Mães usam lembranças para superar perda das filhas que morreram

Mães usam lembranças para superar perda das filhas que morreram

Gabriela Nichimura, de 14 anos, caiu de brinquedo radical no Hopi Hari.Grazielly Lames, de 3 anos, foi atropelada por moto aquática em Bertioga.

A distância entre Iwata, cidade localizada na região nordeste do Japão, e Artur Nogueira (SP) jamais permitiu um encontro entre Silmara Nichimura e Cirleide Lames. Mesmo assim, uma conhece a sensação de vazio que a outra passa neste domingo (13) que é especial para muitas mulheres, após a perda das filhas em ocasiões que tinham como únicos princípios o riso e as boas recordações. Duas tragédias que ocorreram em menos de uma semana, em fevereiro, e chocaram o Brasil. A dor de ambas foi compartilhada com muitas mães país afora.

O acidente no parque Hopi Hari, em Vinhedo (SP), confunde-se com o último diálogo entre Silmara e Gabriela, que aos 14 anos sonhava em ser jornalista na capital Tóquio para saciar a curiosidade por experimentar novidades.

"O último diálogo foi na fila do brinquedo [La Tour Eiffel]. Com jeitinho de menina, ela pulou me abrançando, deu um beijo e disse: "Vamos juntas em todos né mamãe?", e sorriu graciosamente. Mal sabia que tudo aquilo aconteceria pela última vez", lembra emocionada. O acidente ocorreu em 24 de fevereiro e 12 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público à Justiça.

Silmara conta que havia muitas afinidades com a filha mais velha, já que também dedica-se a cuidar da pequena Hanna, de 7 anos. "Minha companheira faz muita falta, é um sentimento de vazio, silêncio. Ela gostava de conversar, estar entre amigos, dançar, fazer teato...", pondera ao lembrar que a família planejava a comemoração do aniversário de 15 anos da adolescente, no dia 13 de outubro.

Sobre o acidente que matou Grazielly, de 3 anos, quando brincava na orla da praia de Guaratuba, em Bertioga (SP), ela pede que Cirleide "seja perseverante" e apega-se à religião para agradecer pelas boas lembranças. "Foi realmente muito triste, uma irresponsabilidade. É uma dor que não desejo a ninguém, mas prefiro pensar em nossas filhas como lindas flores que Deus levou para enfeitarem o céu. Eu gostaria de fechar os olhos e ver que tudo foi simplesmente um pesadelo que passou, mas não é possível".

Tempo para refletir

O tio de Grazielly, Zildomar Lames, sente-se mais à vontade do que a irmã para falar sobre os reflexos da morte da criança neste domingo.

"Ela chorou na quinta (10), quando lembrou que nos outros dias das mães sempre havia algo especial, um almoço. Ela não quer ficar em casa, não há condições. É difícil até de falar, pela solidão que ficou na casa", define. O acidente ocorreu no sábado de Carnaval.

O jovem, de 23 anos, afirma que Cirleide também solidariza-se com a família de Gabriela Nichimura. "Os dois casos aconteceram muito próximos. Ao ver matéria na TV, ela disse "Não é fácil, dias que eram para ser de diversão acabaram em tragédia", define. No dia 20 de abril, a Justiça aceitou denúncias contra três pessoas pelo acidente.

Solidariedade nacional

A repercussão dos acidentes no Hopi Hari e na praia de Guaratuba ganharam os principais noticiários e geraram comoção no Brasil e Japão. A psicóloga Vera Lúcia Rezende, do Centro de Atenção Integral da Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que a grande exposição pode repercutir de forma diferente no processo de luto.

"Pode ser positivo na medida em que a pessoa compartilha a dor com intensidade maior e recebe apoio, mas também negativo quando a pessoa deseja pensar menos no assunto. É importante saber dosar", ressalta a psicóloga. Vera ressaltou que o processo de elaboração do luto começa, em média, três meses após a morte.

Fonte: G1