Após um mês, inquérito de caso Eliza tem 1,3 mil páginas

Após um mês, inquérito de caso Eliza tem 1,3 mil páginas

Delegado Edson Moreira deve pedir prorrogação de fim do inquérito.

O inquérito sobre o desaparecimento e possível homicídio de Eliza Samudio já chega a 1,3 mil páginas, de acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais. O prazo inicial para a conclusão do inquérito, aberto em 26 de junho, é de 30 dias, mas o delegado Edson Moreira, atual presidente da investigação, diz que pretende pedir a extensão do prazo para a entrega do parecer final. Moreira alega que ainda espera laudos periciais para encerrar a investigação. O G1 destacou alguns dos pontos mais importantes relatados no documento. Durante o primeiro mês de investigações, foram ouvidas mais de 50 pessoas. Para a polícia, os principais depoimentos foram os de um menor detido na casa do goleiro Bruno de Souza, no Rio de Janeiro, e de um primo do jogador, Sérgio Rosa Sales. Na primeira vez em que foram ouvidos, os dois confirmaram que Eliza está morta. Nos relatos seguintes, eles entraram em contradição quanto aos detalhes do sequestro e do suposto assassinato. No total, oito pessoas estão presas suspeitas de envolvimento no caso. Todas negam participação no crime. O menor permanece provisoriamente em um centro de internação em Belo Horizonte. A principal prova é o sangue encontrado em uma caminhonete de Bruno, apreendida no início de junho, antes das investigações sobre a morte de Eliza, por estar com a documentação irregular. O carro passou por perícia e exames indicaram a presença de sangue da jovem e de um homem. Os suspeitos presos não forneceram material genético para exame de DNA. Denúncia anônima Eliza Samudio, 25 anos, está desaparecida desde o início de junho e é considerada morta pela polícia. Ela teve um relacionamento com goleiro Bruno, no ano passado, e brigava, na Justiça, pelo reconhecimento da paternidade do filho, de 5 meses, que seria do jogador. À época, o goleiro estava separado de sua mulher, Dayanne Souza. Eliza e Bruno teriam se conhecido no Rio de Janeiro. No dia 24 de junho, a polícia mineira recebeu uma denúncia anônima de que uma mulher teria sido agredida e morta no sítio do goleiro Bruno de Souza, em Esmeraldas (MG). Amigas disseram que Eliza iria se encontrar com Bruno no início do mês e desde então ela sumiu. Eliza denuncia Bruno por agressão Eliza já havia procurado a polícia, em outubro de 2009, para denunciar que teria sido agredida e ameaçada por Bruno. Ela afirmou que foi obrigada a tomar substâncias abortivas, após contar para o jogador sobre a gravidez. Na ocasião, depois de registrar ocorrência na polícia do Rio de Janeiro, Eliza colheu urina para exame. O primeiro laudo, divulgado após o desaparecimento da jovem, indicou ingestão de substâncias abortivas, mas não foi conclusivo. A segunda verificação apontou o mesmo resultado. A assessoria da Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou que ainda não tem uma resposta a respeito da demora na realização do exame de urina de Eliza Samudio, para verificar se ela teria tomado substância abortiva. O chefe da polícia, Allan Turnowski, determinou, no início de julho, abertura de inquérito para averiguar a demora na realização dos testes. O que aconteceu, segundo a polícia A polícia acredita que Eliza foi sequestrada na primeira semana de junho, no Rio de Janeiro, e levada para Minas Gerais, com o filho, de 5 meses. Ainda não se sabe quem cuidou da criança nesse período. Em 6 de julho, um menor foi apreendido na casa de Bruno e disse à polícia do Rio que ele e Luiz Henrique Romão - o Macarrão levaram Eliza do Rio para Minas. O adolescente foi o primeiro a confirmar à polícia a morte de Eliza. Elenilson Vitor da Silva, um dos suspeitos presos, disse que o bebê chegou ao sítio com Macarrão. Flávio Caetano, outro suspeito preso, disse que foi chamado por Dayanne de Souza, mulher de Bruno, para buscar uma criança na BR-040. Ele e outro amigo, Wemerson Marques, teriam