Centro tecnológico do exército testa 4G de vigilância pública

Centro tecnológico do exército testa 4G de vigilância pública

Sistema garante a comunicação contínua e sigilosa de dados, útil em grandes eventos - e situações de emergência, como atentados

Instalada no Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército (CCOMGEX), em Brasília, está a mais avançada central de monitoramento via redes 4G da América Latina. O projeto, em fase de testes, permite o tráfego de informações por uma faixa de frequência de acesso exclusivo dos militares. A finalidade é garantir a comunicação contínua e sigilosa de dados, o que pode ser útil tanto em situações cotidianas, como a vigilância de estradas, quanto no acompanhamento de casos extraordinários, como atentados terroristas, ou grandes eventos, caso da Copa do Mundo e da Olimpíada. Em todo o planeta, apenas cinco países fazem uso de redes desse tipo, com essa finalidade: Estados Unidos, Canadá, Panamá, Catar e Austrália. Outras sete nações experimentam o sistema, a exemplo do Brasil.

O primeiro teste da rede de segurança aconteceu em 2012, durante o desfile de 7 de Setembro. Imagens provenientes de câmeras instaladas nas ruas e também em veículos do Exército foram enviadas, durante todo o dia, para o Centro de Comunicações. Isso possibilitou monitorar o comportamento da população nas ruas e identificar eventuais ocorrências. Foi um dia calmo e nada foi registrado.

A prova real viria nove meses depois, na abertura da Copa das Confederações, em Brasília. Em meio aos protestos que se espalharam pelo país, o evento também foi palco de manifestações, dentro (a presidente Dilma foi vaiadas pelos torcedores) e fora do Estádio Mané Garrincha (manifestantes entraram em choque com PM). "Nós tínhamos vídeos de alta qualidade dos manifestantes, algo que nem as grandes emissoras conseguiram capturar", diz o comandante do CCOMGEX, general Antônio Santos Guerra. Isso permitiria identificar pessoas, caso necessário, e acionar rapidamente equipes para atuação. Além disso, houve congestionamento na rede 3G nas próximidades do estádio bem na hora do jogo. "Nós eramos os únicos que conseguiamos nos comunicar na região usando uma rede de telefonia celular."

Sistema similar mostrou sua importância durante a realização da Maratona de Boston deste ano, quando ocorreu o atentado a bomba que matou que três pessoas e deixou mais de 280 feridas. Fotos e vídeos com imagens correram o mundo, detalhando os instantes de horror vividos pelos participantes da prova esportiva e também pelo público. Mas foram as câmeras da rede exclusiva de segurança da Polícia local que flagraram a ação dos autores do atentado ? as imagems foram divulgadas mais tarde. "Esse equipamento estava ligado a uma rede dedicada e transmitiu as imagens via banda larga para um centro de comando, que disponibilizou o material para a força policial na rua. Essa tecnologia pode ser usada da mesma forma no Brasil para diversas finalidades", diz Karen Tandy, vice-presidente sênior de interesses governamentais da Motorola Solutions.

A companhia americana, que desenvolve componentes e sistemas de segurança eletrônicos, está umbilicalmente ligada ao projeto brasileiro. Até agora, foi ela quem pagou a conta de 2 milhões de dólares relativa aos testes. A companhia está, é claro, de olho na possibilidade de tornar-se a principal fornecedora de tecnologia para o Exército brasileiro caso a rede seja mantida e expandida.

O investimento inclui a instação de uma central e de três pontos de retransmissão de dados, que juntos cobrem as áreas da Esplanada dos Ministérios, do Aeroporto Internacional de Brasília e de outras porções do Distrito Federal mais densamente habitadas. O sinal transmitido a partir de cada um desses pontos tem um alcance de 10 quilômetros. O pacote também inclui dispositivos como tablets, smartphones, câmeras, monitores pessoais e até transmissores portáteis capazes de atuar como roteadores que distribuem o sinal de rede para os dispositivos habilitados.

Os testes da rede de segurança 4G só foram possível após aval da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que autoriza o uso das faixas de frequência no país. E essa é uma questão delicada a ser disciplinada, caso outras autoridades brasileiras decidam usar modelos similares. No caso dos testes do Exército, a Anatel autorizou o uso de uma parcela de 10 MHz do espectro de 700 MHz ? faixa de frequência utilizada para transmissão de sinal analógico de TV. Segundo o general, os 10 MHz são o mínimo necessário para levar aidante o projeto com qualidade. Para trabalhar com folga, prevendo uma expansão dos serviços, o ideal seria uma faixa de 20 MHz. "Nós já fizemos o pedido para a Anatel, mas talvez não sejamos contemplados."

Com a eventual expansão da faixa de frequência para 20 MHz, a rede de segurança poderia servir a outras corporações, como as polícias civil e militar dos estados. Elas passariam a dividir a infraestrutura com o Exército. "Hoje, cada um compra o equipamente que quer e o instala do jeito que julga mais adequado. O ideal é que todas as corporações trabalhem em um sistema de condomínio, trocando informações entre si, adquirindo dispositivos compatíveis e trabalhando em redes com a mesma frequência", afirma o general.

"Para liberar uma faixa maior de frequência para esse tipo de finalidade, precisamos identificar uma necessidade real. Mas é preciso entender também que essa mesma faixa precisará atender a sociedade como um todo, permitindo o tráfego de serviços que atendem todos os cidadãos", diz Marconi Maya, titular da Superintendência de Outorga e Recursos à Prestação da Anatel. "Embora a segurança pública tenha o direito de usar a faixa, também temos a demanda do setor privado, que paga por sua utilização. Isso, portanto, será definido após consultas públicas e licitações."

O próximo grande desafio está marcado para 2014, durante os jogos da Copa do Mundo que acontecerão no Estádio Mané Garrincha. Se o experimento funcionar, o projeto de monitoramento pode ser levado a outras bases militares espalhadas pelo país. Mas isso não deve acontecer antes de meados de 2016.

Fonte: Veja