Polícia suspeita que prefeito seja mandante da morte de adversário

Polícia suspeita que prefeito seja mandante da morte de adversário

5 estão presos acusados de homicídio, entre eles 3 secretários municipais. Gravação em gabinete mostra prefeito entregando dinheiro a 2 vereadores

A Polícia Civil investiga a morte de André da Silva Conceição, conhecido como Andrezinho, assassinado no dia 12 de maio de 2011 com dois tiros na frente de própria casa, em Japeri, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Ele seria adversário político do atual prefeito e candidato à reeleição pelo PSD, Ivaldo dos Santos, o Timor. Cinco pessoas estão presas acusadas de ligação com a morte. Entre elas, três secretários municipais.

As investigações tiveram início no ano passado. A polícia tem convicção do envolvimento do prefeito no crime. "A investigação está bem conduzida nesse sentido de que o prefeito Timor é um possível mandante do crime. Todos estão presos, denunciados, com exceção do prefeito?, afirma o delegado Carlos Augusto da Silva.

A equipe de reportagem esteve na prefeitura de Japeri, mas não foi recebida pelo prefeito. Por telefone, o advogado disse que Timor não vai falar sobre as denúncias. "No momento não tem o que se pronunciar nesse sentido. Porque os fatos são absolutamente estranhos a ele", afirmou. Com foro privilegiado, o prefeito só pode ser indiciado depois de uma requisição do procurador-geral de Justiça. O inquérito foi enviado a ele no dia 26 de julho.

Banca de sorvete

Imagens obtidas pela polícia mostram funcionários da prefeitura recolhendo a banquinha de sorvete que pertencia à vítima. O comerciante André da Silva Conceição, pai de três filhas e adversário político do prefeito, reclama da ação e diz que Timor não gosta dele.

"Ele falou que me odeia. Cheio de buraco na cidade para tampar, parou a cidade por causa do Andrezinho", diz na gravação. "Minha mãe está com medo de ele me matar, minha mãe passou a noite chorando", completa.

Propina

O prefeito Timor gravou imagens de uma reunião em que entrega maços de notas de dinheiro para dois vereadores do PSB: o presidente da Câmara Municipal, Zé Ademar, e Valter de Macedo, o Val. A câmera foi colocada de modo a não mostrar o rosto da pessoa que entrega o dinheiro aos dois vereadores, mas ela fica ligada até o momento em que o prefeito leva um dos vereadores até a porta, quando é possível ver o rosto de Ivaldo dos Santos.

As imagens, gravadas em março de 2011, foram periciadas pela polícia e consideradas autênticas. Segundo o delegado Carlos Augusto da Silva, o dinheiro teria sido entregue em troca de apoio ao prefeito. "Pela análise do conteúdo dos diálogos, tudo leva crer que se trata de pagamento de propina em troca de apoio político", afirma.

Naquela época, os dois vereadores estavam ameaçando fazer uma aliança com a oposição. A polícia acredita que, depois de reconquistar o apoio dos dois vereadores, o grupo do prefeito decidiu matar Andrezinho.

Assassinato

Imagens do dia do crime, 12 de maio de 2011, mostram Andrezinho em seu restaurante. Ele havia instalado câmeras de vigilância no estabelecimento para aumentar a segurança. Com o comércio já fechado, um homem identificado Sidnei Coutinho, que na época era secretário municipal de Assistência Social de Japeri, chega ao local. Segundo as investigações, Coutinho foi até o banheiro e informou, pelo celular, o momento em que a vítima iria embora e as roupas que estava vestindo.

Pouco antes das 21h, Andrezinho saiu do restaurante. Ele foi assassinado de joelhos, com dois tiros, na frente da própria casa. O atirador ainda levou alguns objetos para simular um assalto. As investigações, no entanto, apontaram a motivação política do crime.

Prisões

Dois meses depois, a polícia prendeu o homem que seria o assassino. Tiago Rosa da Silva, o TH, é gerente do tráfico em um dos bairros de Japeri.

A chave da investigação, no entanto, foi a prisão de Ítalo Gomes Nery, o Dudu. Ele era motorista da prefeitura de Japeri e, segundo a polícia, foi quem contratou o atirador e o levou até a casa de Andrezinho. Dudu apontou ainda um dos mandantes do crime: Seny Júnior, ex-secretário de governo de Japeri.

Em um cofre na casa de Seny Júnior os investigadores acharam o pen drive com as imagens do prefeito entregando dinheiro aos vereadores. "Como nós apreendemos esse pen drive, ele se mostrou bastante nervoso, inclusive temeroso por sua vida, dizendo que se o segredo ali fosse revelado ele seria um homem morto", apontou o delegado.

Seny Júnior foi preso no último dia 22 de junho. No dia seguinte, a polícia prendeu outro secretário municipal: Cláudio Vieira, tio do prefeito Timor, que emprestou o carro usado no crime. Mesmo na cadeia, ele ainda é secretário em Japeri.

No dia 8 de agosto, foi preso o terceiro secretário: Sidnei Coutinho, o homem que aparece nas imagens do restaurante no dia do crime. Os cinco presos foram denunciados pelos promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e já tiveram um habeas corpus negado pela Justiça.

Além do prefeito, a equipe de reportagem também procurou os vereadores que receberam o dinheiro, mas nenhum deles estava na Câmara Municipal.

Arrependido

Na delegacia, o motorista Dudu confessou participação no crime e pediu para conversar com a mãe da vítima. "Primeiramente, já pedi muito perdão a Deus pelo que eu fiz, estou aqui quero pedir perdão à senhora, a senhora não é obrigada a aceitar porque eu sei da dor que a senhora está sentindo", disse.

"Eu sou mãe, eu sou mãe. A dor, a saudade não vai passar nunca. Apesar de todo sofrimento que você me fez, eu tenho pena de você", falou a mãe da vítima.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) informou que as cópias dos autos referentes à investigação de crime com motivação política em Japeri ainda não foram remetidas à Procuradoria-Geral de Justiça. No dia 2 de agosto deste ano, Promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), responsável pela denúncia contra o grupo acusado de assassinar André da Silva Conceição, requereram ao Juiz da 1ª Vara de Japeri que encaminhasse cópias ao Procurador-Geral de Justiça, porque na época havia sigilo da investigação. O procedimento ocorreu porque havia indícios de participação de pessoa com prerrogativa de função, o que será apurado pela Procuradoria-Geral de Justiça com a chegada das cópias dos autos, que estão no Cartório da 1ª Vara de Japeri.

Fonte: G1