""Ou Eliza está viva ou crime não foi como jovem de 17 anos diz"", afirma criminalista

""Ou Eliza está viva ou crime não foi como jovem de 17 anos diz"", afirma criminalista

Segundo o relato do adolescente à polícia, Eliza foi estrangulada e esquartejada

A falta de vestígios da suposta execução de Eliza Samudio pode se tornar um ponto frágil no inquérito da Polícia de Minas Gerais sobre o desaparecimento da ex-amante do goleiro Bruno. Para o advogado criminalista e presidente da Comissão de Fiscalização e Defesa da Advocacia da OAB-SP, Mario de Oliveira Filho, ou Eliza está viva, ou o crime não ocorreu da forma como foi delatado pelo jovem de 17 anos, primo de Bruno e estopim de seu pedido de prisão. "É inadmissível, em termos técnicos, nada ter sido encontrado", afirmou.

Segundo o relato do adolescente à polícia, Eliza foi estrangulada e esquartejada pelo ex-policial militar Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, em uma casa em Vespasiano (MG). Depois disso, partes de seu corpo teriam sido jogadas aos cães da casa onde foi morta, e outras partes concretadas. "Esquartejar uma pessoa é muito complicado, desossar é pior ainda, pela forma como isso tem que ser feito, pela quantidade de sangue no local, nas roupas, além de vestígios de ossos, cabelo, e incrivelmente, por mais que se esforce, a polícia não consegue encontrar nada no local do crime apontado pelo jovem", disse Oliveira.

Na avaliação do criminalista, o caso se baseia no depoimento do jovem e isso expõe a maior fragilidade das investigações. "Uma coisa que pode ser favorável ao Bruno é o fato do menor ser a peça chave de toda a investigação e da acusação dos demais envolvidos (...) A todo o momento ele muda seu depoimento, disse que o Bruno estava no local do crime, mas depois desmentiu. Isso começa a mostrar a fragilidade desse relato", disse.

Em coletiva concedida na sexta-feira, o delegado Edson Moreira afirmou que o depoimento do jovem é "contundente e tem lastro". Um exemplo usado por ele é o caminho feito pelos suspeitos do sítio de Bruno, em Esmeraldas, até a casa de Bola. "Ele descreveu com detalhes o trajeto (...) Descreveu de forma precisa os cômodos da casa. (...) Quem descreve o local, a casa, da maneira como foi, reconhecendo a fotografia do Bola inclusive, não tem jeito de ser um depoimento inverídico. Ninguém tem condições de inventar uma história mirabolantes daquela".

De acordo com o adolescente, Bruno não tinha conhecimento do sequestro, nem da morte de Eliza, e não estava no local do crime. Filho diz que, com base nisso, a defesa do atleta poderia reforçar a tese do "excesso de mandato". "O Bruno, que exerceria um fascínio sobre Macarrão e os demais, pode ter dito para eles: "dêem um susto nela, uns tapas", e eles podem ter se excedido, ultrapassando o que ele mandou ser feito (...) ele pode alegar que não mandou matar Eliza".

Nessa semana, em entrevista ao Jornal do Terra, o perito George Sanguinetti, médico que a defesa do goleiro Bruno quer contratar para uma investigação particular, afirmou que "não há, até o momento, uma ordem direta do jogador para matar Eliza". "Bruno não teria dito claramente "mate, execute", e sim "resolva ao problema"", afirmou o perito, que também defende uma busca mais precisa por resíduos na casa de Bola.

Filho acredita que o caso poderá ir à júri popular, mesmo sem corpo, mas se houver qualquer dúvida durante o julgamento, os réus podem ser absolvidos. "Frágil o caso não é, mas começa a ficar mais evidente que há problemas. Bruno pode alegar que não mandou matar Eliza. E se o depoimento do adolescente for desmoralizado?", questionou.

O caso

Eliza desapareceu no dia 4 de junho, quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano passado, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.

No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas dizendo que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Durante a investigação, testemunhas confirmaram à polícia que viram Eliza, o filho e Bruno na propriedade. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, de 4 meses, estava lá. A atual mulher do goleiro, Dayane Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado. Por ter mentido à polícia, Dayane Souza foi presa. Contudo, após conseguir um alvará, foi colocada em liberdade. O bebê foi entregue ao avô materno.

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em depoimento, admitiu participação no crime. Segundo o delegado-geral do Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DIHPP) de Minas Gerais, Edson Moreira, o menor apreendido relatou que o ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, estrangulou Eliza até a morte e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães. Segundo o delegado, no dia do crime, o goleiro saiu do sítio com Eliza e voltou sem ela, o que indicaria que o goleiro presenciou a ação.

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Os três negam participação no desaparecimento. A versão do goleiro e da mulher é de que Eliza abandonou o filho. No dia 8, a avó materna obteve a guarda judicial da criança.

Fonte: Terra, www.terra.com.br