"Guerra" de tráfico já matou 65 adolescentes e vira desafio para a polícia em Fortaleza

Os assassinatos por ´acerto de contas´ têm deixado um rastro de violência

A ´guerra do tráfico´ tornou-se um desafio para as autoridades policiais do Ceará. Desde o começo do ano, pelo menos 65 adolescentes foram fuzilados nas ruas de Fortaleza em conseqüência de dívidas contraídas e não honradas com os traficantes. Em praticamente todos os bairros da Capital e nos 11 municípios que compõem o cinturão metropolitano, os assassinatos por ´acerto de contas´ têm deixado um rastro de violência, impunidade e medo na população mais carente.

?Uma verdadeira carnificina é o que estamos presenciando, uma matança sem freio?, afirma o juiz de Direito Darival Bezerra Primo, titular da Vara da Infância e da Adolescência de Fortaleza, lamentando o ´banho de sangue´ nas ruas da RMF. ?Fico com meu coração partido. Todos os dias, de manhã, quando levanto, já pego o jornal para saber quantos adolescentes foram mortos. São meninos meninas que tiveram a vida exterminada?, disse Primo em recente entrevista ao Diário do Nordeste.

Os índices dos assassinatos gerados pelo tráfico - que não param de crescer - são seguidos também pelo quantitativo de prisões e apreensões de drogas. Somente a Delegacia de Narcóticos apreendeu, este ano, nada menos que 70 quilos de crack nas mãos de traficantes de pequeno, médio e grande porte ou em poder de seus ´aviões´. Até o último dia 26, cerca de 114 pessoas acusadas de traficar drogas foram detidas pelas equipes da Denarc.

Some-se a este contingente outras dezenas de pequenos traficantes detidos pelas polícias Militar (PM) e Rodoviária Federal (PRF) ou pelos inspetores e delegados das delegacias distritais e metropolitanas.

?Estamos constantemente desarticulando quadrilhas locais e interestaduais. Mas, há investigações que demoram, demandam tempo para que possamos chegar aos traficantes maiores. Neste trabalho, a colaboração da sociedade, denunciando os pontos de venda de drogas, é fundamental para o êxito de nosso trabalho?, afirma o delegado César Wagner Maia Martins, que comanda a Delegacia de Narcóticos.

Flagrante

A última grande baixa sofrida pelos traficantes de drogas em Fortaleza aconteceu há duas semanas, quando quatro pessoas - dois homens e duas mulheres - foram presas, em flagrante delito, com, nada menos, que 61 quilos de crack. Parte da droga estava escondida em uma residência, no bairro da Serrinha. A outra, havia sido enterrada em um sítio, no Município de Guaiúba.

No dia anterior, outro grupo, também formado por homens e mulheres, fora capturado com um quilo e meio de crack de alto teor de pureza e, por isso, batizado pelos traficantes como ´água de coco´.

TESTEMUNHAS CALAM

Polícia tem dificuldades para esclarecer os crimes do tráfico

Embora o quantitativo de adolescentes mortos este ano seja de 65, em apenas cinco meses, contra 42 em 2008, o número de mortos na ´guerra´ do tráfico é, certamente, bem maior, levando-se em consideração os assassinatos de adultos pelo mesmo motivo, isto é, dívida de drogas.

A própria Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) tem encontrado dificuldades para tabular com exatidão o número de pessoas assassinadas pelos traficantes, e o entrave reside num ponto crucial: a deficiência que a Polícia Judiciária (Civil) tem para investigar todos os crimes.

A falta de um órgão específico para atuar na apuração de crimes de morte considerados misteriosos ou de ´encomenda´ impede que as estatísticas sejam fechadas com exatidão.

Adolescentes

No dia 20 de abril passado, o Diário publicou matéria especial com o título ´Tráfico mata 42 adolescentes´. De lá para cá este número avançou e a tendência, conforme as autoridades do setor, é chegar ao fim de 2009 com mais de uma centenas de adolescentes eliminados pelos mercadores das drogas, especialmente, do crack, também conhecida entre os usuários e traficantes simplesmente por ´pedra´.

Segundo levantamentos da Polícia Civil, bairros nobres e bairros pobres de Fortaleza convivem com o mesmo problema. Na Praia de Iracema, no Papicu e na Varjota, traficantes de drogas atuam tão intensamente quanto os traficantes do Pirambu, Bom Jardim ou Messejana. Os assassinatos são constantes nas duas áreas.

