Nissan March: mais razão que sensibilidade à sua disposição

Nissan March: mais razão que sensibilidade à sua disposição

Preço e equipamentos do modelo popular chamam a atenção

Já faz tempo. Era 2003 e um carrinho japonês chegou sem alarde ao Brasil. No evento de lançamento, nada de luxo. O test-drive foi feito nas ruas internas da fábrica, em Sumaré, interior de São Paulo. Quem imaginaria que aquele veículo viraria um dos modelos mais admirados do país? Para quem ainda não deduziu sobre qual carro falo é o Fit, da Honda.

Lembro até hoje de alguns comentários de amigos e familiares: ?feinho né?, ?ah, é simpático?, ?gostei da traseira, mas a frente...?. Isso pouco importou porque as grandes qualidades do Fit só foram percebidas aos poucos. Durabilidade, economia, robustez, praticidade e por aí vai. Custava mais que outros veículos semelhantes, mas quem queria arriscar e entrar numa roubada?

Nesta sexta-feira tive uma sensação parecida com a de oito anos atrás, agora a bordo do March. O compacto da Nissan parece querer repetir a história de sucesso do conterrâneo Fit, mas num patamar inédito, o de populares, cujos clientes só recentemente foram agraciados com alguma atenção das montadoras, ainda assim numa dose modesta.

O hatch feito no México por uma questão logística ? não havia tempo de levantar uma nova fábrica no Brasil ? chega esta semana às concessionárias da Nissan e é o pontapé para a fase mais ambiciosa da empresa em nosso país. A meta é tão ousada quanto seus comerciais provocativos: tornar-se a 6ª marca mais vendida no território nacional em pouco tempo.

A confiança dos executivos vem justamente dessa conjunção de atributos que o March possui. Está longe de ser um belo carro, não empolga ao volante, mas parece um projeto sólido, mais preocupado em agradar seu dono a longo prazo do que causar emoção num primeiro encontro. Construção cuidadosa, bons itens de série, projeto moderno e, sobretudo, uma preocupação extrema com o pós-venda: garantia de três anos, assistência 24 horas por dois anos, pacote de revisões tabelado e com valores mais em conta, entre outros. Quase um Fit popular.

Momento oportuno

Sair do ostracismo no Brasil virou um desafio para a Nissan. A matriz renovou sua filial ao mudar a equipe, a começar com o presidente, o francês Christian Meunier. A meta era clara: ?éramos conhecidos, mas não lembrados?, disse o diretor de marketing, Murilo Moreno, outro dos talentos trazidos no último ano. ?Precisamos ser lembrados na hora em que o cliente decide pensar num carro novo?. Daí veio a primeira fase da mudança, com as campanhas agressivas que cutucaram a concorrência, motivaram uma chuva de processos, mas que cumpriram sua função ao colocar a Nissan na mídia. ?Hoje devemos ter 25% ou mais de lembrança contra 6,9% há dois anos?, completa Moreno.

Agora a marca japonesa parte para a fase mais ambiciosa, com o lançamento do March este mês, a chegada do sedã Versa em novembro e a preparação para o anúncio da segunda fábrica da marca no Brasil. Lá será feito o terceiro derivado da plataforma V, que deu origem ao March e ao Versa, além de, provavelmente, o próprio hatch.

As metas impressionam: ter 200 mil carros vendidos em 2014, ou 5% de participação. Parece pouco, mas significa hoje mais de cinco vezes o que se vendia em 2009. E o March é a grande locomotiva desse ?trem?. Dele se espera uma venda mensal de 5 mil unidades em 2012, quando a produção chegar ao seu ápice.

E pode ser mais que isso já que os executivos da marca preferem divulgar números modestos. O panorama, no entanto, sugere que esses números podem ser batidos. Com produção no México, o March custa menos que seus pares nacionais. Também é feito sobre uma plataforma global que deve ter uma produção anual de um milhão de unidades no futuro, ou seja, tem uma escala impressionante, que barateia o custo unitário. E ainda recebeu um presente do governo brasileiro, ao dificultar as vendas de importados de outros países e deixar os veículos mexicanos intactos.

Melhor com o passar do tempo

Mas, afinal, o March é capaz de fazer tudo isso? Andamos com a versão 1.0 e analisamos vários detalhes sobre ele para dizer que, sim, o carrinho da Nissan pode ser bem-sucedido, mas o principal trunfo não virá do modelo em si, e sim do pós-venda da marca japonesa.

Com design tímido e comportamento neutro, o March não ganhará seu cliente pela emoção. Pelo contrário, o carro vira um bom negócio depois de feitas as contas. É o típico caso de veículo em que o custo-benefício fala mais alto. Mais japonês que isso impossível.

