Tropas ucranianas deixam bases ao fim de trégua com a Rússia

Em outras partes da Crimeia, soldados russos levavam adiante a ocupação de posições ucranianas



Ao contrário dos soldados mascarados e sem identificação que ocuparam a Crimeia três semanas atrás, os paraquedistas russos que circulavam em um campo perto da base militar de Perevalnoye, que tomaram nesta sexta-feira, usavam suas boinas azuis e insígnias vermelhas características.

Em outras partes da Crimeia, soldados russos levavam adiante a ocupação de posições ucranianas. A tomada da base de Perevalnoye, 25 km a sudeste da capital Simferopol, coincidiu com o final de uma trégua entre os Ministérios da Defesa russo e ucraniano acordada na semana passada após a anexação da Crimeia, de maioria étnica russa.

"Sim, somos russos. Somos tropas irmãs aqui", disse um militar antes de entrar no campo a metros de distância das posições ucranianas.

A ocupação russa da península do Mar Negro tem acontecido basicamente sem derramamento de sangue, embora um funcionário ucraniano tenha sido morto e dois outros feridos em um tiroteio em Simferopol no começo desta semana.

Um porta-voz do Ministério da Defesa em Kiev disse que as bases da Crimeia ainda estão sob controle ucraniano. "Formalmente, todas as instalações militares na Crimeia estão sob controle das Forças Armadas ucranianas. Todo o resto é especulação", afirmou.

Na Baía de Donuzlav, um braço do Mar Negro a noroeste de Sebastopol, o navio caça-minas ucraniano Cherkasy tentou sem sucesso ganhar acesso ao mar pela entrada da baía rompendo um bloqueio formado por três cascos de navio afundados pela Marinha russa no início do mês.

Um cinegrafista da Reuters viu dois helicópteros russos sobrevoando o navio ucraniano, e uma unidade de infantaria foi mobilizada ao longo da costa. O Cherkasy e outros cinco navios foram bloqueados pelas embarcações russas submersas.

Em Perevalnoye, várias dúzias de soldados e seus familiares foram vistos fazendo as malas e partindo. Tropas russas também ocuparam o complexo isolado de uma unidade aérea ucraniana outrora desafiadora no mesmo local. Sorridentes, os soldados russos foram vistos no portão do complexo, sobre o qual a bandeira tricolor russa e o estandarte amarelo e verde dos paraquedistas se agitavam ao vento.

Tropas ucranianas não estavam à vista pelo portão, e não estava claro de imediato se haviam partido por outra saída. Anteriormente, um funcionário disse que conversas a respeito de sua saída estavam em andamento.

Analistas de defesa em Kiev dizem haver entre 8 e 10 mil soldados ucranianos mobilizados em cerca de três dúzias de bases em toda Crimeia, mas os militares ucranianos estimam haver até 20 mil soldados na península.

Na base aérea de Belbek, que até o momento se recusou a se render, alguns soldados ucranianos foram vistos saindo aos pares e em trios, ou colocando malas e utensílios domésticos nos carros. Outros disseram que ficarão até o fim.

"Despedimo-nos de nossas famílias. Houve lágrimas, mas agora estamos prontos", declarou o soldado Sergei através da cerca, apontando um dedo para a testa e imitando um tiro.

Muitas tropas na base aérea de Belbek portavam armas, mas nenhum cartucho estava carregado. Alguns esperam poder entregar a base honradamente e sem derramamento de sangue.

Nikolai, um funcionário de meia idade usando uniforme camuflado, se queixava da falta de ordens do alto comando em Kiev e disse estar disposto a continuar servindo as forças ucranianas.

"Solicitamos ordens repetidas vezes a Kiev, e só tivemos silêncio de rádio, como se estivessem com medo de se responsabilizarem por nós", declarou. "Os russos virão, vai haver algum barulho, e só isso, esperamos. Não pretendemos morrer aqui".

Na quinta-feira, soldados russos tomaram três corvetas ucranianas, Lutsk, Khmelnitsky e Ternopol, na base naval de Sebastopol após a ocupação do quartel-general naval no dia anterior.

O Slavutych, navio de comando da frota ucraniana, continuou ancorado no porto principal de Sebastopol nesta sexta-feira, bloqueado por três embarcações auxiliares russas e pelo cruzador de mísseis Moskva.

Fonte: Terra, www.terra.com.br