Gripe suína: pai vive pesadelo após morte de filho no Rio de Janeiro

Neste meio tempo, Robson e uma filha de 14 tentaram retomar a vida normal

O aposentado Robson Basílio, de 50 anos, vive desde o dia 14 entre dois veredictos - um oficial e outro informal. Seu filho Alison Marinho Basílio, de 10, morreu no dia 14. De acordo com o atestado de óbito, as causas foram pneumonia e insuficiência pulmonar. Somente sete dias depois, sob a forma de um informal telefonema de um funcionário da prefeitura, Robson soube a verdade que o jogou novamente num pesadelo: Negão - como era conhecido carinhosamente o garoto - tinha morrido de gripe suína.

Neste meio tempo, Robson e uma filha de 14 tentaram retomar a vida normal. Mantiveram contato com familiares e amigos, mas não receberam nenhuma informação da Secretaria municipal de Saúde. Ninguém os orientou a ir a um médico - embora a menina tivesse febre alta antes mesmo de Alison - e nem a ficar atentos a sintomas de gripe.

Além da falta de informação, o caso de Alison guarda outra semelhança com quatro das cinco mortes no Rio. Todas as vítimas viviam em favelas.

- Foi muito descaso eles não terem comunicado antes. Desde que soube a causa da morte verdadeira, fico sentado em casa, pensando se tenho a doença - diz Robson.

A secretaria informou que segue o protocolo do Ministério da Saúde, sendo responsável apenas pela coleta do material para exame. Segundo a prefeitura, cabe à Fiocruz a sua realização e remessa do resultado à secretaria.

Para o epidemiologista Edimílson Migowski, o tempo de espera para o resultado da necrópsia está inaceitável.

- A fórmula do processamento do material possibilita, em tese, que o resultado saia em 24 horas - diz.

Nesta quinta-feira, a secretaria anunciou cinco postos de esclarecimento na cidade, mas o do Complexo do Alemão não existia mais, sendo transferido para a Rua

Caso é investigado

A morte de Fabíola Alves, de 39 anos, tornou-se o primeiro caso de gripe suína investigado pela polícia. Fabíola foi encontrada morta em casa, na favela Furquim Mendes, em Jardim América, no último dia 19. O corpo dela foi o único das cinco vítimas fatais no estado remetido para o Instituto Médico-Legal.

Fabíola foi enterrada no Cemitério de Irajá. Em seu atestado de óbito, a causa da morte ainda é ignorada. Em seu lugar, consta "dependência de exames de laboratório". No IML, foram colhidas amostras do corpo para análises patológicas e toxicológicas. Um técnico da Vigilância Sanitária foi enviado ao instituto e, a partir do material coletado, segundo o IML, a Secretaria de Saúde confirmou que o vírus H1N1 matou Fabíola.

Atendimento em UPA

O IML deu prioridade ao caso. Em média, as necrópsias têm sido feitas em 30 dias. O resultado da de Fabíola deve ficar pronto hoje, sendo remetido à 38 DP (Irajá), onde foi registrada a morte dela.

Por ora, a polícia sabe que Fabíola esteve doente por cerca de uma semana. Sentindo falta de ar neste período, buscou socorro na UPA da Penha, sendo liberada após ser medicada com antibiótico e antitérmico. No dia 19, uma patrulha do 9 BPM (Rocha Miranda) foi chamada à favela Furquim Mendes. Em vão. Fabíola estava morta, no corredor de casa.

Ministro reconhece precariedade da rede de Saúde

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, disse nesta quinta-feira, em Assunção, no Paraguai que, embora seja mais preocupante a situação no Rio Grande do Sul, devido à gripe suína, não há razão para alarme, pois a situação lá e em São Paulo está sob controle. Já no Rio, a preocupação é maior.

- Na cidade, a situação é mais peculiar. Isso tem a ver com as características estruturais do sistema do estado. Infelizmente, não existe estrutura de atenção básica de qualidade. Isso começa a ser construído agora - disse o ministro, acrescentando que recebera, ontem, notíciais de que tanto a cidade quanto o estado "estão implantando estratégia nova de multiplicação de pontos de atendimentos, com tendas".

O fantasma da gripe suína, que anda assombrando o Rio, transformou qualquer sintoma da doença em motivo de pânico. Quem está gripado ou usa máscara nas ruas já sofre com o preconceito. No edifício que abriga várias secretarias do governo estadual, conhecido como Banerjão, na Rua da Ajuda, no Centro, ascensorista foi repreendida porque resolveu trabalhar usando máscara.

Marido transtornado

- Comentaram que ela estava com medo de pegar a gripe suína e resolveu usar a máscara. Dizem que alguns funcionários da Secretaria de Educação estariam com a doença. Só que gerou pânico e pediram que ela não usasse - conta uma funcionária, que não se identificou.

No Mercado Popular da Uruguaiana, as vendas caíram em até 80% em algumas barracas. O motivo da queda de movimento foi o medo de contrair a doença, que vitimou a vendedora Aldinete Pereira Lima, de 29 anos. Grávida, ela vendia relógios e outros acessórios no Camelódromo.

Fora do ar

Apresentadora do "Jornal Hoje", Sandra Annenberg está com suspeita ter contraído gripe suína. Desde quarta-feira a jornalista não está mais na bancada do "Jornal Nacional" cobrindo as férias de Fátima Bernardes.

Fonte: Extra, extra.globo.com