Escolas agrícolas do Piauí produzem alimentos bioforticados com apoio de companhias

A implantação dos kits de irrigação é uma ação conjunta dos programas Água Para Todos (2ª Água) e Desenvolvimento Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária (Inclusão Produtiva), ambos vin

Uma tecnologia simples e de baixo custo está fazendo a diferença na vida de estudantes de escolas agrícolas do Piauí. Trata-se de kits de irrigação implantados pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que têm proporcionado aliar o conhecimento teórico adquirido em sala de aula com a prática no campo, sobretudo, nas propriedades familiares dos jovens agricultores. Além disso, os equipamentos representam economia de água na realidade do semiárido, bem como otimização do tempo – e sua implantação abriu o caminho para uma parceria de sucesso com a Embrapa Meio Norte, por meio da qual os jovens estão produzindo alimentos bioforticados para consumo das comunidades locais.

A implantação dos kits de irrigação é uma ação conjunta dos programas Água Para Todos (2ª Água) e Desenvolvimento Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária (Inclusão Produtiva), ambos vinculados ao Plano Brasil Sem Miséria. Com recursos provenientes da Secretaria de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional (SDR/MI), o investimento foi de aproximadamente R$ 89 mil para implantar 170 kits de irrigação em escolas agrícolas no estado.

De acordo com Janleide Costa, chefe da Unidade de Desenvolvimento Territorial da Codevasf no Piauí e coordenadora regional do Projeto Amanhã, os kits – compostos por 21 itens, entre registro, filtro de tela, conexões, tubos de distribuição em polietileno, adaptadores de tubos, bobina de tubo, gotejador e outros acessórios – foram destinados a 19 Escolas Família Agrícola, escolas agrotécnicas e colégios agrícolas do estado.

“A partir da entrega dos kits, a Companhia firmou parceria com o projeto 'Produtores do Futuro', coordenado pela Embrapa Meio Norte, representando uma alternativa para a inserção dos alunos no mundo do trabalho e a geração de oportunidades de melhoria de qualidade de vida”, explica.

Por meio do “Produtores do Futuro”, a Embrapa implanta, nas escolas agrotécnicas e família agrícola, unidades de transferência de tecnologia (UTTs), que consistem em pequenas áreas (entre 100 a 1.000 m²) irrigadas com kits fornecidos principalmente pela Codevasf onde são implantadas culturas de feijão, macaxeira, batata-doce, entre outros itens com maiores valores nutricionais, isto é, biofortificados (Biofort). O objetivo é reduzir a desnutrição e aumentar a segurança alimentar com a introdução de maiores teores de ferro, zinco e vitamina A à dieta da população de baixa renda.

Segundo Marcos Jacob, analista de Transferência de Tecnologia da Embrapa responsável pelo Biofort, nessa parceria, a atuação da Embrapa abrange, além da implantação de UTTs, a realização de palestras e cursos sobre as tecnologias disponíveis. “A capacitação e a instrumentação com os kits de irrigação estão propiciando os meios para fixação desses jovens ao campo, com produção tecnificada e garantia de colheita com o que chamamos de Unidades de Segurança Produtiva”, reforça. Ele diz, ainda, que os alimentos produzidos atendem tanto ao consumo da família, como são direcionados para venda local e venda institucional por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

“Nesses lugares onde Codevasf forneceu kit de irrigação, a Embrapa chegou por meio da transferência tecnológica do projeto Biofort. Essa é uma ação de extrema importância, pois, sem esse equipamento instalado, a Embrapa não teria como beneficiar tantas escolas e comunidades e, com isso, a área de influência do projeto se deu em todas as regiões, superando, em muito, as metas inicialmente previstas”, destaca Janleide Costa.

As escolas beneficiadas com os kits estão situadas nos municípios de Teresina, Aroazes, Miguel Alves, São Pedro do Piauí, Colônia do Piauí, São João da Varjota, Oeiras, Cajazeiras, Santo Inácio, Eliseu Martins, Pedro II, São João do Arraial, Cristino Castro e São Lourenço.

Para o presidente da Associação Regional das Escolas Família Agrícola do Piauí (AEFAPI), o agricultor Luís Costa, os kits de irrigação trouxeram grandes benefícios. “A meu ver, é algo que todas as escolas deveriam implantar. Antes da chegada dos kits, era uma dificuldade enorme, porque era usado o regador manual. Com isso, nem todos os alunos queriam participar das atividades. Com os kits, os microaspersores substituem os regadores, e o tempo que eles perdiam regando um canteiro é utilizado para preparar outros canteiros. É uma grande economia de tempo. Então, essa parceria é muito bem-vinda”, afirma Luís Costa, que reside na zona rural de Oeiras e tem 11 filhos, dos quais cinco já se formaram na Escola Família Agrícola e outros cinco estão estudando.

