"Não somos heróis, somos vítimas", diz um dos 33 mineiros

"Não somos heróis, somos vítimas", diz um dos 33 mineiros

Grupo pensou que seria esquecido sob a terra, disse ex-jogador de futebol

O mineiro Franklin Lobos, que passou 69 dias preso em uma jazida no norte do Chile junto com outros 32 colegas, rejeitou a fama adquirida após o resgate e disse que ele e seus companheiros não são heróis, mas "vítimas" da irresponsabilidade dos donos da mina São José.

"As pessoas nos dizem que somos heróis, mas não somos heróis, somos vítimas. Nós apenas lutamos por nossa vida porque temos família. Somos vítimas dos empresários que não investem em segurança", disse Lobos em entrevista publicada nesta segunda-feira (18) no jornal chileno "El Mercurio".

Lobos, ex-jogador profissional de 53 anos, revelou que a "grande maioria" dos 33 operários acreditou que a companhia San Esteban, proprietária da mina San José, ia deixá-los no fundo da jazida depois do desmoronamento de 5 de agosto.

"A grande maioria pensou que a empresa ia nos deixar lá. Saía mais barato deixar a gente morrer do que nos resgatar", reconheceu o minerador, que na quarta-feira passada foi o 27º trabalhador a ser resgatado.

O ex-jogador assegurou que o grupo nunca perdeu a esperança de salvamento, embora houve momentos difíceis. "Não dependia de nós, não tínhamos nenhuma possibilidade de sair", explicou.

Segundo o mineiro, o barulho das sondas que perfuravam a rocha para achá-los devolveu a esperança aos operários, embora tenha admitido que caíram em lágrimas quando a primeira delas passou da área onde se encontravam. "Nós chorávamos porque víamos uma possibilidade de sair escapando", lembrou Lobos.

Com relação ao futuro, o ex-jogador se mostrou disposto a trabalhar de novo como mineiro, atividade que desempenhou durante os últimos quatro anos e que lhe permitiu manter a sua família.

"A mina não quis nos levar, a mina nos quis com vida porque nós não éramos os maus, éramos vítimas dos empresários que ganham milhões e não pensam no sofrimento dos pobres", lamentou Lobos, que no dia do acidente estava a quatro meses trabalhando na jazida San José.

Lobos, conhecido como o "Morteiro Mágico" nos anos 1980 por sua habilidade para lances livres, recebeu uma proposta da Fifa para oferecer palestras motivacionais baseadas em sua experiência na mina, onde dirigia os exercícios físicos dos companheiros para que se mantivessem em forma.

Embora ainda não tenha dado uma resposta ao convite, o mineiro lamentou que a fama seja consequência do soterramento na mina e afirmou que o assédio midiático ao qual estão submetidos durará pouco. "Em 15 dias isto vai passar", antecipou o ex-jogador Lobos.

Fonte: g1, www.g1.com.br