Por chamar estudante de "vadia", radialista vive crise nos EUA

Por chamar estudante de "vadia", radialista vive crise nos EUA

Rush Limbaugh é uma das vozes mais conhecidas dos Estados Unidos, com grande influência sobre o eleitorado conservador

O programa de rádio de maior audiência dos Estados Unidos está sofrendo um boicote por parte de anunciantes, depois que o seu apresentador, Rush Limbaugh, chamou uma estudante de "vadia".

Nem mesmo um pedido de desculpas do apresentador tem sido suficiente para evitar a saída de anunciantes do programa.

A polêmica começou quando o radialista criticou a estudante de direito Sandra Fluke, da Universidade de Georgetown, depois de ela ter defendido, em uma audiência pública no Congresso, que os planos de saúde cubram os custos com anticoncepcionais.

Rush Limbaugh é uma das vozes mais conhecidas dos Estados Unidos, com grande influência sobre o eleitorado conservador. Seu programa é transmitido por 590 estações de rádio em todo o país e ouvido, em média, por 15 milhões de americanos.

O radialista construiu sua carreira com inúmeras polêmicas e já conseguiu derrotar diversos boicotes no passado. Mas a controvérsia atual pode ser demais até mesmo para Limbaugh.

Limbaugh disse que Sandra Fluke quer que os contribuintes a paguem para que ela faça sexo. Ele disse aos seus ouvintes: "O que faz isso dela? Isso faz dela uma vadia, certo? Isso faz dela uma prostituta".

Os comentários foram criticados até mesmo por pré-candidatos republicanos à Casa Branca - que, apesar de desabonarem as declarações, escolheram suas palavras com cuidado para não desagradarem aos milhões de eleitores conservadores que concordam com as opiniões de Limbaugh.

Na sexta-feira, o presidente americano, Barack Obama, que enfrentará os republicanos nas urnas em novembro, telefonou para Sandra Fluke para manifestar seu apoio à estudante.

Internautas começaram uma campanha nas redes sociais, sobretudo no Twitter, com a hashtag #BoycottRush exigindo que anunciantes deixem de patrocinar o programa de rádio.

Desculpas

"Os comentários recentes de Limbaugh foram além do discurso político, com ataques pessoais que não refletem os valores da nossa empresa", afirmou, em um comunicado, a floricultura ProFlowers, ao anunciar sua adesão ao boicote.

No sábado, o apresentador divulgou uma nota escrita, afirmando que sua "escolha de palavras não foi a melhor, e em uma tentativa de ser engraçado, eu criei uma comoção nacional".

"Eu sinceramente peço desculpas à senhora Fluke pela insultante escolha de palavras", afirma Limbaugh, na nota.

No entanto, o pedido de desculpas não impediu a saída de ainda mais anunciantes. Na segunda-feira, o grupo de serviços legais Tax Resolution e o portal AOL tornaram-se respectivamente o oitavo e nono anunciantes a aderir ao boicote.

Uma estação de rádio no Estado do Havaí, a KPUA-AM 670, tornou-se a primeira do país a retirar o programa de Limbaugh de sua grade.

O radialista voltou a pedir desculpas à estudante em seu programa de segunda-feira, mas a acusou de "tentar forçar instituições religiosas a abandonarem seus próprios princípios para satisfazerem os dela".

Ele também atacou seus críticos.

"Eu agi demais como os esquerdistas que me desprezam. Eu me rebaixei ao nível deles, usando palavrões e exageros. É o que nós passamos a esperar deles, mas é muito abaixo de mim."

Sandra Fluke não aceitou o pedido de desculpas.

Carreira de polêmicas

Rush Limbaugh ficou famoso nos Estados Unidos tanto por suas opiniões conservadoras quanto pelas polêmicas nas quais se envolveu ao longo da carreira.

Em 1994, as organizações Gay and Lesbian Americans, de direitos dos homossexuais, e a National Organization for Women, de direitos das mulheres, fizeram um boicote à entidade empresarial Comissão de Cítricos da Flórida, por ter contratado Limbaugh como seu porta-voz.

Furiosos contra comentários considerados homofóbicos e misóginos, eles organizaram uma campanha com o lema "Flush Rush. Drink prune juice" ("Dê descarga ao Rush. Beba suco de ameixa").

Mas apoiadores de Limbaugh contra-atacaram e organizaram "buycotts" (um trocadilho com as palavras em inglês para "comprar" e "boicote"). Em poucos dias, eles liquidaram os estoques de suco de laranja dos supermercados, demonstrando a força do radialista.

Em 2003, ele demitiu-se de um programa de esportes depois de dizer que havia pressão da imprensa para que um jogador de futebol americano negro desse certo em um dos times. Três anos depois, ele pediu desculpas aos ouvintes por fazer piadas sobre o ator Michael J. Fox, que sofre do Mal de Parkinson.

No entanto, alguns analistas acreditam que a polêmica envolvendo a estudante Sandra Fluke pode ter consequências mais graves do que outras no passado, devido ao papel das redes sociais.

Para Brian Stelter, repórter de mídia do jornal americano New York Times, uma campanha coordenada nas redes sociais tem grande ressonância junto a empresas que às vezes gastam milhões para construir suas reputações online.

"Há um grande número de pessoas com preocupações de longa data a respeito de Rush Limbaugh, que estão agindo conforme suas preocupações agora", diz Stelter.

Campanhas deste tipo, segundo o jornalista, fazem as empresas repensarem se vale a pena ou não anunciar em programas como o de Limbaugh.

"Anunciantes estão pesando quantas reclamações eles recebem e o quão grande é a audiência do programa de Rush Limbaugh."

Stelter acredita que apesar do forte impacto do boicote, o programa conseguirá se manter no ar.

A Clear Channel, empresa que distribui o programa de Limbaugh para diversas rádios em todos os Estados Unidos, afirmou que pretende defender a liberdade de expressão do seu radialista, e continuará vendendo o programa.

Fonte: G1