Juíza morta denunciou mais de cem policiais por fraude em autos

Juíza morta denunciou mais de cem policiais por fraude em autos

Dois PMs foram responsáveis pelos 21 disparos que mataram Patrícia Acioli.

O promotor de Justiça Paulo Roberto Mello Cunha, que atuava com a juíza Patrícia Acioli, na 4ª Vara Criminal de São Gonçalo (região metropolitana do Rio de Janeiro), prestou depoimento nesta terça-feira (29) e explicou como funcionava o trabalho que ambos faziam para coibir execuções praticadas por policiais na cidade.

Segundo ele, de 2005 a 2011, 56 autos de resistência foram maquiados e mais de cem policiais foram denunciados pela juíza em São Gonçalo. "Entre 2008 e 2009, houve uma queda de 70% em autos fraudados. Diz-se que a polícia mata mais, quando trabalha mais. Mas apesar dessa diminuição, os índices de criminalidade não caíram. O autos eram usados para a corrupção policial e diminuíram porque eles estavam sendo investigados e não podiam matar", disse Cunha.

De acordo com o promotor, a investigação começou em 2008, quando ele teve acesso a autos de resistência de 2005, possivelmente maquiados. Os autos são documentos em que os policiais explicam confrontos entre eles e supostos criminosos.

"Quando o auto é fraudado, o policial explica a morte de uma pessoa, mas ela entra em contradição com o laudo cadavérico. Ele diz que trocou tiros com um criminoso, que, na verdade, foi executado", explicou. "O Jéfferson havia sido denunciado por sete autos fraudados e o Jovanis por três ou quatro", disse.

O promotor falou durante o julgamento de três PMs --Jéfferson de Araújo Miranda, Jovanis Falcão Júnior e Junior Cezar Medeiros-- acusados de assassinar a juíza em agosto de 2011. O júri acontece na 3ª Câmara Criminal de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Entenda o caso

De acordo com a investigação da Divisão de Homicídios, dois PMs foram responsáveis pelos 21 disparos que mataram Patrícia Acioli: o cabo Sérgio Costa Júnior e o tenente Daniel Santos Benitez Lopez, que seria o mentor intelectual do crime, a mando do tenente-coronel Cláudio Oliveira.

Outros oito policiais militares teriam realizado funções operacionais no planejamento do assassinato e responderão por formação de quadrilha e homicídio. Apenas Handerson Lents Henriques da Silva, que seria o suposto informante do grupo, não foi denunciado por formação de quadrilha.

O assassinato de Patrícia Acioli se deu por volta de 23h55 do dia 11 de agosto de 2011, quando ela se preparava para estacionar o carro na garagem de casa, situada na rua dos Corais, em Piratininga, na região oceânica de Niterói. Benitez e Costa Júnior utilizaram uma motocicleta para seguir o veículo da vítima.

Algumas horas antes de morrer, a magistrada havia expedido três mandados de prisão contra os dois PMs, réus em um processo sobre a morte de um morador do Morro do Salgueiro, em São Gonçalo.

A juíza era conhecida no município por adotar uma postura combativa contra maus policiais. Segundo a denúncia do MP, o grupo seria responsável por um esquema de corrupção no qual ele e os agentes do GAT recebiam dinheiro de traficantes de drogas das favelas de São Gonçalo.

Fonte: UOL