Um toque feminino nas construções civis que se destacam pelo trabalho no PI

Um toque feminino nas construções civis que se destacam pelo trabalho no PI

Faz tempo que as mulheres têm conseguido espaço na construção civil. Hoje essa tomada de espaço está se consolidando e as mulheres se destacam

A presença e a eficiência das mulheres em praticamente todos os setores do mercado de trabalho é indiscutível. ?Em geral espera-se da mulher um pouco mais de atenção e qualidade no trabalho?, esta frase é do empresário Francisco Rufino, diretor de relações trabalhistas do Sindicato das Indústrias de Construção Civil (Sinduscon ? PI). As palavras resumem o panorama do território alcançado pelas mulheres, o da Construção, um trabalho que é visto até hoje como majoritariamente masculino, ganha um toque refinado e feminino.

O cenário é o canteiro da obra de 928 apartamentos populares na região Sul de Teresina. As 35 mulheres existentes no canteiro têm a tarefa de destacar o seu trabalho entre os 745 homens trabalhadores, comandados por uma encarregada de obras rígida e uma jovem engenheira civil.

Deste número de mulheres, 15 estão passando por formação como pintoras profissionais através do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). As demais são responsáveis pelo rejunte, piso e administração do canteiro. Todas aprendem trabalhando.

A emprego na construção é o primeiro emprego de Antônia Fernandes, 19 anos, pintora desde abril de 2013, quando ingressou na formação oferecida pelo Senai.

?Eu estava precisando trabalhar e quando soube da vaga, ainda mais com a garantia de emprego, gostei muito e corri atrás, mas nunca imaginei que iria trabalhar com isso?. Além do primeiro registro trabalhista, Antônia também descobre uma profissão prazerosa e diferente de tudo que imaginou.

?Ser pintora não é um bicho de sete cabeças que eu imaginei e depois que a gente termina o serviço e vê o apartamento pronto, eu vejo como estou trabalhando bem?.

No entanto, ela possuía outros objetivos profissionais, mas com a descoberta das novas habilidades Antônia começa a remodelar o seu futuro. ?Eu queria mesmo ser professora, inclusive fiquei classificável no vestibular para Licenciatura em História, mas estou muito feliz por aqui?. Outro importante apoiador da nova profissão é o marido.

?Mesmo eu trabalhando com muitos homens, ele não tem ciúmes, acha que foi uma conquista pra nós e me apoia?.

Mudança de vida com dias de folga

Para algumas mulheres, a oportunidade na Construção Civil é a chance de mudar de vida que estava faltando, não exatamente pelo lado financeiro, mas pela qualidade de vida com o simples direito a folgas.

Característica que fizeram Crilcimar Coelho Avelino, 20 anos, desistir do trabalho doméstico e aproveitar a nova oportunidade. Este é o primeiro emprego formal da moça, divorciada, com um filho de quatro anos, que antes se sustentava trabalhando como cuidadora de idoso.

"Agora está muito melhor que antes, principalmente porque eu posso voltar pra casa e ver o meu filho todos os dias. Antes eu não podia, muitas vezes nem aos fins de semana", conta ela, que tem ajuda da sogra e do ex-marido nos cuidados com o filho.

Ela afirma que o trabalho a "deixa pra cima", já que ela se sente orgulhosa por ser uma das poucas mulheres que trabalham na construção civil em Teresina.

"As pessoas ficam impressionadas por causa do meu trabalho". Depois das garantias do emprego, ela já investiu em um veículo próprio e um notebook, considerados as suas mais caras aquisições.

Não ao assédio

A engenheira Leidenice Silva é uma das engenheiras da obra e tem a tarefa de cuidar da construção de condomínios de quase 1.000 apartamentos populares.

Ela afirma que pelo fato de ser mulher, jovem e recém- formada, teve de enfrentar o preconceito dos trabalhadores. "É um pouco difícil para eles, muitos são bem mais velhos que eu e com muito mais experiência, no entanto eu utilizo as minhas atribuições, mostro meu trabalho, porque estou aqui, mas também procuro aprender com eles".

Na obra pela qual a engenheira é responsável, as mulheres são visivelmente minoria e ocupam cargos de liderança maiores. Mas além da desconfiança em relação à qualidade do trabalho, elas, muitas vezes, precisam lidar com o incômodo do assédio masculino.

"Tem deles que não nos respeitam como mulheres e profissionais, mas têm muitos que sim, só que aqui procuramos não ligar para isso, continuamos trabalhando e quando eles encontram o trabalho final enxergam que tem qualidade, elogiam e assim vamos levando", disse Antônia.

A engenheira afirma que podem ocorrer casos mais sérios, mas apenas pontuais e que, no geral, existe um respeito em relação às trabalhadoras.

"Quando acontecem esses casos pontuais, nós buscamos o diálogo e avaliamos cada caso, podendo aplicar advertência e até suspensão. Mas no geral procuramos prevenir e orientar as mulheres que estão começando.

O mercado muda a cara: usa cor-de-rosa e brincos

Maria Lucilene de Sousa Rodrigues tem 28 anos e era uma cozinheira de restaurante, cujo trabalho ela considera muito desgastante. "Gosto muito desse trabalho, não é cansativo, requer mais paciência e tem muitos detalhes, então eu posso fazer com mais calma".

O uniforme utilizado pelas mulheres é padronizado para homens e mulheres, mas elas sempre dão um jeitinho de destacar a feminilidade. "A gente sempre usa um batom para melhorar mais e a roupa a gente sempre manda a costureira adaptar ao nosso corpo", conta ela, que não descuida da aparência, nem usando capacete.

A engenheira Leidenice da Silva ressalta que a mudança de panorama da construção civil é um resultado do crescimento da construção civil. "Há muito tempo o mercado da construção não absorvia nem os homens disponíveis e com o largo crescimento começou a faltar pessoas. São as mulheres que estão salvando", explica sobre o novo panorama.

Formação qualificada e inserção das trabalhadoras

O instrutor de pintura do Senai, Kilson Ferreira, afirma que o desempenho das mulheres durante a formação é exemplar. "A mulher, quando se dedica, pode desempenhar um papel melhor que um homem, pois eu percebo que elas são mais detalhistas e fazem um trabalho mais refinado".

Ele afirma que ainda que novas oportunidades de trabalho em áreas pouco femininas também são consequência da escassez de força trabalhadora.

"A doença da construção civil é a falta de gente qualificada, é com isso que o Senai, em parceria com as construtoras, está buscando formar essas pessoas, criar oportunidades e suprir a demanda deste mercado" Para o treinamento é exigida a conclusão da sexta série e as trabalhadoras, com duração de três

meses, mais três meses para receber a promoção de pintoras profissionais, quando passam a ganhar R$ 960, mais os benefícios obrigatórios. A próxima turma a ser formada pelo Senai será o de mulheres azulejistas, com aula inaugural no mês de julho deste ano.

O diretor de relações trabalhistas do Sinduscon, José Rufino, afirma que a presença das mulheres como trabalhadoras na construção civil é uma realidade, embora ainda em proporções menores.

"Elas geralmente exercem as funções de azulejistas, pintoras e fazem acabamento justamente por este ser um trabalho que requer mais delicadeza, atenção e cuidado".

Fonte: Samira Ramalho