Única universitária da Fundação Casa teme ser discriminada

Única universitária da Fundação Casa teme ser discriminada

Garota de 17 anos tem permissão para ir à universidade todas as manhãs.

A maioria dos adolescentes que chegam à Fundação Casa para cumprir medidas socioeducativas tem defasagem no ensino, por ter abandonado a escola antes de concluir os ciclos. Atualmente entre os 6.771 adolescentes internados nas 132 unidades espalhadas pelo Estado de São Paulo apenas uma garota de 17 anos faz faculdade.

Não é raro meninas e meninos de 15, 16 ou 17 anos chegarem sem saber ler ou escrever. Às vezes falta conhecimento para redigir o próprio nome. Alguns só conseguem copiar o que está na lousa sem saber o que estão escrevendo. Muitos são alfabetizados durante a permanência na Fundação. No ano passado, apenas 74 adolescentes fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e só 49 deles conseguiram média para o Programa Universidade para Todos (ProUni).

A única universitária da Fundação fez o Enem, mas não teve pontuação suficiente para conseguir vaga em uma instituição pública. Ela chegou na unidade da Mooca há um ano e meio, mas não revela sua infração. Concluiu o ensino médio dentro da unidade e prestou vestibular no ano passado.

Todas as manhãs ela tem autorização para sair da Fundação e assistir as aulas em uma universidade particular da capital. Um funcionário a acompanha, mas não entra na sala de aula. A mensalidade é paga pela família. Os colegas e os professoes não sabem que ela cumpre medida socioeducativa. A garota teme discriminação caso seja descoberta, por isso só aceitou dar entrevista ao G1 caso os detalhes de sua história fossem omitidos.



O segredo a faz passar por situações embaraçosas como ter de explicar os motivos de não ter telefone celular e inventar desculpas por nunca poder ir às festas da classe. Cursar uma faculdade nunca foi um sonho distante para a garota de classe média que diz estar privada da liberdade por "entrar no embalo" de outras pessoas. Sua irmã mais velha estuda no exterior, e a mãe não se importa em pagar as mensalidades da faculdade. Antes mesmo de chegar à Fundação, ela já pretendia ingressar no ensino superior. Estudava na rede estadual de ensino, diz que era uma aluna de nível médio, e gostava de biologia e filosofia.

Sobre os motivos que a levaram à internação, ela não comenta, mas diz estar arrependida. ?Aprendi a dar valor à minha mãe que sempre me apoiou. Ela vem me visitar toda semana. Meu pai demorou mais para aceitar. Foi um choque para minha família e minha passagem aqui vai dar para levar como lição de vida.?

Sempre que pode, ela diz que incentiva as demais meninas a estudar. A garota está prestes a sair da unidade. Quando isso acontecer, pretende fazer estágio e frequentar ?de leve? as baladas da faculdade. ?Capaz de eu levar minha mãe na primeira?, ri.

"Só aqui soube do Enem"

Na mesma unidade, Cintia (*), de 19 anos, e Beatriz (*), de 17 anos, também querem chegar à faculdade. Cintia vai completar um ano de internação, ela também não quis comentar qual foi sua infração, e garante que foi dentro da Fundação que se interessou pelos estudos.

?Parei de estudar porque não consegui aprender e desanimei. Aqui dentro tive mais oportunidade porque as aulas são praticamente particulares. Só aqui soube do Enem?, diz a jovem, que conseguiu boa pontuação na prova. Como está prestes a ser desinternada, Cintia pretende fazer curso técnico de enfermagem em São Carlos, onde mora sua família. Ela escolheu esta profissão porque gosta de "ajudar as pessoas".

O tráfico de drogas levou Beatriz à unidade em janeiro de 2009. A adolescente conta que entrou nessa ?por impulso?, mas quer recomeçar a vida. ?O sonho dos meus pais era de que eu fizesse faculdade. Quero que eles tenham orgulho de mim. Nunca mais vou esquecer minha passagem por aqui, mas um erro não pode me impedir de viver a vida.? Beatriz gosta ler ? durante a entrevista estava com um livro de Sidney Sheldon nas mãos ? e pensa em estudar medicina veterinária. Na verdade, ainda tem dúvida já queria mesmo se tornar uma DJ famosa, pois gosta de música e balada.

"Sábado é o melhor dia que tenho"

Antes de chegar na Fundação por ser flagrado roubando, Daniel (*), de 18 anos, tinha ficado um ano fora da escola porque estava "envolvido no crime." Na unidade, incentivado pelos professores, pegou gosto pelos estudos. Começou este ano a frequentar um cursinho pré-vestibular, aos sábados, após conseguir uma bolsa de estudos. "Quero sair dessa vida, agora aprendi a respeitar regras. Só parando aqui para dá valor. No cursinho, vi um mundo diferente. Sábado é o melhor dia que tenho."

Daniel quer estudar direito, tem se dedicado, pretende fazer o Enem para conseguir uma vaga em uma universidade federal, ou bolsa nas particulares. Um funcionário da Fundação Casa o acompanha durante as aulas no cursinho e os colegas não sabem que ele cumpre medida socioeducativa. "Se me perguntarem eu falo. Não tenho vergonha. Quem nunca errou na vida? Sei que vou mudar."

Dificuldade para ler

Guilherme (*) tem 17 anos mas ainda não lê e escreve com fluência. Ele cumpre medida socioeducativa por tráfico e há seis meses está na unidade da Vila Maria. Lá, matriculado na 3ª série do ensino fundamental, aprendeu a escrever um pouco melhor. Para ler, a dificuldade é maior. "Pretendo fazer algo de bom na minha vida e colocar a cabeça no lugar."

O jovem diz sentir vergonha por não ser alfabetizado aos 17 anos e muitas vezes teve de pedir ajuda de desconhecidos para conseguir pegar um ônibus. "Agora está mais fácil, já aprendi muita coisa, dá para usar mais a cabeça. Como só tem quatro alunos na minha sala é como ter aula particular." Guilherme pretende terminar os estudos e assim que deixar a Fundação, conseguir uma vaga em um time de futebol.

Fonte: g1, www.g1.com.br