Bangu: ordem para soltar presos veio de presídio, afirma polícia

Bangu: ordem para soltar presos veio de presídio, afirma polícia

Transferência de três traficantes para presídio fora do Rio já foi pedida. Duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas na ação.

Investigações da Polícia Civil do Rio apontam que a ordem para libertar os presos no Fórum de Bangu, que terminou em tiroteio nesta quinta-feira (31), e com a morte de um menino de 8 anos e de um policial militar, partiu de dentro de uma penitenciária de segurança máxima.

Segundo a polícia, o traficante Celsinho da Vila Vintém teria ordenado o ataque. Nesta sexta-feira (1º) a Secretaria de Segurança Pública pediu a transferência dele e de outros dois traficantes para um presídio.

Os traficantes Vanderlan Ramos da Silva, conhecido como "Chocolate", e Alexandre Bandeira de Melo, o "Piolho", que seriam libertados pela quadrilha durante a invasão, também tiveram a transferência pedida para um presídio de segurança nacional.

"Foi uma ação ousada que vai ter uma resposta necessária o suficiente, mas com muita parcimônia, com muita tranquilidade", disse o delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios (DH), responsável pelo caso.

Além do menino Kayo da Silva Costa e do sargento Alexandre Rodrigues de Oliveira, 39 anos, que foram enterrados nesta sexta, outras duas pessoas ficaram feridas na troca de tiros. Um PM e uma mulher de 54 anos ainda estão internados, sem risco de morrer, segundo a Secretaria de Estado de Segurança.

O fórum permaneceu fechado para realização da perícia. De acordo com a polícia, um dos homens que estava na ação foi identificado com ajuda das imagens das câmeras de segurança do fórum. Ele seria o traficante identificado como Leandro Nunes, o Scooby, que é foragido da Justiça e teve a recompensa aumentada para R$ 5 mil pelo Disque-Denúncia.

Segundo a polícia, o traficante chefiava o tráfico de drogas no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, quando traficantes derrubaram, em 2009, um helicóptero da Polícia Civil. O criminoso fugiu do local após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, há três anos.

Oito detidos em operação

Para tentar localizar os criminosos que participaram da operação, a Polícia Militar realizou operações nas favelas da Zona Oeste. Em Vila Vintém, que fica em Padre Miguel, bairro vizinho a Bangu, os policiais foram recebidos com tiros. Segundo a polícia, até o fim da tarde desta sexta, oito pessoas haviam sido presas. Um dos carros usados na ação foi encontrado na quinta e outro veículo achado nesta sexta também pode ser dos criminosos.

Imagens feitas pelas câmeras de segurança de um posto de gasolina mostram o momento que Kayo foi atingido pelo tiro e o desepero da avó dele que acompanhava o neto. Um cinegrafista amador também registrou o som dos tiros disparados durante o confronto entre traficantes e policiais após a invasão do Fórum.

Enterros

O menino Kayo foi enterrado sob clima de forte comoção no Cemitério Murundu, em Padre Miguel. Durante o sepultamento, os pais e avós do garoto fizeram críticas à ação da polícia no Fórum de Bangu.

Rosana da Silva, avó de Kayo, estava com ele na hora da ação dos criminosos. ?Na hora eu não pensei em nada, eu não vi nada. Eu só vi muita polícia e começaram os tiros, não deu nem tempo da gente correr. Na hora, só pedi a Deus para tirar ele dali, para salvar ele. Na hora só pensei: Senhor, não era para eu estar aqui agora com ele?, lamentou.

Além de colegas do futsal, também foram ao enterro colegas da turma da 3ª série da Escola Municipal Bangu. Acompanhado da mãe, a dona de casa Eliane Batista dos Santos, o menino Thyago, de 9 anos, chorou muito lembrando de seu melhor amigo na escola e no futsal. "A gente estudava junto desde o jardim de infância. Ele era inteligente e bom de bola. A gente jogava na mesma posição, centroavante. Mas ele era muito melhor do que eu", disse Thyago.

"Herói" é enterrado

À tarde, foi a vez de o PM Alexandre Rodrigues Oliveira, de 40 anos, ser enterrado, no Cemitério de Sulapac, também na Zona Oeste. Cerca de 200 pessoas acompanharam o cortejo. O soldado foi considerado um "herói" pelo delegado Rivaldo Barbosa por ter perdido a vida impedindo a libertação dos criminosos. A família dele estava desolada no enterro.

"Ele estava havia 18 anos na PM e estava havia cerca de um ano no fórum. Ele gostava, achava mais tranquilo. O que aconteceu pegou a gente de surpresa. Fica até difícil falar. Ele gostava do que fazia, amava a farda, trabalhava com gosto e com prazer. Não era de comentar o que se passava por lá, mas por ser da igreja (evangélica) achava mais tranquilo que voltar para o trabalho de rua", contou o pai do PM.

Segurança do fórum gera impasse

O reforço da segurança de audiências na Justiça com a presença de criminosos causou um impasse entre autoridades do Rio de Janeiro após a invasão em Bangu. Nesta sexta, a presidente do Tribunal de Justiça (TJ), desembargadora Leila Mariano, disse que a cabe à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) informar sobre a periculosidade dos réus e testemunhas do processo. A Seap informou que quem conhece a periculosidade e a particularidade de cada inquérito são os juízes, e deu o exemplo do caso de Fernandinho Beira-Mar. O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que o TJ usa os "efetivos cedidos da maneira que a segurança deles convém".

Fonte: G1