levado o filho de Eliza para outra mulher. Em depoimento à polícia, Dayanne disse que Bruno afirmou que Eliza abandonou o filho com ele. O atleta teria pedido ajuda para tomar conta da criança. Dayanne foi detida em 25 de junho. Depois de ser ouvida, ela foi liberada, mas autuada por subtração de incapaz. Na mesma data, o filho de Eliza foi encontrado na casa de desconhecidos em Ribeirão das Neves (MG). O pai de Eliza, que mora em Foz do Iguaçu (PR), viajou até Minas para buscar a criança. Semanas depois, a Justiça decidiu que a mãe da jovem, Sônia Fátima Moura, deve ficar com a criança. O bebê foi entregue à avó no dia 9 de julho. Hoje, a avó e a criança vivem em Mato Grosso do Sul. Bruno foi afastado do Flamengo logo no começo das investigações, em 28 de junho, e treinava separado da equipe. Em entrevista em 1º de julho, ele disse que recebeu o filho de Eliza de Macarrão. E que não via Eliza há cerca de três meses. Prisões temporárias Em 6 de julho, o adolescente que foi encontrado na casa de Bruno prestou depoimento à polícia do Rio. Ele revelou que teria participado do sequestro de Eliza e apontou outros envolvidos. Neste depoimento, o adolescente afirma que um homem identificado como Neném teria executado e ocultado o corpo de Eliza. Ele disse que a jovem foi asfixiada e uma de suas mãos foi jogada a cães. No dia seguinte ao depoimento do menor, a polícia mineira decretou a prisão de sete suspeitos e a internação do menor. Dayanne e Sérgio Sales, primo de Bruno, foram presos em seguida. Também foram decretadas as prisões de Bruno, Macarrão, Flávio Caetano, Wemerson Marques e Elenilson Vitor da Silva. Bruno e Macarrão se entregaram à Polinter, no Rio de Janeiro, no dia 7 de julho. No dia 8 de julho, os dois são transferidos do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. Depois de passarem por um exame de corpo de delito, são transferidos para a Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem (MG). Ainda em 7 de julho, a polícia foi até a casa do ex-policial Marcos Aparecido dos Santos. O menor teria orientado a polícia para chegar ao local. Segundo o delegado Edson Moreira, Santos é conhecido pelos apelidos de Bola, Paulista e Neném e é suspeito de ter executado Eliza. Nas primeiras buscas feitas na casa dele, nada foi encontrado. Ele foi preso no dia 8 de julho e também transferido para a Penitenciária Nelson Hungria. No dia 9 de julho, Wemerson Marques, Flávio Caetano e Elenilson Vitor da Silva foram presos juntos, em Igarapé (MG). Buscas pelo corpo de Eliza e exames periciais Além da casa de Bola, a polícia também fez buscas no sítio de Bruno, em Esmeraldas. Eles entraram no local pela primeira vez em 28 de junho. Os técnicos e delegados revistaram a casa, cisternas no terreno e poços. A polícia usou também um reagente químico para verificar a presença de sangue na casa. Foram recolhidas fraldas e roupas femininas. A polícia chegou a fazer buscas perto de duas lagoas, em Ribeirão das Neves (MG), mas nada foi encontrado. No dia 14 de julho, a polícia chegou a um sítio, também em Esmeraldas, onde o ex-policial Bola adestraria cães. Há informações de que na mesma propriedade eram realizados treinamentos de policiais de elite. Em outra vistoria no sítio de Bruno, Sérgio Rosa Sales acompanhou a polícia e apontou lugares onde teria visto Eliza. Uma mancha de sangue em um colchão e fio de cabelos foram encontrados nos cômodos onde Eliza teria ficado. Segundo a polícia, a mancha de sangue é de mulher, mas não é compatível com o sangue de Eliza. Contradições Depois de ter dado detalhes sobre a morte de Eliza, ainda no Rio, o menor detido na casa de Bruno mudou sua versão sobre o crime. A principal divergência é a permanência de Bruno no sítio em Esmeraldas. Na primeira vez que falou à polícia, o adolescente havia dito que Bruno ficou poucas horas no sítio. Em outro depoimento, ele chegou a dizer que o goleiro participou de festas na propriedade. O menor também foi ouvido quando chegou a Belo Horizonte, em 13 de junho. Segundo