Mãe vê "doença" em filho com 18 anos e mais de 100 passagens pela polícia

Primeira vez na polícia foi aos 12 anos, após trote sobre assalto com reféns

No dia 21 de maio, Gabriel Felipe da Silva Dantas, de 18 anos, foi preso por estelionato no Distrito Federal e chegou à marca de 102 passagens pela polícia, sendo a primeira aos 12 anos. A mãe Patrícia Ferreira afirma não entender porque o rapaz continua a praticar os delitos. Ela lembra que os problemas começaram quando Dantas tinha apenas 7 anos e passava trotes. "Ele se fazia passar por pessoas e vizinhos, encomendava água, botijão de gás e moto taxis. Era um constrangimento muito grande", disse.


Mãe vê

A última prisão ocorreu quando Dantas tentou extorquir dinheiro de moradores de um prédio de Águas Claras, região de classe média do Distrito Federal, depois de ludibriar o porteiro do edifício e ter acesso a apartamentos. Ele usou o nome de uma pessoa que o próprio porteiro falou, sem perceber. Aos moradores, Dante disse que uma tia trabalhava no local e que tinha deixado dinheiro para o transporte em um apartamento, que estava vazio naquele momento. Ele contou essa história para moradores de vários apartamentos. Um deles desconfiou da movimentação e acionou a polícia.

O método usado pelo jovem para entrar nos prédios é sempre o mesmo: o rapaz escolhe um lugar, afirma que vai prestar um serviço ou que é parente de alguém que trabalha ou mora no edifício, engana o porteiro dando o nome de algum morador ? geralmente um nome comum, como Maria ou João ? e consegue entrar e chegar aos apartamentos.

O próprio Dantas disse que, na última ocorrência, chegou a dar dicas às vítimas para que não caíssem em golpes. Ele afirmou que alertou uma moradora que o convidou a entrar no apartamento. "Eu disse: "A senhora não acha perigoso deixar as pessoas entrarem assim na sua casa? Imagina se eu fosse uma pessoa má e estivesse armada". Ela falou que só deixou porque eu tinha jeito de bom rapaz".

A avó Perpetua da Silva conta que a família não descansa quando o rapaz sai de casa. "Ele passa dez dias dentro de casa, quieto. No final acaba saindo e a gente não descansa. Já dorme esperando uma ligação da polícia", diz. "Sempre pelo mesmo tipo de crime. Ele nunca se envolveu com assalto ou drogas".

A mãe afirma que a primeira ocorrência policial foi quando Dantas tinha 12 anos. Na ocasião, ele passou um trote para a polícia dizendo que uma agência dos Correios em Valparaíso, no Entorno do DF, onde a família mora, havia sido assaltada, e que várias pessoas eram reféns dos criminosos. A ligação gerou uma operação policial com helicópteros e grande efetivo.

Depois disso, Patrícia conta que procurou ajuda de psicólogos, médicos e professores, mas que aos 13 anos o garoto começou a entrar em prédios de órgãos públicos se passando por outra pessoa. "Na adolescência ele passou tanto tempo no Ciago [uma das unidades de internação para adolescentes infratores do DF] quanto em casa. Já era conhecido dos agentes".

Segundo os cálculos da mãe, Dantas ficou detido oito vezes entre as 102 ocorrências. O maior tempo de reclusão foi seis meses, no Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago). Entre os locais em que ele já aplicou golpes estão Câmara dos Deputados, Palácio do Buriti ? sede do governo do DF ? e condomínios residenciais.

A mãe afirma que, nos últimos tempos, o filho trabalhava como panfleteiro em Taguatinga e que organizava documentos para procurar um emprego. "É como uma doença. Ele passa um tempo bem e acaba voltando [a cometer o estelionato]. Não queria que ele estivesse nesse caminho, mas ele tem que arcar com as consequências do que ele fez. Espero que agora, quando ele sair, não volte a fazer isso", diz Patrícia. "Ele se perdeu no caminho da vida".

Facilidade

Dantas diz ter praticado os crimes pela facilidade com que consegue entrar nos locais. "Procuro na internet o nome de alguém que trabalha no órgão e falo que sou parente da pessoa. Geralmente funciona, alguns seguranças já me conhecem e não me deixam entrar".

Ele afirma que não vai voltar a cometer os crimes, que pensa em ser cobrador de ônibus para parar de aplicar os golpes. "Vou ter que parar, né? Agora eu estou muito conhecido. Quando eu sair, vou tentar arrumar um emprego".

O jovem estava em liberdade provisória, aguardando julgamento por outro crime de estelionato. Com a nova prisão, ele perdeu o beneficio e será encaminhado para o Centro de Detenção Provisória.

Fonte: G1