A montadora explica que o March é um carro totalmente novo, que foi pensado para ser eficiente ao extremo. Ele adota algumas soluções novas como estrutura frisada nas longarinas e teto com depressões em formato de bumerangue (reparem na foto da galeria para entenderem melhor). Ambos ajudam a deixar o March mais leve ? a versão mais equipada pesa menos de 1.000 kg. Segundo um estudo encomendado pela empresa, o March 1.0 é 26% mais econômico que o Gol na cidade, por exemplo. A versão 1.6, que só chega em novembro à rede, traz um motor mais moderno, com 111 cv e apetite de faquir.

O pacote de equipamentos é outro dos diferenciais. Por R$ 27.790, o cliente já leva o airbag duplo e itens como ar quente, imobilizador, ajuste de altura do banco, conta-giros e rodas aro 14 ? os rivais mal oferecem isso e têm roda aro 13. Mas são as versões 1.0S e 1.6S, que custam R$ 33.390 e R$ 35.890, as maiores apostas da Nissan. Juntas, elas devem responder por mais de 60% das vendas.

Os dois têm de série os equipamentos mais procurados pelos clientes, entre eles, ar-condicionado, trio elétrico, airbag duplo, direção assistida (elétrica no caso do March), keyless, computador de bordo e desembaçador. Com a mesma lista, o Gol, líder do mercado, custa mais de R$ 38 mil na versão 1.0. Já o Uno, um dos modelos mais em alta no mercado, sai por quase R$ 37 mil. É verdade que os dois incluem freios ABS na conta, um item de segurança que ficou em segundo plano na Nissan (a marca promete o recurso para 2012).

Para gente alta e magra

Pós-venda que promete e preço bem mais em conta, falta saber como ele anda. Aqui a semelhança com a história do Fit acaba. O Honda, apesar da aparência contida, era um carro prazeroso de se dirigir, com direção bem acertada e um câmbio no mínimo condizente com suas possibilidades.

Já o March é comum nesse aspecto. A posição de dirigir é correta, um pouco elevada, mas confortável. O banco tem bom apoio mas o assento é muito curto. Sobra espaço para a cabeça, porém, você se sente íntimo do seu passageiro, tão perto fica dele. Atrás, a mesma coisa: gente alta e magra vai bem, mas quem anda brigando com a balança vai sentir falta de algum espaço.

Por falar em espaço, o porta-malas é outro compartimento que está apenas na média. Leva 265 litros, 5 litros a mais que o pequeno e antigo Celta ? Uno e Gol conseguem levar uma frasqueira extra.

O acabamento do interior, esse sim, é tipicamente japonês. Simples, com muitas peças plásticas sem nenhum revestimento, mas bem encaixadas e sólidas. Os instrumentos e equipamentos têm visual convencional e previsível. No painel de instrumentos, o computador de bordo ganhou um cantinho à direita, abaixo dos sinais de alerta. O console central aloja o rádio ?double din? e abaixo os comandos de ventilação, de layout intuitivo.

Alavancas e comandos são bastante ergonômicos e na altura correta. Há também alguns bons porta-objetos, mas regular o assento do motorista é uma tarefa incômoda pela falta de espaço na lateral. O interior todo em preto também tira qualquer sensação de conforto que o March pode ter. Uma pena, afinal, algumas marcas rivais já andam oferecendo dois tons no painel e tecidos mais aconchegantes.

Em movimento, o March mostra algumas virtudes como a suspensão firme, o isolamento acústico elevado para um popular, e uma direção elétrica leve, ideal para a cidade. A versão com motor 1.0 da Renault dá conta do recado, mas sem milagres. O câmbio tem engates um pouco longos o que, juntamente, com a direção indireta, tiram parte do prazer de dirigir. É um carro fácil, mas não gostoso de guiar. Talvez o 1.6 possa compensar essa sensação, mas isso só saberemos daqui há dois meses.

Comprar para vender

O segmento de entrada, onde o March passa a concorrer, está em franca evolução. Porém, ainda vê os clientes mais preocupados com o amanhã do que hoje. Prazer de dirigir, esportividade, conforto e nível de equipamentos são aspectos que pesam menos que valor de revenda, custo de manutenção, preço de seguro e durabilidade. Por isso a crença que o Nissan pode dar mesmo certo.

Talvez daqui há algum tempo a Nissan veja seu carro ser chamado de simpático, confiável e resistente, assim como aconteceu com o Fit, mas para que a receita dê certo vai depender mais da rede de concessionárias, da logística mexicana e também da própria montadora ao oferecer um pós-venda eficiente porque nessas horas pouco importa se há bumerangues no teto ou airbags de série se o produto não é confiável como prometido.

Fonte: IG