Sequestrador diz que planeja novos atos após manter refém por 8 horas em hotel e Brasília

Ele disse não ter se arrependido do que fez, embora considere ter sido seu “maior erro”.


Preso após manter refém durante oito horas o mensageiro do hotel Saint Peter, no centro de Brasília, Jac Souza dos Santos afirmou nesta terça-feira (30) que planeja “novas ações para chamar a atenção do povo brasileiro” e disse não ter se arrependido do que fez, embora considere ter sido seu “maior erro”.

As declarações foram dadas na 5ª Delegacia de Polícia Civil.  “Não sou um criminoso. Jamais tive a intenção de tirar a vida de pessoas inocentes, jamais eu teria a intenção de tirar a minha própria vida. Fui muito cauteloso ontem, durante o andamento dos nossos trabalhos”, disse. “Tudo o que eu fiz foi pelo cidadão brasileiro. Tudo o que eu faço é pelo cidadão brasileiro. Tenho que agradecer muito a Deus que tocasse no coração daqueles fuzileiros que não me dessem aquela bala ontem. Deus predestinou que eu iria lutar e irei lutar. Eu não abaixarei a cabeça.” De acordo com Souza, a ação vem sendo planejada desde dezembro de 2012.

Ele conta que tentou entregar uma carta ao governo de Tocantins, onde mora, com seis solicitações relacionadas a política. No documento, ele dizia ter uma doença em estágio terminal. O homem afirma que a falta de resposta o impulsionou se programar “para uma ação maior”. Souza disse que confeccionou sozinho os explosivos falsos – usando cano de PVC, serragem e cimento – e que comprou a arma de brinquedo e as algemas na Feira dos Importados. Ele escolheu o Hotel Saint Peter em lembrança ao fato de José Dirceu, condenado no julgamento do mensalão, ter recebido oferta para trabalhar no estabelecimento com um salário de R$ 20 mil.

O homem chegou a Brasília no domingo e também deixou explosivos falsos na Rodoviária do Plano Piloto e no Aeroporto JK. Além disso, escreveu cartas de despedida a familiares como forma de dar maior “veracidade”. “Subi para o quarto às 7h e liguei na recepção para chamar a camareira. Fechei a porta, saquei a arma de cetim. Vi que ela não estava preparada, ficou muito nervosa. Ela poderia morrer, e eu jamais quis matar uma pessoa. Posteriormente, liguei para a recepção e pedi para subir o rapaz. Foi o mesmo que me atendeu cedo. Ele passou a noite trabalhando, vi que ele estava cansado, não ia fazer isso com ele”, explicou. Souza disse que então perguntou por algum funcionário que estivesse iniciando o plantão e solicitou a ida dele ao quarto. Quando o mensageiro José Ailton de Souza chegou, ele o questionou sobre o estado de saúde e disse ter o escolhido porque “ele tinha boa saúde”.

Em entrevista, o funcionário afirmou que está com “a cabeça muito confusa” e que não tem previsão para voltar a trabalhar. Responsável pelas investigações, o delegado Marco Antônio de Almeida disse desconsiderar a possibilidade de que o homem precise passar por uma avaliação psiquiátrica. “O discurso dele é muito coerente. Pode até ser que ele tenha algum nível de patologia, mas pessoalmente não acredito ser o caso.” O delegado disse também que a equipe acreditou na possibilidade de um ataque terrorista e que os atiradores ficaram posicionados à espera de autorização para disparar contra o suspeito. “Ele correu um risco muito grande de se autorizar o uso de uma força letal para cessar aquela ameaça. O tomador de decisão cogitou essa possibilidade.”

Ainda segundo Almeida, os negociadores perceberam que o mensageiro começou a desenvolver a Síndrome de Estocolmo – quando a vítima passa a se afeiçoar ao sequestrador. “O senhor Ailton auxiliava o Jac. Dizia: ‘olha, cuidado, tem alguém ali, podem te atingir. Olha, ali tem uma luz’”, explica. A vítima passou todo o tempo que durou o sequestro usando um colete com dinamites falsas e sob a mira de uma pistola de brinquedo por um homem que exigia reforma política no Brasil.

O mensageiro, que mora no Novo Gama (GO) e trabalha no estabelecimento há três anos, afirma que não pretende dar detalhes sobre o caso. “Já declarei tudo à delegada”. Segundo o delegado Paulo Henrique de Almeida, ele falou em depoimento que não sabia que a arma e o explosivo eram falsos e que sentiu medo. “Ele foi claro em falar com a gente que ele ficou bem amedrontado. Disse: ‘Se eu soubesse que era falso, eu poderia até ter reagido’. Tinha policial por perto, se ele gritasse que não eram verdadeiros seria socorrido na hora.”

A polícia acredita que Souza agiu sozinho. De acordo com delegado, o homem responderá por sequestro, com agravante de prejuízo moral à vítima. A pena varia de 2 a 8 anos de prisão, e não há possibilidade de fiança. O sequestrador ainda pode receber multa referente aos custos da operação, que envolveu mais de 150 policiais.

 

 



Fonte: G1