investidor só leva vantagem se ganhar prêmio em sorteio

É preciso admitir que os bancos comercializam o produto não como um investimento, mas como uma forma de guardar dinheiro, com o "bônus" de concorrer a prêmios.

"A única vantagem para quem adquire um produto desses é se for sorteado", diz o professor da FIA e consultor de finanças Marcos Crivelaro.

Sugestão: pare de sonhar com os prêmios, e comece a poupar

Os títulos de capitalização são tão populares devido ao nível ainda baixo de renda da população em geral, segundo especialistas. Com pouco dinheiro no bolso, o estímulo para poupar também é baixo. Mesmo entre a nova classe média, ainda há muitos produtos a se comprar (a chamada demanda de consumo reprimida), o que não estimula a atitude de guardar dinheiro.

O professor da FIA recomenda que o eventual poupador deixe de sonhar com os prêmios, e aproveite a oportunidade para "aumentar sua capacidade de poupar", de olho na materialização de seus sonhos.

"Há muitos produtos em que você pode programar uma aplicação automática todo o mês, como a própria poupança", acrescenta. Além da poupança, fundos de investimentos e o programa Tesouro Direto (para negociação de títulos públicos) também contam com essa ferramenta.

Especialistas alertam para inflação em alta

Os especialistas também aconselham que o investidor se preocupe com a inflação no curto prazo. Há um forte consenso no setor financeiro de que os índices de preços não vão dar sossego neste ano.

"As medidas que foram tomadas nos últimos anos pelo governo foram todas no sentido de estimular a inflação: a taxa de juros mais baixa, o crédito à vontade, e os impostos mais baixos. Tudo isso estimula a demanda, mas nós temos ainda um problema de oferta", diz o professor de Economia da Escola Trevisan de Negócios Antônio Colângelo.

O desequilíbrio entre oferta e demanda é um dos motivos clássicos para a inflação: quando a oferta é menor que a procura dos compradores, os preços das mercadorias e serviços tendem a subir.

"Acredito que neste ano o governo vai ser mais preocupado com a inflação. Essas taxas que o mercado menciona, em torno de 6% ao ano, são até factíveis, mas somente se o governo não fizer nada", acrescenta.

Fonte: UOL