“As escolas caíram do céu. Aquele aluno que quer mudar a qualidade de vida, ser um cidadão, vai aplicar esses conhecimentos e vai muito além”, comemora o agricultor.

Mudança de vida

Benedito Mendes Neto é um dos filhos de Luís Costa. Ele está concluindo, neste ano, o curso de técnico agrícola na Escola Família Agrícola Dom Edilberto (Efade IV), no município de Oeiras. Com apenas 18 anos, o jovem é um entusiasta do trabalho no campo. “Para mim, falar da escola família agrícola é uma grande satisfação. Tenho irmãos já formados e reconhecidos no mercado. Tudo começou com o mais velho, que desenvolveu um projeto de horticultura que hoje é a base de tudo na nossa família. Começamos com regador e depois recebemos um kit de irrigação, o que aumentou a produção. No ano passado, a gente até recebeu um prêmio do Banco do Nordeste como propriedade modelo no sistema de horticultura”, conta, orgulhoso, o estudante.

O que começou apenas com a horticultura se diversificou, transformando-se numa verdadeira cadeia produtiva, segundo Benedito Neto. Hoje, a propriedade da família abrange também criação de caprinos, aves e já possui até alguns tanques escavados para criação de peixes. A piscicultura é, inclusive, o tema do trabalho de conclusão de curso que ele desenvolve atualmente. “Não é porque se trata de agricultura familiar que devemos nos restringir a um produto só. O que se faz necessário é trabalhar numa cadeia produtiva, com uma atividade dando sustentabilidade a outra. No início, a ideia do nosso projeto foi melhorar a alimentação da família, e hoje a gente já trabalha com um leque de produção, revende nossos produtos nas feiras livres de Oeiras, tem contratos assinados nas escolas do estado e município e vende até para outras cidades da região”, afirma.

O caso da família de Benedito é considerado de sucesso na região, de acordo com o coordenador para a área técnica da Aefapi, João Emílio. Para ele, a formação já oferecida pelas escolas – que funcionam no regime de alternância, em que os alunos passam 15 dias na instituição e 15 dias em casa, aliando teoria e prática –, acrescida da implantação dos kits de irrigação pela Codevasf e das capacitações oferecidas pela Embrapa, além da contribuição de outras instituições parceiras, surte um efeito maior e mais qualificado no que diz respeito à formação, à inserção dos egressos no mercado e ao desenvolvimento do meio rural.

“Na medida em que esses jovens implantam seus projetos inovadores, eles transferem para os vizinhos os conhecimentos e o entusiasmo com o campo. Esses kits de irrigação foram o elemento inovador e, mais, representam uma tecnologia simples, de baixo custo e de baixo consumo de água, o que caiu muito bem nesse contexto da agricultura familiar, inclusive do ponto de vista ambiental dentro da realidade do semiárido”, salienta João Emílio. Ele informa que os alunos das Escolas Família Agrícola têm, em média, entre 14 e 18 anos; atualmente, o Piauí conta com 1.700 estudantes matriculados nessas instituições. “A formação geral e profissional é completa no sentido da legislação. Eles passam quatro anos na escola, com ensinos médio e técnico integrados”, esclarece.

Segundo a gerente de Desenvolvimento Territorial da Codevasf, Izabel Aragão, a pareceria com as Escolas Famílias Agrícolas permite aos alunos desenvolverem conhecimentos técnicos voltados para a realidade local. “Isso possibilita que esses conhecimentos retornem de forma efetiva e sejam aplicados em suas propriedades, adequando as práticas escolares à vida no campo, fortalecendo os vínculos familiares e de socialização com a terra. Ações que como essas tem o potencial de resgatar o protagonismo juvenil e fortalecer as atividades agropecuárias”, aponta.

Os kits de irrigação implantados pela Codevasf são destinados às famílias de extrema pobreza, que possuam vocação agrícola e fonte hídrica que garanta a sustentabilidade da atividade, assim como as Escolas Família Agrícola, assentamentos de reforma agrária, instituições que trabalham na recuperação de dependentes químicos e entidades que prestam atendimento a pessoas com deficiência.

Fonte: Assessoria