"Ele pedia socorro", conta irmão de baleado por agente policial

Confusão em SP envolvendo agente policial resultou ainda na morte de outra pessoa.

Uma confusão, que acabou em tragédia, envolve a delegacia de polícia da Grande São Paulo. Por que o agente policial André Bordwell da Silva, segundo a polícia, sacou uma arma e atirou, matando um médico e deixando gravemente ferido um professor de educação física?



?Tiros, tiros, tiros. E eu só escutava a voz do meu irmão gritando, pedindo socorro, que ele ia morrer?, lembra Gustavo Grillo, irmão de Ricardo Grillo.

Gustavo estava na delegacia no momento do tiroteio. Ele e o irmão, Ricardo, tinham ido retirar o carro da família roubado durante a semana. ?No sábado, eu estava em casa e aí a Polícia Militar ligou para a gente falando que o carro foi achado com dois bandidos dentro. A gente foi na delegacia para fazer a retirada do veículo?, conta.

Ricardo foi baleado cinco vezes. ?Na verdade, eles foram vítima duas vezes. A gente fica tentando entender algo que não tem como entender?, diz Walter Karl Marlow, pai das vítimas.

?Parece que é um sonho, que não está acontecendo um negócio desses, não só com a gente, mas com outras famílias. É muito complicado?, diz a mãe.

O médico que morreu baleado estava na delegacia para registrar acidente de trânsito.



Na delegacia, estavam também o médico Ricardo Assoname e a sua noiva Cíntia Akemi. Eles foram registrar uma ocorrência de acidente de trânsito. Os quatro aguardavam sentados na recepção.

O Comando da polícia ainda investiga e não quer dar detalhes sobre o que aconteceu.

A certeza é de que tudo começou quando um policial militar, que estava de folga, fugia de dois assaltantes que tentavam roubar sua moto no sábado, dia 26 de abril.

Em depoimento o policial militar Felipe de Oliveira Paula, afirma que, instantes antes, os assaltantes tinham "efetuado disparos contra a sua pessoa". E que, para chamar atenção da delegacia, "efetuou brusca freada, caiu da moto que acabou sendo acelerada". Ele afirma que não chegou a ingressar no Distrito.

?A gente escutou um barulho, não sei se é de moto, um barulho muito forte, que assustou todo mundo, aí começou a correria na delegacia?, relata Gustavo.

O médico, Cíntia, Gustavo e o irmão correram para a parte de trás da delegacia. Lá dentro, estava o funcionário de telecomunicações André Bordwell da Silva. Que é um agente policial, e pode andar armado. De acordo com as investigações da Corregedoria da Polícia Civil, André achou que a delegacia estava sendo invadida e passou a atirar.

Ricardo está internado e não tem condições de dar entrevista. Ele contou para a família que, logo que ele e o irmão viraram o corredor, foram surpreendidos por um policial, agachado, atirando.

Gustavo conseguiu correr até a porta e se escondeu em baixo de uma escada. ?Fiquei abaixado, não vi mais meu irmão e a gente só escutou barulhos de tiro. Tiro para todo lado?, ele conta.

Ricardo levou cinco tiros: três na região do abdômen, um na perna direita e outro no pé. ?Ele pedia socorro, socorro, alguém me ajuda por favor e gritava?, relembra Gustavo.

Gravemente ferido, Ricardo se arrastou até a sala ao fundo. Ele confirmou que outros policiais estavam ali e também atiravam.

?Acabaram os barulhos e eu saí para socorrê-lo. Aí eu o vi todo ensanguentado, cheio de sangue. Eu peguei ele pela mão, o outro PM pegou ele pelo braço, colocamos ele na viatura e fomos deixa-lo no hospital?, diz Gustavo.

O irmão de Gustavo não foi a única vítima. O médico Ricardo Assoname levou um tiro na cabeça e morreu.

Durante a confusão, um investigador de polícia acertou o peito de André. Ele está internado em um hospital sob escolta da polícia. Quando se recuperar, vai direto para a cadeia. Foi autuado em flagrante por homicídio doloso.

A mulher do agente, que disse que André afirma que só disparou a arma, porque antes atiraram nele.

?Esse caso é um absurdo. É uma aberração social, porque isso mostra, assim: ?n? incompetências do Estado. Todos os policiais que estavam ali dentro, o Estado que deu essas armas para eles, para essas pessoas. Eu tenho que treinar essas pessoas, eu tenho que fiscalizar essas pessoas. E não é treinamento só técnico, de mirar no alvo e acertar. É um treinamento psicológico. Segurança pública é educação, é estratégia, é saber para quem eu dou uma arma?, avalia Herick Berger, advogado da família.

O estado de saúde de Ricardo é grave. Gustavo postou uma foto dos dois juntos quando o irmão estava ainda no quarto. Neste domingo (4) de manhã, Ricardo voltou para a UTI, está com pneumonia. Gustavo não vai esquecer a angústia que viveu no meio do tiroteio.

?Você ver seu irmão jogado, tomando tiro, sangrando. Eu vi o médico no chão, jogado, com a cabeça saindo sangue?, relata Gustavo.

?Para para nós, como pais, foram os piores dias de nossas vidas E está sendo ainda?, diz o pai de Gustavo e Ricardo.

Fonte: G1