?O avanço do crack não faz distinção entre pobres e ricos. As pessoas estão se rendendo ao poderio desta droga tão devastadora e os jovens estão morrendo?, contou um inspetor de Polícia que pediu para não ser identificado. Segundo ele, em bairros da Zona Leste de Fortaleza, os traficantes possuem verdadeiros ´exércitos´ de ´aviões´ e de assassinos. ´Quem compra e não paga, morre´, sentencia o policial.

O delegado César Wagner Maia Martins, que vem comandando a repressão ao tráfico doméstico em Fortaleza e na Região Metropolitana, afirma que os recursos de pessoal, transporte e outros meios são ainda deficientes para que a Polícia faça frente ao volume de denúncias da população.

Mesmo assim, segundo ele, a parceria das autoridades policiais e a sociedade tem sido uma fórmula exitosa para o combate ao tráfico. ?Recebemos diariamente dezenas de denúncias. Mesmo com os poucos policiais e viaturas que dispomos, procuramos checar todas as denúncias e o resultado tem sido positivo. São prisões feitas diariamente e muitos grupos de traficantes desarticulados. Também temos apreendido, além das drogas, muitas armas, munição, telefones celulares, balança e veículos usados pelos grupos?, relata o titular da Narcóticos.

BARGANHA

Droga virou moeda de forte valor entre os criminosos

Crack por motocicleta, crack por armas, crack por celulares, crack por carros. A droga que tem devastado a juventude brasileira virou, segundo as autoridades, moeda de troca no mundo do crime. À cada prisão de grupos de traficantes, a Polícia confisca junto das drogas os objetos de valor que são adquiridos pelos mercadores do tráfico.

Em várias operações desencadeadas pela Denarc ou pela Polícia Federal em Fortaleza, uma grande quantidade de objetos de valor acaba sendo encontrada. Esse material vai parar na Justiça, onde passa a fazer parte do processo.

Contudo a condenação dos traficantes gera, na maioria das vezes, a perda dos bens que foram apreendidos por ocasião da desarticulação dos grupos.

Tentáculos

Um levantamento feito pela Polícia Civil indicou a existência de, pelo menos, 60 pontos de vendas de drogas na Capital. Todos eles acabaram sendo ´estourados´ pela Denarc no decorrer da ´Operação Tentáculos´.

Mesmo com o fim da operação, a intensa ação da Polícia para conter o avanço do crack em Fortaleza não parou. Assim, novas prisões vêm sendo efetuadas quase que diariamente.

Na semana passada, a Polícia Federal informou de forma discreta e sem revelar nomes, a prisão de mais um grande traficante que atuava em Fortaleza. ?Policiais federais monitoravam o chefe da organização criminosa desde dezembro passado?, informou a PF em nota.

FIQUE POR DENTRO

Traficantes impõem a ´lei do silêncio´

O medo das testemunhas em denunciar os traficantes e seus matadores é uma das principais dificuldades que as autoridades policiais e a própria Justiça enfrentam para chegar aos assassinos. Nos redutos da periferia, onde os traficantes atuam de forma ostensiva, desafiando a tudo e a todos, impera a ´lei do silêncio´. Moradores se tornam reféns do silêncio imposto pelos chefes de quadrilhas. Quem ´falar demais´ morre.

Nem mesmos ex-integrantes de quadrilhas ou simples usuários ameaçados ousam fornecer para as autoridades informações que possam levar ao desmantelamento dos bandos e a conseqüente prisão dos seus chefes.

A lei de número 11.343/2006, a Lei de Drogas, em seu artigo 41, estipula que ´o indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal, na identificação dos demais co-autores ou partícipes do crime e na recuperação, total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um a dois terços.´

Em outras palavras, trata-se das ´delação premiada´, recurso previsto em lei que beneficia aquele infrator que, voluntariamente, decide colaborar com as autoridades policiais ou judiciárias para a desarticulação de grupos criminosos. Mas, no Brasil, a ´delação premiada´ ainda tem tido resultados ainda tímidos. O medo de denunciar beneficia os traficantes.

Fonte: Diário do Nordeste, www.diariodonordeste.com.br