a delegada Ana Maria Santos, o menor confirmou que quem matou Eliza foi Marcos Aparecido dos Santos - o Bola. Para advogado Eliezer Jonatas, que representa o adolescente, o primeiro depoimento do menor não foi válido. “O primeiro depoimento, se é que podemos tratar dessa maneira, foi coletado sem a presença de um tutor, curador ou responsável legal do menino. Pressionado, ele acabou inventando algumas coisas, tendo delírio em razão da pressão sofrida à ocasião”, disse Lima. O primo de Bruno, Sérgio Rosa Sales, chegou a falar à polícia que Bruno acompanhou o grupo que levou Eliza ao local em que teria sido morta. De acordo com ele, o menor e Macarrão levaram Eliza para ser morta e, depois de retornarem ao sítio de Bruno, a mala da jovem foi incendiada. Sales disse ainda que, antes de Eliza ser morta, foi impedido por Macarrão de entrar na casa do sítio de Bruno e viu que a jovem era mantida refém e que tinha ferimentos na cabeça. Em novo depoimento, Sérgio disse que estava com Bruno no sítio, no momento do crime. Ele disse ainda que foi ameaçado por Macarrão: "Se você abrir o bico, você sabe o que vai acontecer. Você viu lá o que aconteceu com Eliza, né?”. O advogado do primo de Bruno, Marco Antônio Siqueira, disse que no primeiro depoimento seu cliente ficou nervoso e se confundiu com alguns detalhes. Mulheres Durante as investigações, pelo menos três mulheres que tiveram envolvimento com Bruno falaram com a polícia. Dayanne Souza, que casou com o jogador, está presa no Complexo Penitenciário Estevão Pinto, em Belo Horizonte. Fernanda Gomes de Castro, suposta amante do goleiro, é citada em pelo menos cinco depoimentos. Ela disse à polícia que viajou com Bruno do Rio de Janeiro para Minas Gerais, no começo de junho, mesma época em que Eliza teria desaparecido. Fernanda confirmou que cuidou de um bebê, a pedido de Macarrão, mas negou que tenha tido contato com Eliza. Ingrid Oliveira, dentista no Rio de Janeiro, que teria sido noiva de Bruno, também foi chamada para prestar esclarecimentos no Rio de Janeiro, mas pediu adiamento do testemunho. Provas Apesar de não terem sido encontrados vestígios do corpo de Eliza, o delegado Edson Moreira afirmou, na sexta-feira (23), em entrevista coletiva no Departamento de Investigações em Belo Horizonte, que indiciará Bruno com mandante do assassinato de Eliza. Ele diz que a polícia já tem provas “fartas”. “As autorias, a motivação, a incidência e as circunstâncias do crime estão no inquérito policial e serão encaminhadas à Justiça", disse Moreira. "Quem falar que Eliza está viva está com alucinação, porque Eliza está morta. A materialidade é indireta. Quem escondeu o corpo escondeu bem escondido. O corpo infelizmente não foi localizado, mas temos provas de que ela está morta." Segundo o delegado, a suposta amante de Bruno, Fernanda Gomes de Castro, também está sendo investigada e poderá ser indiciada pelo desaparecimento e morte de Eliza. "A versão dela só corroborou nossa investigação. Vamos analisar mais profundamente, mas possivelmente ela será indiciada. Ela encontrou a Eliza na casa do Bruno, quando o Macarrão [Luiz Henrique Ferreira Romão] a chamou para cuidar do bebê. Ela colocou uma camiseta na cara para não ser reconhecida pela Eliza", diz. Moreira afirma que será feita uma acareação com os envolvidos assim que a Justiça autorizar. Bruno, Luiz Henrique Romão – Macarrão, Marcos Aparecido dos Santos – Bola, Elenilson Vitor da Silva, Wemerson Marques e Flavio Caetano estão presos na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Ainda estão detidos por suspeita de envolvimento no desaparecimento de Eliza Samudio o primo do goleiro, Sérgio Rosa Sales, no Centro de Remanejamento de Presos São Cristóvão; e a mulher de Bruno, Dayanne Souza, no Complexo Penitenciário Estevão Pinto, ambos em Belo Horizonte. O adolescente, que segundo o Ministério Público também está envolvido no caso, está internado no Centro de Internação Provisória no Horto, também na capital.

Fonte: g1, www.g1.com.br