França frustrou ataque a Torre Eiffel antes do 11 de setembro

Em 1994, quatro terroristas do Grupo Islâmico Armado tomaram controle de avião da Air France

08/09/2011 - 13:57
Reprodução de vídeo mostra polícia especial francesa em Marselha
Reprodução de vídeo mostra polícia especial francesa em Marselha
Foto: Reprodução

Sete anos antes de 19 terroristas da Al-Qaeda sequestrarem quatro aviões e lançarem o pior atentado estrangeiro em solo americano da história dos EUA, um grupo fundamentalista islâmico executou um plano que poderia ser considerado um prelúdio dos ataques que atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, o Pentágono, em Washington, e causaram a queda de um avião na Pensilvânia em 2001. (Veja infográfico com a cronologia dos ataques do 11 de Setembro)

Assim como os membros da rede terrorista no 11 de Setembro, os quatro terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) tinham um alvo ocidental e simbólico: a Torre Eiffel, em Paris. No entanto, diferente dos homens de Osama bin Laden que deixaram quase 3 mil mortos nos EUA naquela terça-feira, o GIA não atingiu seu objetivo final.

Em vez de embarcar como passageiros comuns, como fizeram os sequestradores dos ataques nos EUA, os integrantes do GIA chegaram ao aeroporto de Houari Boumediene, na Argélia, vestindo os uniformes azuis dos funcionários. Dessa forma, entraram com facilidade no voo 8969 da Air France, que se preparava para decolar para a França às 11h15 (15h15 de Brasília) de 24 de dezembro de 1994.

Como se apresentaram como agentes de segurança, eles não assustaram os 220 passageiros e 12 tripulantes apesar de portarem armas. Após verificar os passaportes dos 232 a bordo (incluindo 40 franceses), trancaram as portas do Airbus 300 - uma aeronave quase com o mesmo tamanho dos Boeings 767 que atingiram o WTC - e anunciaram o sequestro. O drama que duraria 54 horas havia começado.

O GIA, que reivindicou a autoria do sequestro, começou a praticar atos de violência em 1992, quando o partido governista Frente de Libertação Nacional cancelou as eleições legislativas na Argélia após o primeiro turno, temendo a vitória quase certa da Frente Islâmica de Salvação.

O alvo principal dos militantes era o próprio governo e seus partidários. Para enfraquecer o poder vigente e proclamar uma república islâmica, seus integrantes passaram a matar e ameaçar estrangeiros em território argelino. Divulgado dias após o sequestro, um comunicado do grupo apontava o motivo principal da ação: forçar a França a parar de apoiar política, militar e economicamente o governo de seu país.

No momento em que os militantes do GIA tomaram o controle da aeronave, dois passageiros foram mortos: um policial e um diplomata vietnamita. Os sequestradores estavam armados com rifles, pistolas e granadas caseiras. De acordo com relatos posteriores, eles também haviam armazenado dinamites na cabine do piloto e sob um assento no meio do avião, conectando-as a um detonador. Todas as mulheres sem vestes muçulmanas tiveram de cobrir suas cabeças com lenços - aquelas que não tinham nenhum tiveram de improvisar com cobertas da própria aeronave.

Negociações

Quando a polícia soube do sequestro, o então ministro do Interior da Argélia, Abderahmane Meziane-Cherif, dirigiu-se à torre de controle do aeroporto e começou as negociações usando o rádio. Por intermédio do piloto, os terroristas ordenaram a soltura de Abassi Madani e Ali Belhadj, ambos da Frente Islâmica de Salvação - partido com o qual o GIA romperia mais tarde. Cherif condicionou a continuidade das negociações à libertação das crianças, dos idosos e das mulheres, possibilitando que o terror de 63 reféns chegasse ao fim na noite daquele sábado.

Da França, o ministro das Relações Exteriores e o ministro do Interior tentavam persuadir a Argélia a permitir que o Grupo de Intervenção da Polícia Nacional (GIGN, na sigla em francês), criado em 1974 para especializar agentes em situações críticas como grandes sequestros, entrasse no avião.

Nessa altura, os terroristas já não exigiam mais que os líderes do partido islâmico fossem liberados. Agora, queriam voar em direção à França. O pedido era tudo de que as autoridades francesas precisavam: se o avião estivesse em seu território, poderiam negociar com os sequestradores sem intermediários.

No entanto, os oficiais argelinos não achavam prudente que a aeronave partisse. O impasse entre os governos fez com que os terroristas lançassem um ultimato: se até as 21h30 não houvesse condições de decolar, um refém morreria a cada meia hora. Um chefe de cozinha foi o primeiro assassinado depois do horário estipulado.

Os oficiais do governo da Argélia, então, permitiram que a aeronave partisse. Às 3h30 de 26 de dezembro, a aeronave pousou no aeroporto de Marselha para um reabastecimento. Nesse momento, as tropas do GIGN também chegaram ao local, onde discutiram durante todo o dia cada detalhe do resgate.

Assim que o sol nascia, os sequestradores ordenaram a entrega de três vezes a quantidade necessária de combustível para voar até Paris. O pedido alarmou as autoridades, que temiam que o objetivo agora fosse maior do que lançar o avião contra a Torre Eiffel.

Para ganhar tempo, os negociadores ofereceram alimentos, água e a limpeza do avião - que foram aceitos prontamente. Os responsáveis pela entrega dos pedidos, no entanto, utilizaram a mesma estratégia dos sequestradores - eram agentes do GIGN disfarçados de funcionários do aeroporto. Ao entrar no avião, perceberam que as portas não estavam bloqueadas e conseguiram espalhar microfones pela aeronave.

A ação

Pouco depois das 17h, o ministro do Interior liberou o GIGN para pôr seu plano em prática. Os agentes se aproximaram da aeronave pelos lados e pela parte traseira, para que não fossem vistos pelos criminosos. O primeiro grupo entrou pela porta dianteira com armas em punho e isolou os sequestradores na cabine do piloto.

Ao mesmo tempo, os outros dois times de agentes fizeram a incursão pelas entradas traseiras, montando rampas e coordenando a retirada dos reféns pelas saídas de emergência. Na pista, paramédicos instruíram os passageiros a se rastejar até o terminal, onde os feridos receberiam tratamento.

Dentro da aeronave, o tiroteio prosseguia. Os agentes, então, jogaram granadas que impediram os sequestradores de enxergá-los. Foi nesse momento que os quatro terroristas foram mortos.

Toda a ação do grupo francês durou em torno de 15 minutos. Dos 232 reféns iniciais, três morreram e 16 ficaram feridos. Nove agentes do GIGN ficaram feridos durante a operação antiterrorismo que é considerada das mais bem-sucedidas da história.

FONTE: IG

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